Andressa Anholete/AFP
Andressa Anholete/AFP

Presos fazem batalha campal em Alcaçuz; polícia atira

No 6º dia da guerra de facções, detentos ocuparam telhados e a área externa do pavilhão; polícia disparou balas de borracha e bombas de efeito moral

Marco Antônio Carvalho, Enviado especial de O Estado de S. Paulo

19 Janeiro 2017 | 11h39
Atualizado 19 Janeiro 2017 | 20h18

NÍSIA FLORESTA - De cima, era clara a movimentação estratégica das facções na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, na Grande Natal, ao longo desta quinta-feira, 19. O ponto em disputa era o pavilhão 3 da unidade, antes ocupado por detentos considerados neutros e também por presos ligados ao Sindicato do Crime (SDC). 

Perto dali, integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) que só ganharam força desde o massacre do sábado passado, quando mataram 26, queriam avançar ainda mais no território do presídio e conquistar mais um pavilhão - além do pavilhão 5, o 4 já havia passado para a organização de origem paulista desde os assassinatos. Essa disputa, travada com armas artesanais, entre lanças e escudos, e com os pés na areia, representou o confronto mais intenso entre as partes na cadeia desde o início da semana. 

O sexto dia de rebelião em Alcaçuz começou cedo. Nas primeiras horas da manhã, detentos dos dois lados voltaram a ocupar os telhados dos pavilhões e traçar objetivos para ameaçar e confrontar a parte rival. A polícia, que havia entrado no local na noite de quarta para transferir 220 detentos do SDC, havia voltado a ocupar somente as guaritas do local. A transferência foi apontada como um dos fatores que desencadeou a nova briga. 

Isso porque as duas centenas de presidiários retirados da unidade eram ligados ao Sindicato, o que enfraqueceu a resistência contra o PCC, que optou por avançar no terreno. Do alto dos muros, o barulho dos disparos de armamento não letal efetuados por PMs e agentes penitenciários ecoavam na região, além das explosões das bombas de efeito moral. A corporação queria evitar à bala a aproximação dos grupos criminosos.

No meio da manhã, a tensão aumentou e os ataques se sucederam com pedras, paus e lanças, e até com disparos de arma de fogo. No momento de maior tensão, o diretor da unidade Ivo Freire subiu em uma das guaritas e virou alvo dos presos. Um tiro de arma de fogo disparado em sua direção com intenção de matá-lo atingiu a parede da guarita, esfarelando o cimento atrás dele e causando grande susto.

 

 

Freire divulgou um vídeo nas redes sociais negando que tivesse sido baleado e assegurando que estava bem de saúde. Ele não comentou as demais circunstâncias do ataque. No presídio, o cenário notado desde o domingo passado continuava: bandeiras hasteadas e falta de controle sobre a circulação dos presos. 

Próximo a uma das guaritas, de cima de um dos pavilhões, um preso gritava pela atenção da PM pedindo que liberasse o acesso para que os próprios presos "dessem um jeito" na situação. Presos feridos estavam sendo retirados do confronto pelos próprios detentos em um carrinho usado para transportar alimentos e levados até um acesso na portaria da cadeia. Para lá foram acionadas duas ambulâncias do Samu. Apesar de as imagens mostrarem os ferimentos, o governo do Estado não confirmou a quantidade de detentos que haviam sido atingidos de alguma forma. 

Era possível para pedestres visualizar o confronto do alto de um morro vizinho ao presídio. Foi para lá que se deslocaram dezenas de familiares de presos em buscas de informações sobre o conflito. Sob um sol que fazia a temperatura superar os 30ºC, e que nem mesmo o vento intenso era capaz de amenizar, a cozinheira Luciana Cirilo, de 41 anos, se desesperava pela condição do filho de 22 anos, preso há dois anos em Alcaçuz por uma condenação de oito anos por tráfico de drogas.

