Presos gravam CD e sonham com carreira artística

Presos da Escola Estadual Mário Quintana, que funciona dentro do complexo penitenciário da Frei Caneca, na zona norte do Rio, fizeram um CD com músicas compostas e cantadas por eles mesmos, com letras que falam de paz, amor, liberdade e religião. A experiência está levando os detentos a sonhar com a carreira artística fora da prisão.O CD envolveu o trabalho de catorze internos dos três presídios da Frei Caneca, que gravaram três fitas cassete, posteriormente digitalizadas. Eles compuseram as quinze músicas, fizeram as letras e os arranjos e tocaram violão. A inspiração para as composições saíram das aulas de Ensino Religioso, segundo a professora Ana Maria Amorim Lopes. "Nas aulas, a gente sempre discutia como se chegar à paz e descobrimos que a música é uma forma de falar disso", disse Ana Maria, que também canta. Além das canções, cujos ritmos vão da bossa nova ao rap, há três poesias declamadas pelos presos. Entre os temas abordados, estão a fé em Deus, o dia-a-dia no presídio, o mundo do crime e a saudade da família. "É uma forma de expressar o que sentimos. Acabei descobrindo uma vocação, um novo caminho", acredita Cosmo Vasco da Gama, de 36 anos, preso há seis por homicídio. "Pretendo continuar compondo para garantir o futuro dos meus filhos." A dois anos da liberdade condicional, Joaquim Luiz Cunha da Silva, de 41 anos, preso por assalto, percebeu sua aptidão para a pintura dentro da cadeia e pretende prestar vestibular para Educação Artística quando foi libertado. "Na escola, aprendemos muitas coisas positivas, que me fizeram pintar um mundo bonito. O que os professores contam são nossa fonte de inspiração, já que, aqui, só vemos grades." Condenado a 28 anos de prisão por latrocínio (roubo seguido de morte), Edson de Souza, de 33 anos, quer se tornar artista. "Faço poesia e teatro. Não sabia que tinha tantas qualidades." Evangélico, Gelson Pereira da Conceição, de 36 anos, sonha em se tornar um cantor gospel. "Através da música, vencemos os obstáculos da vida", disse. Ele também está detido por latrocínio e só cumpriu cinco anos de sua pena de vinte.O objetivo não é comercializar o CD, e sim fazer com que os detentos se sintam valorizados por seu trabalho. Foram feitas apenas seis cópias, para as professoras e representantes da Secretaria de Educação. "Eles se sentem respeitados, reconhecidos, com a auto-estima lá em cima. Esse trabalho é fundamental para a ressocialização", defende a professora Ana Maria.

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