Professor morto pelo exército não viu ordem de parar, diz namorada

Soldados do Exército mataram a tiros o professor de inglês Frederico Branco de Farias, de 53 anos, em uma barreira montada em Cascadura, zona norte. Segundo os militares, por volta da zero hora, ele não obedeceu à determinação de parar seu Corsa e quis furar o bloqueio. Sua namorada, Rosângela da Silva, disse, porém, que Farias não percebeu a ordem.O professor foi a primeira vítima da Operação Guanabara - nome dado à mobilização de 3 mil homens das Forças Armadas contra a criminalidade no Rio. O ministro da Defesa, José Viegas, considerou o episódio "lamentável".Dos três tiros que atingiram o Corsa, um furou a porta esquerda e atingiu o abdome de Farias. Os outros acertaram o capô e o pára-lama. O professor estadual e municipal não tinha processos criminais e foi levado, ainda com vida, ao Hospital Salgado Filho, no Méier, onde morreu. Seu corpo será enterrado amanhã. Rosângela não foi ferida e não foram achados no carro armas, drogas e, tampouco, a bala que atingiu Farias.Sem puniçãoO Comando Militar do Leste informou que nenhum militar foi detido e divulgou boletim relatando que o professor, após desobedecer à ordem de parar na barreira da PM, tentou atropelar um soldado do pelotão do 26º Batalhão de Infantaria do Exército, que montava guarda logo adiante. "Em conseqüência, dentro das normas previstas, foram efetuados disparos contra o veículo infrator."Foi aberto inquérito policial-militar para apurar a morte, mas o boletim diz que "em face das atitudes suspeitas do motorista falecido, aos militares não restou opção senão recorrer ao uso da força, no estrito cumprimento do dever legal".Versões do delegado da 44ª Delegacia de Polícia, Avelino da Costa Lima Filho, e de Rosângela, são diferentes. Segundo o delegado, houve troca de tiros de bandidos e policiais na rua - o que não é mencionado na nota da Força. Assustado, o professor teria acelerado para fugir e furado o bloqueio do Exército. "Vamos ouvir as testemunhas, inclusive os soldados. Pode ter sido imperícia", disse. A delegacia passou o dia vigiada por carro da Polícia do Exército.TestemunhaRosângela nega troca de tiros e diz que o casal não andava em alta velocidade. Ao irmão do professor, Luiz Branco de Farias, disse que o namorado chegou a reduzir a velocidade ao ver a barreira da PM, mas não percebeu a ordem de parar. O carro está com o pára-lama amassado, por uma colisão após os tiros.Para o secretário da Segurança do Rio, Josias Quintal, a morte de Farias está "dentro da expectativa" de ter Exército nas ruas. "Numa operação de envergadura tão grande, é possível que fatos como esse ocorram. Ele não vai fazer com que esse aparato não seja utilizado novamente ou não continue."Veja o especial:

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