André Dusek/AE
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Procurador vê 'fatos graves' no caso Erenice

Roberto Gurgel anuncia que Ministério Público investigará episódio, mas 'não servirá de instrumento' para ninguém na campanha eleitoral

Mariângela Gallucci , Vannildo Mendes / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2010 | 00h00

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, classificou ontem como grave a revelação de um esquema de tráfico de influência envolvendo o filho da ministra Erenice Guerra, Israel Guerra. "As notícias apontam para fatos graves", afirmou Gurgel.

Segundo o procurador, o Ministério Público Federal atuará no caso, independentemente da campanha eleitoral. "O tempo do Ministério Público não é o tempo da campanha política. Nós faremos a investigação com o rigor que caracteriza a atuação do Ministério Público, mas sem preocupação com a campanha eleitoral nem para um sentido nem para o outro", declarou. Israel Guerra é acusado de receber propina para intermediar contratos de uma empresa aérea com os Correios.

Gurgel afirmou que o Ministério Público não servirá de instrumento de campanha. "De um lado, o Ministério Público não servirá de instrumento daqueles que têm interesse em mostrar o envolvimento do governo e, por outro lado, não deixará de apurar o que tem para apurar para preservar qualquer posição do governo." De acordo com o procurador, a instituição não quer virar instrumento de campanha "nem da ministra Dilma nem do governador Serra". Gurgel disse também que o Ministério Público ainda não tem elementos que apontem o envolvimento de Erenice.

Na PF, a Coordenação-Geral de Polícia Fazendária, especializada em investigar crimes do colarinho-branco, comandará o inquérito sobre tráfico de influência. O primeiro alvo é o filho de Erenice. Mas estão na mira também o empresário José Roberto Campos, marido da ministra, seu outro filho, vários parentes e um grupo de amigos que ela teria colocado em pontos-chave da máquina estatal.

O delegado que comandará a investigação já está designado, mas seu nome não foi revelado - ele pediu um prazo para trabalhar longe do assédio da imprensa e estabelecer pontos como a linha da investigação, o rol de testemunhas e as hipóteses de crime, além de analisar os primeiros elementos sobre o caso.

O primeiro passo, porém, já está definido: a PF vai pedir à revista Veja a entrega das gravações em que o empresário Fábio Baracat, dono da Via Net Express e sócio da MTA Linhas Aéreas, alega ter cedido ao lobby e pago uma "taxa de sucesso" a Israel para aumentar a participação de suas empresas nos Correios. Se houver indícios fortes de que a ministra contribuiu para o negócio, a PF só continuará o inquérito com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF), pois ela goza de foro especial.

Não é a primeira vez que Israel Guerra se torna alvo de uma investigação. A Controladoria-Geral da União (CGU), em auditoria, o apontou como um dos responsáveis pelo desvio de R$ 5,8 milhões da editora da Universidade de Brasília (UnB) em contratos fantasmas. De acordo com a CGU, os pagamentos suspeitos da editora indicam pelo menos R$ 134 mil destinados a José Euricélio e Israel Guerra entre os anos de 2005 e 2008.

PARA LEMBRAR

Israel Guerra cobrava "taxa", diz revista

O esquema de tráfico de influência envolvendo Israel Guerra, filho da ministra Erenice Guerra, foi denunciado no fim de semana. Segundo a revista Veja, ele é dono da Capital Consultoria e recebeu dinheiro de uma empresa aérea (MTA) para obter contratos nos Correios. A "taxa de sucesso", por uma licitação de R$ 84 milhões, chegou a R$ 5 milhões. A revista diz que os interessados chegaram a ser recebidos por Erenice em sua casa.

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