Professores reprovam sistema de ciclos

Uma pesquisa feita com cerca de 10 mil professores da rede pública do Estado de São Paulo mostra que a maioria deles discorda do atual sistema de ensino. Em 1998 a Secretaria da Educação introduziu a progressão continuada no ensino fundamental, método que praticamente extingue a repetência."O que existe realmente é uma promoção automática dos alunos, e os professores estão descontentes com isso", diz Maria Izabel Noronha, presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), responsável pelo levantamento. Os dados mostram que 91,9% dos professores dizem que os alunos passam de uma série para outra sem o domínio do conteúdo.Na progressão continuada, um sistema de ciclos substitui as séries. O primeiro ciclo vai da 1ª à 4ª série, e o segundo, da 5ª à 8ª. O aluno só pode ser reprovado no fim de cada ciclo. "Nós temos de aprovar o aluno, não podemos dar nota baixa, mesmo que ele tenha tirado zero", diz o professor de matemática de uma escola na zona norte, que teme represálias por parte da secretaria e não permitiu a publicação do seu nome. Segundo a pesquisa, 90% dos professores não acham que a progressão continuada melhorou a aprendizagem dos alunos. Para a presidente da Apeoesp, um dos motivos desse resultado é o fato de o sistema de ciclos ter sido instaurado de maneira "autoritária" na rede de ensino.Segundo a educadora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) Neide Noffs, para que o novo método funcionasse deveria ter sido feita uma boa preparação dos professores. "No mundo das idéias, esse sistema é perfeito, mas ele não foi organizado na prática."Ela explica que, na progressão continuada, o ritmo de cada aluno é respeitado, e ele é avaliado de acordo com sua capacidade. "Os conteúdos são dados continuamente e não por série." O resultado da pesquisa não surpreendeu a educadora, que recebe queixas freqüentes de professores insatisfeitos. Ela ainda acrescenta que muitos deles reclamam do aumento de agressões físicas e morais.Segundo a pesquisa, 95,5% dos professores dizem que não houve diminuição de problemas de indisciplina. "Os alunos se tornam mais agressivos quando não estão sendo atendidos", diz Neide."Eles sabem que não precisam estudar, porque serão aprovados de qualquer jeito no fim do ano", diz outra professora, que também não quis identificar-se. A Secretaria da Educação informou que não iria comentar a pesquisa, porque não havia recebido oficialmente os dados. O levantamento foi feito em todo o Estado no mês de outubro.Responderam aos questionários 10.027 professores, o que representa pouco mais de 5% de um total aproximado de 200 mil trabalhadores da rede estadual de ensino.A única aprovação detectada na categoria foi em relação às atividades de recuperação e reforço desenvolvidas nas escolas: 89,3% dos professores acham que elas ajudam os alunos com dificuldade de aprendizagem. A recuperação é feita durante as férias por alunos que não tiveram 75% de presença e consiste em projetos interdisciplinares, cujo tema é escolhido pela escola.Alunos ouvidos durante atividades de recuperação este ano disseram que elas funcionavam apenas como estratégia para suprir as faltas. A secretária da Educação, Rose Neubauer, defende o sistema com a justificativa de que a recuperação diminui a evasão. "O aluno fica o ano todo na escola e não a abandona mais quando percebe que pode ser reprovado", disse Rose, em janeiro deste ano.Cerca de 55% dos professores também acham que essas atividades mantêm o interesse do aluno pelo estudo. Todos os outros dados da pesquisa, porém, mostram a desaprovação do sistema. "Há um descontentamento tenebroso de todos os colegas", diz o professor. A pesquisa comprova: 91,2% deles se dizem frustrados.A divulgação do levantamento ocorre cerca de um ano depois do fim da greve da categoria, que durou 43 dias. "O Estado precisa ouvir as queixas dessas pessoas", diz a educadora da PUC.Ela defende um programa de capacitação, com a participação dos professores, para que o sistema de ciclos possa ter sucesso.

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