VALÉRIA GONÇALVEZ/ESTADÃO
VALÉRIA GONÇALVEZ/ESTADÃO

Pressão ecológica faz surgirem novas opções ao canudo de plástico

Com avanço de leis que proíbem o utensílio, chefs e bartenders usam versões mais sustentáveis e criativas; tipo reutilizável pode ser levado na bolsa

Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo

22 Julho 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Entre os itens essenciais que a nutricionista Fernanda Bezerra, de 29 anos, sempre carrega está a carteira, o celular e, sim, um canudo de aço inox. O utensílio de metal foi um presente, que ganhou após ter relatado a uma amiga sobre o impacto de ter visto muito lixo no mar em uma viagem às Filipinas. “Chocou um pouco para mim.” 

Atitudes como a de Fernanda estão mais comuns e, podem virar regra. No Rio, a prefeitura iniciou na semana passada a fiscalização da lei que obriga estabelecimentos alimentícios a oferecerem canudos de papel e proíbe a versão em plástico (com multa de até R$ 6 mil). Projeto de lei semelhante tramita na Câmara Municipal de São Paulo e de outras cidades.

Em meio a críticas de ambientalistas, o que tem chamado a atenção em geral são imagens de animais atingidos. O que mais circulou dentre eles é um vídeo em que um canudo é retirado da narina de uma tartaruga. “Sou apaixonada por animais, já vinha vendo esse tipo de coisa e pesquisado na internet, procurando alternativas”, conta a advogada Georgia Moraes, de 25 anos. 

Há cerca de um mês, ela comprou dois canudos reutilizáveis, de vidro e de aço inox. Para ela, o uso da versão em plástico é tão comum que dispensar causa estranhamento. “Já aconteceu de a garçonete oferecer e eu quase pegar, esquecer que tinha na bolsa”, conta.

Entre os adeptos, contudo, o canudo é apenas um dos itens que deixam de consumir. “A gente evita comprar bobeira que tem muito plástico, leva bolsa para fazer compra, opta pelo mercado que a balança fica no caixa”, conta a comerciante Rebeca Simões, de 21 anos. Como não encontrou os canudos reutilizáveis em sua cidade, Silva Jardim (RJ), de 21 mil habitantes, ela improvisou com um copo térmico, que já vem com um canudo removível.

Bares e restaurantes buscam alternativas aos canudos de plástico

O fenômeno também se repete na indústria alimentícia. Apenas nas últimas semanas, o McDonald’s do Reino Unido e a rede Starbucks anunciaram que pretendem abandonar o uso do canudo de plástico em breve. A tendência chegou ao Brasil – e não apenas em restaurantes de comida natural, mas também dentre os mais premiados e sofisticados do País. Nas casas do Grupo Maní, liderado pela chef Helena Rizzo, por exemplo o canudo não é levado para a mesa desde março e, caso solicitado, é enviada uma versão de plástico oxibiodegradável. 

Já o Bar Frank, no Maksoud Hotel, repete a proposta com um modelo de papel. “A gente fez o cardápio atual já pensando que não iria usar canudo”, conta o bartender Spencer Amereno Jr. Segundo ele, a mudança inclui evitar copos longos e prender a decoração. “Para não cair ao virar”, explica. 

O cenário se repete também no interior paulista. A lanchonete Nibs Juice Bar, de São José dos Campos, por exemplo, deixa os canudos de plástico em uma área específica, junto de outros insumos, como açúcar. “A gente manda para a mesa apenas com colheres altas de metal. Isso faz o cliente experimentar e pensar antes de pegar o canudo”, diz a sócia Ana Coelho, de 38 anos. 

Na Companhia de Gastronomia e Cultura (CGC), a solução veio de uma das oito casas do grupo: o Bar Quintana, que servia bombas de chimarrão no lugar dos canudos. “É uma alternativa que já existia. Não foi uma dificuldade e acabou virando um coringa”, conta o fundador, o chef gaúcho Marcos Livi, de 45 anos. De seus estabelecimentos, apenas a hamburgueria C6 teve de tomar outra alternativa, o canudo de macarrão, pela consistência dos milk-shakes. 

Canudos são importantes para parte da população

Calcula-se que um canudo de plástico possa permanecer cerca de 400 anos na natureza, conforme ressalta Cláudio Gonçalves Tiago, professor de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, além de serem consumidos e ferirem animais, esses itens soltam substâncias químicas no ambiente. “A chance de parar no mar é quase 100%. E, em grande parte, os efeitos não são visíveis.” Para o professor, contudo, mais do que proibir o canudo de plástico, a solução passa por manejo adequado e na reciclagem do lixo. “Se acabar totalmente, vai prejudicar pessoas com a mobilidade reduzida. É uma coisa importante.”

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Do inox ao bambu, canudo sustentável é oportunidade de negócio

Com venda para cinemas e restaurantes, produção de canudos de materiais alternativos cresce no País; empresária prevê maior procura durante o verão

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2018 | 16h04

SÃO PAULO -  Durante três anos, Patricya Bezerra, de 33 anos, e Jéssica Pertile, de 30, lideraram eventos pelo meio ambiente em Curitiba. Em 2016, contudo, tomaram um caminho mais amplo e lançaram a BeeGreen, marca de itens domésticos sustentáveis. “Percebemos que o ativismo não era suficiente, faltava dar ferramentas. Muito do que a gente via só tinha fora do Brasil”, conta Patricya, que é engenheira de produção.

Dentre os produtos, o “carro-chefe” são os quatro modelos de canudo inox. Segundo Patricya, a procura aumenta “quase 100% ao mês”, especialmente para revendedoras e restaurantes, girando em torno de 20 mil unidades a cada 30 dias. A maior demanda se concentra nos Estados do Rio e de São Paulo, mas há crescimento também no Distrito Federal e na Região Nordeste.

Cenário semelhante é apontado pela sócia-fundadora da Mentah!, Helen Rodrigues, de 34 anos, uma farmacêutica que desenvolveu um canudo de vidro borosilicato, tipo mais resistente e tradicionalmente utilizado em laboratórios. “Antes não tinha essa discussão toda. Vendemos em um mês agora o que vendemos em todo o ano passado (desde o lançamento, em junho)”, compara.

Hoje com ponto de vendas em dez Estados e produção de cerca de 4 mil unidades ao mês, Helen acredita que a procura vai aumentar ainda mais no verão. “Serve para todo tipo de líquido, até quente. O pedaço de fruta da caipirinha não entope”, garante.

Entre os modelos reutilizáveis, há ainda opções de bambu, de trigo e até comestível (fora do País). Além disso, a demanda se volta para produtos biodegradáveis de papel, como o importado pela paulista Fulpel Group. Desde maio, a empresa exportou dois lotes, chegando a 4,5 milhões de unidades. A partir de setembro, começará a produzir o item. 

“O primeiro lote evaporou”, diz o diretor da empresa, Marcos Roberto Silva. O produto é comprado especialmente por redes de fast-food e cinema, mas há também a procura de organizadoras de eventos e bufês. 

Embora seja de papel, Silva garante que o canudo resiste à bebidas quentes. O preço, contudo, ainda é cerca de quatro vezes superior ao tradicional, de plástico. “Mas, com o aumento da demanda, deve reduzir”, aposta.

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