Projeto de reajuste na Casa Militar irrita PM

Um projeto de aumento da gratificação paga aos 472 policiais da Casa Militar (CM) do gabinete do governador José Serra pode recriar disparidades de salários na Polícia Militar. Se posto em prática, fará um cabo que puxa maçanetas, abrindo e fechando as portas do Palácio dos Bandeirantes, ganhar mais do que um tenente que combate o crime numa cidade como Jales. O plano irritou o comando da PM, que passou quase 20 anos corrigindo distorções criadas nos anos 80, quando homens da CM passaram a incorporar gratificações, criando supersalários. A proposta de reajuste foi enviada em 5 de julho pelo chefe de gabinete da CM, major Eduardo Esposito, à Casa Civil, a quem cabe a palavra final. Embora a decisão não tenha sido divulgada, o Estado apurou com oficiais que o secretário da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, já sinalizou ao chefe da CM, coronel Miguel Libório Cavalcante Neto, que daria o aumento. Libório negou ontem ter o aval de Ferreira, mas confirmou o pedido de reajuste. A Casa Civil não se manifestou. Pelo plano de Libório, um soldado que trabalha na CM passaria a ganhar R$ 2.970, enquanto um soldado que combate o crime em cidades com menos de 50 mil habitantes ganha R$ 1.240 e o que trabalha na capital recebe R$ 1.909. Esse era o caso do soldado Edson Roberto Ambrósio, de 31 anos. Há um ano na PM, ele trabalhava no 37º Batalhão, em Santo Amaro, zona sul. Foi assassinado anteontem por bandidos. "É um disparate. O policial que trabalha no ar-condicionado, em horários melhores, terá quase o dobro de quem está na rua correndo o risco de ser morto por bandidos", disse o presidente da Associação de Cabos e Soldados da PM, cabo Wilson de Moraes. "Tenho certeza de que o governador não sabe e não concorda com isso." Os 472 militares e 12 civis que trabalham na CM chegaram ao palácio por indicação - não há concurso para o cargo. São responsáveis pela segurança dos palácios do governo na capital e interior, pela escolta do governador e de sua família e pela Defesa Civil. Trabalham num regime invejado, de 24 horas de serviço por 72 de folga. Os demais integrantes da PM cumprem escala de 12 h de trabalho por 36 de folga. Além disso, os PMs do palácio incorporam no salário a gratificação na razão de um décimo por ano trabalhado na CM. Desde o começo do ano, a PM espera a aprovação do reajuste para todos os policiais - que incidirá também nos vencimentos dos homens da CM. A proposta do governo prevê aumentos de 3,8% a 23%. Só com o reajuste da gratificação, os homens da CM terão aumentos de 30,8% (soldado) a 0,23% (tenente-coronel). Em tempo: com a gratificação, o cabo da CM ganhará R$ 3.068; o tenente (superior hierárquico) de Jales recebe hoje R$ 3 mil.

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2013 | 00h00

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