Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

Primeira mulher presidente, Dilma promete ''consolidar obra de Lula''

Em discurso de posse no Congresso, a petista reitera compromisso de erradicar pobreza, chora, e ressalta importância de reforma política

Denise Madueño e Luciana Nunes Leal, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2011 | 00h00

O governo Dilma Rousseff começou ontem com 13 citações diretas a Lula, promessas de continuidade, compromisso de erradicar a miséria, combate à inflação e mensagens de reconciliação com a oposição e militares.

No discurso de posse no Congresso Nacional, a primeira mulher eleita presidente do Brasil inspirou-se no antecessor e padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva, e anunciou como prioridade do novo governo a erradicação da miséria. Embora tenha citado o ex-presidente, Dilma não fez de Lula o personagem central de seu discurso. Exaltou as realizações do antecessor e prometeu continuidade com mudança. "Venho para consolidar a obra transformadora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva", afirmou logo no início de sua fala.

Eleita com 56 milhões de votos no segundo turno, depois de uma campanha renhida com o tucano José Serra, Dilma chorou ao dizer que, a partir daquele momento, era a "presidenta de todos os brasileiros". Citou como outras prioridades saúde, educação e segurança pública e prometeu empenho nas reformas política e tributária.

"A luta mais obstinada do meu governo será pela erradicação da pobreza extrema e criação de oportunidades para todos", discursou Dilma, que evitou o vermelho do PT e vestiu um tailleur off-white (nova denominação para o tom pérola).

"Uma expressiva mobilidade social ocorreu nos dois mandatos do presidente Lula, mas ainda existe pobreza a envergonhar nosso país". "Não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos na mesa, enquanto houver famílias no desalento nas ruas, enquanto houver crianças pobres abandonas à própria sorte", disse a presidente, interrompida por aplausos.

Oito anos antes, no mesmo plenário da Câmara, ao dar início ao primeiro mandato, Lula concentrou-se na meta do fim da fome. "Enquanto houver um irmão brasileiro ou uma irmã brasileira passando fome, teremos motivo de sobra para nos cobrirmos de vergonha", discursou. E emendou: "Se, ao final do meu mandato, todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar, terei cumprido a missão da minha vida".

Depois de percorrer a Esplanada no Rolls Royce da Presidência, sob uma chuva cerrada que a obrigou a fazer o trajeto em carro fechado e afastou militantes e admiradores das ruas, Dilma chegou ao Congresso às 14h40.

Nos 39 minutos de seu primeiro discurso oficial - o segundo ocorreu no Parlatório - Dilma abusou, no início, da carga emocional, sendo interrompida vez ou outra por gritos "Dilma" e o refrão petista historicamente associado a Lula Olê,Olê,Olá! Em seguida, descambou para um tom técnico e protocolar e só retomou a espontaneidade ao final, Dilma destacou o fato de ser a primeira mulher presidente do País e referiu-se a si própria como "presidenta".

Lembrou o passado de militante contra a ditadura militar. "Suportei as adversidades mais extremas infligidas a todos que ousamos enfrentar o arbítrio. Não tenho qualquer arrependimento, tampouco ressentimento ou rancor. Muitos da minha geração, que tombaram pelo caminho, não podem compartilhar a alegria deste momento. Divido com eles esta conquista, e rendo-lhes minha homenagem", afirmou Dilma, retomando a autenticidade do início do discurso e despertando aplausos.

A presidente prometeu dar garantias "das liberdades individuais, de culto, religião, imprensa e opinião". Com isso, procurou encerrar uma das maiores dificuldades da campanha eleitoral: as notícias de que tinha posições contrárias aos princípios religiosos, como a defesa do aborto. Ao mesmo tempo, marcou diferença em relação à defesa do controle da mídia que cresceu no governo Lula.

Dilma chegou ao plenário da Câmara sorridente e bastante à vontade em um ambiente que muito raramente frequentou nos anos Lula. A plateia era formada por parlamentares, atuais e futuros ministros, chefes de Estado, governadores e da família da presidente e do vice, Michel Temer. Com uma sólida maioria no Congresso, Dilma acenou para a oposição, representada no plenário por alguns congressistas e governadores. "Mais uma vez estendo minha mão aos partidos de oposição."

Ao contrário da família da presidente, que assistiu à solenidade do alto, na tribuna de honra, os parentes de Michel Temer estavam a poucos metros do vice-presidente.

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