Gabriela Biló/Estadão
Rodoviária do Tietê, em São Paulo, recebe milhares de passageiros diariamente Gabriela Biló/Estadão

Principal hub rodoviário, São Paulo tem ligação com 1.477 cidades diferentes

Quantidade é 2,3 vezes superior à de Belo Horizonte, que aparece na segunda posição da pesquisa inédita do IBGE

Vinicius Neder e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2017 | 10h00
Atualizado 30 de junho de 2017 | 21h21

Debruçada em uma janela de vidro, Ana Maria dos Santos, de 27 anos, aguardava a chegada de um ônibus na rodoviária do Tietê enquanto sustentava uma barriga de 9 meses de gravidez. Prestes a ter o primeiro filho, esperava a mãe Marli, vinda de Itaberaba, no interior da Bahia, para assistir ao nascimento da neta Ana Carolina.

Pela mesma janela que a filha e sua irmã Célia a esperavam, Marli passou parte da bagagem e um festejado saco de farinha. Pouco antes, o mesmo gestual era do cozinheiro Gilvan Alves, de 41 anos, para o vizinho Franklin Feijó Moreira, de 44, que trouxe três sacos de feijão e farinha de mandioca do Ceará. Em média, 90 mil passageiros desembarcam ou partem diariamente pela Rodoviária do Tietê, na zona norte de São Paulo. 

Juntamente com as Rodoviárias da Barra Funda, na zona oeste, e Jabaquara, na sul, o transporte rodoviário da cidade totaliza 145 mil passageiros diariamente. Partindo de São Paulo, é possível comprar passagens diretas de transporte rodoviário para 1.477 cidades, sem considerar os municípios da região metropolitana, o que coloca a capital como o maior hub do País. 

É o que aponta a pesquisa inédita Ligações Rodoviárias e Hidroviárias 2016, lançada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira. Dos 1.477 destinos “paulistanos”, há desde viagens a Campinas até idas para Canhotinho (PE). Com essa oferta, aliás, há quem viaje a São Paulo com o único objetivo de ir para outro Estado. É o caso da estudante de Direito Luydmila de Oliveira, de 22 anos, que aguardava nesta quinta-feira no Tietê o ônibus para Ipatinga, em Minas, com a mãe Maria Aparecida e o irmão Dinei. Moradoras de Curitiba, costumam repetir o trajeto cerca de duas vezes por ano para visitar a família, além vir a São Paulo mais um par de vezes para cortar dos cabelos. “Em Curitiba, não encontramos um cabeleireiro que saiba tratar cabelo afro. Do restante de São Paulo, a gente não conhece nada”, comentaram.

Perto dali, na plataforma 68, o comerciante Hugo Mendoza, de 32 anos, voltava de três dias de folga com a namorada Victoria Rojas, de 26 anos. Paraguaios de Ciudad del Leste, eles já perderam as contas de quantas vezes viajaram ao País, todas elas de ônibus. “É mais barato”, resumiram. 

Justificativas. O estudo revela que, em todo o País, existem 233.980 pares de ligações, de transporte rodoviário e hidroviário, entre as sedes de 5.423 municípios. São Paulo é o Estado com o maior número de saídas semanais (467.532,25), seguido de Minas (397.978,25) e Bahia (342.730). “As linhas de maior frequência são aquelas que se direcionam para as capitais, oriundas de seu entorno, principalmente Recife (PE) e João Pessoa (PB)”, diz o relatório da pesquisa. 

Entraram na conta todas as formas de transporte público de passageiros regular, regularizado ou informal. As informações foram levantadas entre julho e janeiro, diretamente com os responsáveis pela venda das passagens. 

De acordo com Fabiano Pompermayer, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o tamanho da população e a intensidade da atividade econômica são os principais fatores que levam uma cidade a ter grande número de ligações por transporte coletivo rodoviário interurbano. “Por seu tamanho, São Paulo naturalmente atrai mais passageiros.”

“Em uma rodoviária como a do Tietê há um grande movimento de pessoas que não estão indo para São Paulo, mas fazendo uma conexão para outras cidades, como acontece no transporte aéreo. Dependendo dos horários, os passageiros precisam pernoitar na cidade, hospedar-se e comer. Isso traz uma demanda de serviços e beneficia a economia”, explicou ele. 

Outro fator que determina o grande número de ligações rodoviárias em um município é a localização geográfica. “A localização, em um grande eixo rodoviário, por exemplo, faz com que o índice de ligações diretas suba”, disse o gerente do IBGE Marcelo Motta. 

“O acesso rodoviário para Goiânia, por exemplo, é muito melhor que para Brasília”, afirmou Pompermayer. “Esse tipo de estudo é muito importante para identificar o padrão de viagens entre as cidades e fazer previsões sobre a necessidade de infraestrutura no futuro. Sabemos, por exemplo, que o Centro-Oeste vai crescer mais que as outras regiões, o que aumentará a interação entre as cidades dessa área e São Paulo.”

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    Viagem por rio no Norte do País chega a levar 6 dias

    Pesquisa do IBGE mapeou conexões rodoviárias e hidroviárias; de Fortaleza a Pelotas, trajeto de ônibus pode durar 76 horas

    Vinicius Neder e Bruno Tadeu, O Estado de S.Paulo

    30 de junho de 2017 | 10h00

    RIO - Viajar de Manaus até o município amazonense de Japurá, a 744 km a noroeste da capital, é uma tarefa árdua. O motivo: o complexo trajeto dentro da maior bacia hidrográfica do planeta, a amazônica. 

    As viagens de transporte público e regular mais demoradas do País são feitas na Amazônia. A ligação mais rápida entre Manaus e Japurá, cidade de 7,3 mil habitantes no extremo oeste do País, na fronteira com a Colômbia, leva seis dias inteiros. 

    Quem vive intensamente essa maratona fluvial é o funcionário público afastado Raimundo dos Santos, de 51 aos. Morador de Japurá há 24 anos, já dedica 20 à vida pública, seja como vereador ou candidato a prefeito. Uma vida que exige essa locomoção intensa. “É um pouco cansativo. E, como o município fica perto da fronteira com a Colômbia, a polícia é sempre presente, por causa do tráfico de drogas. Estão sempre abordando os barcos”, explica Santos.

    Os tripulantes, segundo Raimundo, também são acostumados a prolongar o período de viagem por mais um ou dos dias pelos costumeiros problemas mecânicos nas embarcações. “Quase toda viagem dá problema”, revelou. No barco recreio, a viagem de Japurá até Manaus custa em média R$ 200. No contrafluxo, sai por R$ 250.

    Segundo Thiago Arantes, geógrafo do IBGE, a pesquisa procurou medir a acessibilidade. Por isso, o objetivo foi identificar qual a forma mais rápida e mais barata de se viajar de uma cidade a outra. No caso de diferenças entre ida e volta, o estudo considerou o trecho mais rápido. A ligação entre Manaus e Japurá é a mais inacessível.

    Custo. Já a ligação regular mais inacessível do ponto de vista financeiro é a viagem entre Fortaleza e Pelotas (RS). A passagem de ônibus mais barata custa R$ 931,26. A viagem leva 76 horas, um pouco mais do que três dias. 

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