Pricilla e a nova vida no Morro Dona Marta

Ocupação de favela na zona sul vira alternativa à política de confrontos

Felipe Werneck, RIO, O Estadao de S.Paulo

18 de janeiro de 2009 | 00h00

A capitã Pricilla de Oliveira, comandante da Companhia de Policiamento Comunitário do Santa Marta, em Botafogo, zona sul do Rio, desce o morro com as mãos ocupadas. Na direita, empunha uma pistola; com a outra, segura a mão de um menino de 5 anos, que, com a irmã, de 7, pede um biscoito à oficial porque na casa deles "não tem comida". Pricilla tem 30 anos - 11 de Polícia Militar. Em novembro, recebeu a tarefa de comandar 120 policiais novatos, numa experiência de ocupação inaugurada um mês após o convite.Ela trabalhava no 16º Batalhão, em Olaria, policiando área com 477 mil habitantes, na zona norte, que reúne favelas como a do Alemão. Nos quase dois anos em que ficou lá, 264 pessoas foram mortas em supostos confrontos. Os 120 soldados agora chefiados por Pricilla saíram da academia direto para o Dona Marta, com 10 mil moradores. A escolha foi justificada pelo governo sob argumento de que era necessário policiamento "sem vícios". Eles chegaram no mês passado, após operação que acabou com a ocupação armada e a venda ostensiva de drogas. Na semana passada, a experiência - oficialmente inaugurada em 19 de dezembro pelo governador Sérgio Cabral (PMDB) - completou um mês.Os termos "comunitária", "social" e "cidadã", da nova ocupação, são incomuns para a Secretaria da Segurança. Já a palavra "enfrentamento" foi muito usada pela atual gestão para defender ações que resultaram em 1.330 mortes em alegados confrontos em 2007 e 911 até setembro de 2008, último dado. O ápice dos chamados autos de resistência foi atingido em abril e maio do ano passado, quando se registraram 147 mortos por mês, quase 5 por dia, recorde. O número começou a cair após a morte de João Roberto Amorim, de 3 anos, assassinado por PMs que "confundiram" o carro de sua família com o de criminosos, em 6 de julho. Aquele mês acabou com 62 mortos, 2 por dia. Em agosto, o número caiu para 30, o mais baixo desde junho de 2000. Algumas medidas também foram anunciadas, como troca gradual do uniforme da PM por modelo com aparência menos militar, sem coturnos. Os primeiros a vestirem a nova farda foram os policiais do Dona Marta.O soldado Thiago Azevedo, de 23 anos, conta que o trabalho no morro é "tranquilo, em parte". "O clima é tenso, principalmente à noite, porque a qualquer momento pode incendiar, com a possibilidade de retorno (dos traficantes)." Thiago ganha R$ 1 mil de salário e agora receberá adicional fixo de R$ 500 por mês, pago pela prefeitura. O mesmo modelo foi anunciado neste mês para Cidade de Deus e Batan, na zona oeste. Da turma de Thiago, outros 470 devem ser aproveitados. A PM tem 38 mil homens, mas há evasão de mil por ano. A gestão Cabral formou 1.200, abriu seleção para mais 3 mil e pretende chegar a 7 mil até 2010.Ignacio Cano, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado (Uerj), comemora a redução das mortes e diz que a ação no Dona Marta é um acerto, experimental. "Parece que o crédito político do modelo de confronto se esgotou, ou alguém no governo percebeu que era preciso explorar outras avenidas. (A queda dos autos) É um fato a celebrar. E a ocupação permanente, que tende a evitar confronto, sinal positivo de que o enfrentamento não leva a lugar nenhum." Para ele, o uniforme é positivo por "fugir da simbologia de guerra" e o complemento salarial, importante. "O Gpae (modelo de policiamento comunitário levado em 2000 para favelas de Copacabana, que fracassou) nunca teve isso."O subsecretário de Integração Operacional da Segurança, Roberto Sá, afirma que não houve mudança na política. "O governo mantém a linha de enfrentar, ou ver de frente o problema, sem fingir que não existe. Mas temos de levar (a política) corrigindo caminhos."NOVA ROTINANo Dona Marta, Pricilla viu os fogos do réveillon de uma igreja, perto de onde costumavam ficar os traficantes e da quadra onde Michael Jackson gravou um clipe, em 1996, com autorização do líder do tráfico, Marcinho VP, do Comando Vermelho. Ela afirma que não houve tiro desde o início da ocupação. Durante reunião com moradores, relatou o caso de um morador que xingou policiais e cuspiu no rosto de um soldado. Foi preso. A capitã negou os pedidos para realização de bailes funk porque "incentivam o consumo de drogas". "Era o baile oficial do tráfico. Sou contra. Só vai ter se o governador mandar." Forró e samba estão permitidos. O presidente da Associação de Moradores, José Mário Hilário, de 48 anos, reclama. "A comunidade não pode ter direitos podados." Ele, porém, não quer se responsabilizar pelos bailes. Hilário critica mais: "Para nós, o fuzil só mudou de mão." E os tiros? "É verdade, não teve mais tiro."Para a oficial, a ordem é abordar todos. "Foi muito tempo sem lei. Alguns reclamam das armas, mas vamos abordar com o quê?" Ela define jovens que trabalhavam para o tráfico como "desempregados". Pricilla parece uma prefeita armada, que chegou sem eleição. Ela admite que só a PM não mudará muito a vida das pessoas. A vista do morro é bonita, mas a vida é dura. O cheiro de esgoto é forte. Pelo menos o lixo que ficava acumulado numa encosta agora é recolhido por garis. Funcionários constroem casas que, segundo o governo, vão substituir barracos. O instrutor de capoeira Alex Sil, de 30 anos, nasceu na favela e ainda aguarda "direitos e benfeitorias prometidos". Para ele, a melhor coisa até agora foi "o morro finalmente ter sido reconhecido como pedaço do bairro, o que sempre foi".Pricilla quer mais postes de luz. Também pediu a construção de um muro de 634 metros de comprimento e 3 de altura numa lateral da favela "para evitar expansão e dificultar invasão". Durante a reunião realizada no posto policial, ainda com marcas de bala, o garoto de 5 anos ficou no colo de Pricilla. Ele e a irmã não paravam de brincar com a boina da capitã. "Criança aqui passa o dia sem fazer nada. Vou trazer o conselho tutelar. Também quero levá-las ao Maracanã."

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