Reuters/19-03-2013
Reuters/19-03-2013

Pressionada por falta de recursos, Funai vai gastar R$ 236 mil em curso de antropologia

Maior parte da verba será destinada ao pastor Ricardo Lopes Dias, coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Diretoria de Proteção Territorial da fundação desde fevereiro

André Borges, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2020 | 14h41

Brasília – Historicamente marcada pelos cortes sucessivos de recursos, com suas unidades de proteção a índios isolados da Amazônia literalmente caindo aos pedaços, a Fundação Nacional do Índio (Funai) vai desembolsar R$ 235,955 mil para bancar um curso de antropologia.  

A maior parte do pagamento será destinada ao pastor e ex-missionário evangélico Ricardo Lopes Dias, que ocupa desde fevereiro o cargo de coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Diretoria de Proteção Territorial da Fundação Nacional do Índio (Funai). Nas planilhas da Funai que embasam a contratação, Dias aparece como coordenador do curso pelo tempo de seis meses, com pagamento de R$ 65,700 além do salário que já recebe como coordenador. Ele ainda atuará como um dos professores do curso.

Do total de R$ 235,955 mil reservados para as aulas, mais da metade - R$ 120,450 mil – será pago aos coordenadores. Entre os documentos apresentados por Ricardo Lopes Dias está uma diploma da UniEvangélica, do Centro Universitário de Anápolis, onde ele fez seu curso de especialização “Antropologia Intercultural”.

Em fevereiro, a indicação do pastor evangélico e ex-missionário para chefiar a área levou a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), uma das principais ONGs do setor, a divulgar uma nota de repúdio contra sua nomeação.

A entidade afirmava que os indígenas "sofreram historicamente com a atuação de missionários proselitistas - muitos deles da Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB) -, que fizeram contato forçado com nossos avôs e avós".

Ricardo Lopes Dias já foi ligado à MNTB e atuava como missionário, evangelizando índios na região da terra indígena Vale do Javari, no Amazonas. Trata-se de uma das maiores reservas demarcadas do País, com mais de 8 milhões de hectares e que concentra o maior número de registros de povos indígenas isolados em todo o mundo.

Em nota, a Coiab argumentou, à época, que o País estará sujeito a "crimes de genocídio e etnocídio que serão cometidos contra os nossos parentes isolados e de recente contato, caso se concretize a nomeação de uma pessoa ligada às atividades de proselitismo religioso para o setor da Funai que atua com esses nossos parentes".

Diversas instituições ligadas à causa indígena também manifestaram repúdio à sua nomeação, como a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e o Instituto Socioambiental (ISA) .

Historicamente, os missionários procuram promover o contato com povos indígenas isolados e de recente contato para evangelizá-los, o que contraria uma política consolidada no Brasil, que prevê a proteção de suas terras, mas sem o acesso físico até suas aldeias.

Perguntada sobre o assunto, a Funai declarou que "o curso de especialização citado está em fase de análise interna quanto à possibilidade de execução, bem como dos custos estimados, não havendo, até o momento, previsão de implementação".

Segundo a fundação, "a possível oferta do curso leva em conta a necessidade de qualificação e especialização dos servidores, a fim de colaborar para o melhor desempenho de suas funções".

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