Presos policiais acusados de achaque

Corregedoria cumpriu 2 de 5 mandados de prisão; investigadores pediram R$ 1 mi para soltar membro de bando

Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

15 Agosto 2009 | 00h00

A Corregedoria da Polícia Civil prendeu ontem dois dos cinco policiais acusados de extorquir dinheiro de integrantes da quadrilha do megatraficante colombiano Juan Carlos Ramirez Abadía. Os mandados foram expedidos na sexta-feira à noite pela juíza auxiliar Tarcisa de Melo Silva Fernandes, da 12ª Vara Criminal da capital. Estão presos Christian Renner Fernandes de Godoy e Thiago Luiz Berbare Bandeira, ambos de 33 anos. Até as 20h30 de ontem, permaneciam foragidos os investigadores Anselmo Ferreira, Pedro Paulo Rodrigues Oliveira e Cláudio Batista da Freiria. Em depoimento, todos negaram participação nos crimes. Nos próximos dias, a equipe liderada pelo delegado Caetano Paulo Filho, chefe da Divisão de Crimes Funcionais da corregedoria, deve concluir outros dois inquéritos que apuram extorsões ao bando de Abadía. Segundo Paulo Filho, ao final das investigações mais de 30 pessoas deverão ser indiciadas, a maioria policiais e informantes (os chamados gansos). "Aqueles que praticaram crimes estão sendo investigados e serão expurgados dos quadros da Polícia Civil", advertiu o delegado. "Não faremos distinção de carreira nem da classe. Todos vão responder nas esferas criminal e administrativa por seus atos." A corregedoria e o Ministério Público Estadual (MPE) devem pedir novas prisões ao término das investigações. São duas as denúncias (acusações formais à Justiça) que resultaram no pedido de prisão preventiva contra os cinco policiais. Na primeira, o achaque teve como vítima o empresário Daniel Bráz Maróstica, apontado pela Polícia Federal como braço direito de Abadía. Em maio de 2006, Maróstica foi cercado por quatro homens após uma prova de kart em Aldeia da Serra, na Grande São Paulo - três deles seriam os investigadores Oliveira, Bandeira e Freiria, que à época trabalhavam num distrito policial em Diadema, no ABC paulista. Os policiais teriam decidido capturar Maróstica após serem passados para trás por colegas do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc), a quem haviam pedido ajuda para extorquir o traficante colombiano Henry Edval Lagos, o Patcho, amigo de Abadía. Entretanto, os policiais do Denarc foram mais rápido: sequestraram Patcho e lhe tomaram US$ 280 mil (o equivalente a cerca de R$ 514 mil). Inconformados com a traição e atiçados pelo montante obtido pelos colegas em tão pouco tempo, os homens de Diadema resolveram ir atrás de Maróstica para tentar reverter o prejuízo. O empresário acabou forçado a entregar uma moto Yamaha, vendida por R$ 34 mil - o mecânico responsabilizado pela venda, Valter Antonio Gonçalves, é acusado de receptação. O MPE sustenta que, descontente com o que recebeu de Maróstica, Oliveira entrou em contato com Ferreira, Godoy e outras pessoas ainda não identificadas para investir contra outro integrante do bando de Abadía, o piloto de avião André Luiz Telles Barcellos. Em 14 julho de 2006, Barcellos e seu sócio na Vetol Táxi Aéreo, João Pereira de Souza, foram sequestrados pelos policiais. O grupo tomou os R$ 85 mil que as vítimas carregavam - relativos à venda de um carro - e exigiram R$ 1 milhão para libertá-los. No fim das contas, os policiais se contentaram em receber como resgate US$ 100 mil e R$ 110 mil em dinheiro, além de uma picape Nissan Frontier, vendida por R$ 70 mil. "Se esses policiais fizeram isso com bandidos perigosos, o que não fariam com pessoas de bem?", questionou o promotor Everton Luiz Zanella, do núcleo da capital do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPE. Outro argumento apresentado à Justiça foi de que, soltos, os policiais acusados poderiam ameaçar testemunhas. Os advogados dos policiais não foram encontrados ontem. No mês passado, a Justiça já havia decretado a prisão de quatro policiais civil acusados de achacar o traficante colombiano Ramón Manuel Penágos, conhecido como El Negro. Também ligado a Abadía, o criminoso ficou preso em São Paulo durante meses com uma identidade falsa até ser descoberto pelo Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic). FRASES Everton Luiz Zanella Promotor de Justiça do Gaeco "Se esses policiais (acusados de participar dos achaques) fizeram isso com bandidos perigosos, o que não fariam com pessoas de bem?" Caetano Paulo Filho Delegado da Corregedoria da Polícia Civil "Aqueles que praticaram crimes estão sendo investigados e serão expurgados dos quadros da Polícia Civil" "Não faremos distinção de carreira e nem da classe. Todos (os policiais acusados) vão responder nas esferas criminal e administrativa por seus atos"

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