Procuradora acusada de torturar filha adotiva diz que é perseguida pela imprensa

Em depoimento,Vera Lúcia Sant'Anna Gomes admitiu ter xingado a criança, mas disse que nunca bateu nela

Julia Baptista, da Central de Notícias,

11 de junho de 2010 | 23h03

SÃO PAULO - Durante interrogatório na noite desta sexta-feira, 11, ao juiz Mario Henrique Mazza, da 32º Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, a procuradora aposentada Vera Lúcia Sant'Anna Gomes negou todas as acusações da denúncia oferecida pelo Ministério Público estadual, disse desconhecer como as lesões apareceram na criança e atribuiu à imprensa todo o sofrimento pelo qual vem passando. O interrogatório teve início às 19h30 e durou cerca de uma hora e vinte minutos, segundo informações do Tribunal de Justiça do Rio.

 

"Há apenas um fato verdadeiro na denúncia. Eu realmente xinguei a menina por estar muito nervosa. Me arrependo profundamente. Nunca bati nela, nunca a agredi. O resto é culpa da imprensa, que vem fazendo sensacionalismo com o caso. Já me sinto julgada e condenada pela mídia. Hoje sou jurada de morte. Nem no presídio posso circular livremente", disse a ré.

 

Ao ser indagada pelo juiz Mário Henrique Mazza sobre o que teria levado as quatro empregadas a acusá-la, Vera Lúcia não soube responder. Para a procuradora aposentada, que afirmou ter dificuldades na relação com empregados, ela está sendo vítima de um complô.

 

"Também gostaria muito de saber por que estão fazendo isso. Para mim, isso é um grande mistério. Acredito que a relação patroa-empregada é muito complicada. Ainda mais entre mulheres. Há muito inveja, ciúmes", finalizou.

 

O juiz abriu prazo para que o Ministério Público e a defesa apresentem alegações finais por escrito. Cada um terá cinco dias, a partir de segunda-feira, para se manifestar.

 

Acusação

 

A primeira testemunha de acusação a depor foi a ex-empregada doméstica da procuradora, Luzia. Ela contou que Vera Lúcia já havia comentado que gostaria de adotar uma criança para ter para quem deixar sua herança, por não ter marido, filhos, nem pais.

 

Segundo a empregada, Vera Lúcia batia no rosto da criança quando, de manhã, ela não respondia ao seu "bom dia"; quando se assustava com os bichos da casa - dois gatos e um cachorro - e quando não queria comer toda a refeição que estava no prato. Luzia disse ainda que várias vezes a procuradora agredia verbalmente a menina, chamando-a de "vaquinha", "cachorra", "prostituta igual à mãe", entre outros xingamentos.

 

Além de Luzia, outras cinco testemunhas de acusação depuseram nesta sexta-feira. A doméstica Sidilania confirmou ter presenciado várias agressões físicas e verbais contra a criança, sendo que em uma delas a menina ficou com a boca sangrando devido a um forte tapa dado em seu rosto pela procuradora. A diarista Camila, que trabalhou durante um fim de semana na casa da procuradora, disse também ter visto a ré dar tapas na criança.

 

A psicóloga Patricia, que foi à casa da ré em Ipanema com a equipe do Juizado verificar denúncia de maus tratos a uma criança, disse que ficou muito impressionada com o que viu, apesar dos seus 11 anos de trabalho na Vara da Infância, da Juventude e do Idoso da Capital. Ela encontrou a menina sentada numa cadeira inadequada para a sua idade, comendo uma comida fria, com o rosto desfigurado e os olhos muito inchados. Quando perguntada quem teria machucado, a menina teria dito que "foi a mamãe Vera".

 

A assistente social Yara, do Educandário onde vivia a menina antes de ser entregue, de forma provisória à procuradora, disse ter ficado indignada com o estado de retorno da vítima, que apresentava o rosto muito machucado e inchado, não podendo nem abrir os olhos. Falou que a menina saiu do abrigo em perfeito estado de saúde e que sempre interagiu com as coleguinhas e funcionárias do abrigo, e que a menina voltou assustada, mas que ficou feliz quando viu as pessoas que já conhecia.

 

Defesa

 

Foram ouvidas quatro testemunhas de defesa. O primeiro a depor foi o professor de Tarot Alexandre. Ele disse que, em momento algum, viu Vera Lúcia agredir a menina, tanto a nível físico quanto psicológico. Falou que sabe que Vera Lúcia tem um temperamento forte, mas que sempre foi gentil com ele, tendo uma boa relação com a ré. E que viu a criança umas quatro vezes, quando ia à casa da acusada, uma vez por semana, dar aulas de Tarot a ela.

 

Em seguida, depôs a psicóloga I.M., que disse ter tido uns dois contatos profissionais com a acusada e a criança. Ela acredita que o objetivo da procuradora era de melhorar o relacionamento dela com a menina e contribuir para o desenvolvimento da vítima.

 

A cabeleireira da acusada, Márcia, disse não ter nada contra ela e que viu a menina uma vez, na casa dela. Ela comentou que chegando lá, viu a procuradora muito feliz por ter conseguido a guarda provisória da menina, e que ela mesma a levou até ao seu quarto onde mostrou os seus brinquedos. A cabeleireira falou ainda que não acredita que a procuradora tenha feito as agressões. Mas, confirmou ter reconhecido a voz dela no vídeo mostrado na televisão.

 

O último depoimento foi o do atual motorista da ré, Claucio, que disse estar trabalhando para a procuradora desde abril e que nunca viu a menina, pois quando foi admitido, ela já tinha voltado para o abrigo. Completou o seu relato dizendo que a ré sempre foi muito educada com ele e que num momento de desabafo disse que sentia muita falta da menina e também preocupação. 

 

 

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