 

 

 

"Quero meu filho vivo. Ele já está pagando pelo crime que cometeu. Não é justo pagar com a vida", esbravejava em direção à cadeia e deixando a posição numa das poucas sombras que o local de vegetação predominantemente rasteira proporcionava. Luciana cobrava uma ação policial mais eficiente para que a rebelião terminasse sem novas mortes. "Não tem uma polícia aí dentro. E já sabemos que há muitos feridos", disse.

Balançando o braço, o rapaz que só quis se identificar como Rafael, de 23 anos, falava ao telefone e tentava mostrar onde estava para o cunhado, posicionado sobre o telhado do pavilhão 2. "Com a transferência, eles do sindicato ficaram em minoria e o PCC avançou para tomar tudo", disse. Ele reclamava da atuação da PM. "Parece que só estão atirando no Sindicato. Por que não atira no PCC também?", completou. Os disparos notados pela reportagem aconteceram em diferentes guaritas, afetando ambos os lados da disputa. 

Também pelo telefone, uma mulher que se identificou apenas como Luciana aguardava informações do filho. Acordou com as imagens do novo confronto sendo transmitidas pela televisão e correu para o local. "Eles, do Sindicato, estão com medo, porque tiraram e restou bem pouquinho. Não era para ter feito isso", lamentava no auge do confronto, no fim da manhã. Ela disse que a continuidade da disputa forçou até os presos religiosos, considerados neutros na disputa, a "largar a Bíblia para pegar a faca, porque ninguém está seguro, não". 

No início da tarde, o clima de relativa tranquilidade, em comparação à manhã, só foi rompido por um incêndio no pavilhão 3 que espalhou uma fumaça negra pela unidade prisional. Pouco depois, às 17 horas, agentes do Batalhão de Choque, do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e do Grupo de Operações Especiais (GOE), dos agentes penitenciários, entraram na unidade com objetivo de cessar a livre circulação e a ameaça de confronto entre os presos. Até as 20 horas, o ônibus da equipe permanecia no interior do presídio, avançando aos poucos. A operação, que havia sido anunciada à tarde pelo governador Robinson Faria (PSD), não teve os detalhes divulgados, como informações sobre eventuais retiradas de presos e tempo de permanência da tropa no local. 

Entrada proibida. A nova rebelião aconteceu no dia seguinte à retirada de 220 internos ligados ao SDC do local. O governo do Estado remanejou presos entre três unidades visando a acalmar a situação em Alcaçuz. A Justiça, porém, determinou que parte da operação fosse desfeita. A Vara de Execuções Penais de Nísia Floresta, cidade onde está situado o presídio, entendeu que presos foram retirados "à revelia" e estariam "correndo sério risco de morte, em especial porque a rebelião não foi controlada".

Em nota, o Tribunal de Justiça potiguar informou que "neste momento de desconfiança entre os presos, não há possibilidade de saber quem são os presos do Sindicato do Crime". "Só os do PCC estão se declarando como integrantes desta facção."

A decisão de interromper a operação montada pelo Estado foi tomada pela juíza Nivalda Torquato, que considerou ainda uma decisão de 2015 que interditou Alcaçuz para novos presos. "Somente por meio de documento oficial e em condições de normalidade é que se pode permutar presos", informou a magistrada.

A transferência de Alcaçuz envolvia a permuta com presos retirados da Penitenciária Estadual de Parnamirim, que seriam divididos entre a unidade em Nísia Floresta e a Cadeia Publica de Natal, na zona norte da capital. O governo disse que não ia comentar a decisão da juíza, mas ressaltou que na terça-feira foi realizada uma reunião com o TJ para repassar as informações sobre as transferências e organizar a operação. 

"Os presos que não entraram em Alcaçuz passaram a noite na Cadeia Pública de Natal. Por questão de segurança, a Secretaria de Segurança não pode repassar informações neste momento sobre a nova operação de transferência", disse o governo em nota. Não foi informado se os detentos retirados serão devolvidos à Alcaçuz.

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