Profissão virou a única perspectiva

Pouca escolaridade não é problema

, O Estadao de S.Paulo

08 Agosto 2009 | 00h00

O maître Claudio Silva, de 39 anos, começou na carreira como garçom. O mesmo aconteceu com seus sete irmãos, sem contar os primos e tios. Os Silvas nasceram em Frei Miguelinho e, sem perspectiva de trabalho, deixaram a cidade natal para tentar a vida. Alguns seguiram para São Paulo, como é o caso de Claudio, que hoje trabalha num grande escritório de advocacia, nos Jardins, onde comanda uma equipe. "Nunca pensei que seria garçom, muito menos maître", diz ele, que cresceu trabalhando na roça. "Vivia com meus avós, que moravam em um sítio. Passei a infância ajudando na ordenha das vacas, no trato dos animais e no corte do milho." E Claudio sonhava em ser cantor. Sempre que saía de casa com uma lata para buscar água no açude seguia pelo caminho cantando. Até hoje ele sabe de cor várias letras de Roberto Carlos e de Reginaldo Rossi, que tem uma música chamada Garçom, o hit de Claudio. "Eu não tinha dinheiro para comprar um rádio, então pegava um grandalhão, do tipo 4 em 1, do meu avô, e levava para todos os lados." Claudio cursou até a 6ª série do ensino fundamental e então foi para São Paulo. Começou trabalhando como ajudante de cozinha num hotel, onde já estavam um irmão e um primo. Hoje, Claudio está casado, tem dois filhos, Humberto, de 17, e Arthur, de 13. "O mais velho já trabalhou comigo em dois eventos e gostou", conta. Seus nove cunhados também são do ramo. "Aprendi tudo que sei aqui em São Paulo."O chef de cozinha do restaurante Via Castelli, em Higienópolis, zona oeste de São Paulo, Josenildo José de Lima, de 45 anos, mais conhecido como Bolinha, também nasceu em Frei Miguelinho. Ele tem uma explicação para esse ?boom? de garçons. "Na cidade ninguém tem estudo. O que mais um nordestino como eu poderia fazer além de trabalhar no ramo de restaurante?"Analfabeto, Bolinha trabalha no Via Castelli há 15 anos, fazendo massas. "Tudo começou com meu primo José Barbosa de Lima, que chegou a São Paulo antes de mim e acabou me chamando."Os conterrâneos de Frei Miguelinho se ajudam. "Um traz o outro e vai ensinado a profissão", diz Clodoaldo Santos, de 37 anos, que chegou a São Paulo há 20 anos. Hoje, Clodoaldo tem uma lanchonete na zona sul. "Sou o garçom de Frei Miguelinho que deu certo."

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