Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Professora ganhou notoriedade com história de 'cientista precoce' e superação

Joana D’Arc Félix de Sousa dá palestras e coleciona homenagens e prêmios

Felipe Resk e Renata Cafardo, O Estado de S. Paulo

14 de maio de 2019 | 18h30

Na tarde de 28 de novembro de 2017, uma terça-feira, a professora Joana D’Arc Félix de Sousa chegou com 25 minutos de atraso para ministrar uma palestra no Instituto Federal (IF) de Matão, no interior de São Paulo, onde era aguardada por auditório lotado de jovens. “A gente está com uma celebridade aqui, no nosso câmpus, e eu só tenho a agradecer sua presença”, disse uma representante do IF ao apresentá-la.

Na ocasião, Joana aceitara convite para falar sobre como “reduzir o abismo entre alunos e universidade” - tema para o qual ela própria era o exemplo perfeito. Filha de empregada doméstica e de funcionário de curtume, a professora já havia contado na TV, em jornal e na internet sua história de superação por meio da educação. Uma manchete, de maio daquele ano, resume bem: “PhD em Harvard, brasileira supera fome e preconceito e soma 56 prêmios na carreira”.

Segundo Joana contou à plateia, o número de prêmios já havia chegado a 62 (progresso de um por mês), fora outros 15 projetos que ela patenteou. Embora tenha nascido em família pobre e de baixa escolaridade, já sabia ler com 4 anos, ingressou na universidade aos 14, formou-se aos 17, e, mais tarde, foi fazer pesquisa nos Estados Unidos, onde morou e fez pós-doutorado.

A trajetória, narrada passo a passo, impressionou a plateia, que a aplaudiu com entusiasmo ao fim da apresentação de pouco mais de uma hora. Atenciosa, Joana também respondeu perguntas diversas e comentou que, apesar de ter um currículo que a credenciaria a dar aula em grandes universidades, era feliz por poder ensinar a alunos na Etec de Franca, localizada na zona rural da cidade. “Hoje, tenho certeza que estou no lugar certo.”

Para a palestra em Matão, a professora Joana havia, generosamente, reservado tempo na agenda cada vez mais apertada, conforme lembraram os organizadores. Pedidos de entrevista já eram comuns, assim como convites para eventos e homenagens. Entre as mais importantes, ela havia sido retratada em uma exposição no Museu do Amanhã, no Rio.

No mês anterior, também fora recebida pelo então governador Geraldo Alckmin (PSDB) no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. Ele aproveitou a oportunidade para gravar um vídeo: “A professora Joana é graduada pela Unicamp. Tem mestrado, doutorado, pós graduação em Harvard, nos Estados Unidos, e tem feito um belíssimo trabalho”.

Foi com intuito de contar a história de superação de Joana que o Estado viajou para o interior de São Paulo. Simpática, a professora concedeu entrevista por mais de 2 horas e permitiu que a reportagem a acompanhasse por dois dias.

Ciência

Na Etec, Joana orienta uma serie de projetos de iniciação científica, em que se propõe a criar de pele artificial para transplante humano a roupas mais seguras para bombeiros. “Pesquisa de ponta”, é como a professora costuma classificar, embora ela e os estudantes só dispunham de um laboratório precário com oito bancadas e até instrumentos improvisados de garrafa pet.

Joana é vista com admiração pelos alunos e costuma estimulá-los a apresentar projetos em feiras e congressos. Em 2014, um dos seus grupos chegou a ir aos Estados Unidos para expor a pesquisa sobre pele artificial. “A professora Joana é minha maior inspiração”, disse uma estudante, na época com 18 anos. “Eu cheguei na escola sem propósito, mas a partir dela comecei a ter esperança.”

Parte dos alunos também afirmou que se reconhecia na história da professora que, de origem humilde, teria se tornado uma cientista notável. Em entrevista ao Estado na ocasião, Joana recontou passagens da infância e chorou ao falar do dia em que foi alvo de chacotas pelos colegas de classe, após ser flagrada na escola usando um sapato furado. “A professora dizia que na sala ninguém ia ser nada na vida.”

Ela também confirmou que entrou na Unicamp aos 14 anos e falou do pós-doutorado no exterior e disse que passou dois anos em Harvard, nos Estados Unidos. Questionada sobre o período e as diferenças de estrutura da universidade e métodos de pesquisa em relação ao Brasil, Joana respondeu que “lá as pessoas são mais compromissadas” e que “aqui, dá muita coisa de mão beijada na sala de aula”.

A entrevista seguiu sem nenhuma revelação ou passagem que não havia sido contada por ela em ocasiões anteriores. Isso até o momento, já perto do fim, em que a reportagem perguntou a idade da professora. “Trinta e sete anos”, Joana mentiu. Nascida em outubro de 1963, ela tinha acabado de completar 54.

Inconsistências

Ao retornar de viagem, o Estado voltou a questionar a professora sobre a idade. Também perguntou por que o PhD em Harvard não constava no currículo Lattes dela - a plataforma havia sido atualizada pela última vez em 2015, portanto após a viagem aos Estados Unidos. Só depois de questionada, a professora alterou o currículo para incluir seu título acadêmico mais importante.

Sobre a idade, Joana justificou que a entrevista havia sido feita na presença de uma aluna e que ficara constrangida de informar quantos anos tinha. Já sobre Harvard ela disse que o currículo Lattes estava desatualizado e enviou um diploma com o brasão da instituição que informava ter concluído o pós doutorado em 1999.

Por causa das inconsistências, o Estado optou por não publicar matéria sobre a vida da professora. A reportagem não conseguiu confirmar outras passagens narradas por ela, por não localizar outros envolvidos. Dois orientadores informados por ela, por exemplo, já morreram. Outro professor não respondeu.

A apuração foi retomada após notícia de que a biografia seria retratada em um filme. Escalada para interpretar Joana, a atriz Taís Araújo anunciou na semana passada que desistiu do papel  porque sua cor da pele é mais clara do que da professora.

O Estado conseguiu confirmar que o diploma era falso e fez nova entrevista com Joana. Desta vez, ela afirmou que não concluiu o pós-doutorado e que só entrou na universidade após atingir maioridade.

Entre os prêmios recebidos pela professora, destaca-se o de melhor pesquisadora, dado em 2014 pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), por sua pesquisa com pele artificial. Na ocasião, foi divulgado que a professora submeteria amostras do resultado a uma especialista da USP, que testaria a compatibilidade com a pele humana.

A reportagem procurou a especialista para saber se a pesquisa de Joana tinha bons resultados. “Ela nunca me mandou as amostras”, disse pesquisadora da USP, ao Estado. “Não posso emitir parecer.”

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