Projeto pôs de lado oposição entre petistas e tucanos

Bastidores: Roldão Arruda

O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2011 | 03h06

O PT e o PSDB deixaram de lado suas diferenças partidárias e agiram de maneira afinadíssima na construção do projeto de lei que cria a Comissão da Verdade - atualmente em tramitação no Congresso. Num determinado momento das negociações, uma comissão com representantes de petistas, integrantes do alto escalão do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e tucanos históricos chegou a se reunir em São Paulo com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, para tratar do assunto. Em comentário sobre esse episódio para o Estado, o ex-presidente tucano observou que, na opinião dele, a Comissão da Verdade foi tratada como deveria ser: como questão de Estado, e não partidária.

Partiu do ex-presidente Lula a iniciativa de procurar os tucanos. Ele tomou a decisão logo após a forte reação que enfrentou ao apresentar a primeira proposta de criação da comissão, no final de 2009. O texto irritou os chefes militares, que ameaçaram pedir demissão de seus cargos, com a solidariedade do então ministro da Defesa, Nelson Jobim (PMDB-RS).

Lula recolheu o texto, criou uma comissão para preparar uma segunda proposta e sugeriu a aproximação com os tucanos. Era uma proposta delicada, pois se tratava de um ano eleitoral.

O primeiro a ser procurado foi o jurista José Gregori, que havia sido titular da Secretaria de Direitos Humanos no governo de Fernando Henrique. Comentando esses primeiros contatos, ele costuma dizer que, apesar de ser ano eleitoral, o PSDB em nenhum momento pensou em botar lenha na fogueira. No governo de Fernando Henrique, ele já havia tomado várias iniciativas destinadas a lançar luzes sobre o período da ditadura militar e achou que não era hora de proselitismo eleitoral.

Nos primeiros contatos com o então ministro Paulo Vannuchi, titular de Direitos Humanos e principal responsável pelo texto que havia provocado a demissão de chefes militares, o primeiro conselho foi para que tomasse mais cuidado ao mexer em feridas não cicatrizadas. Vannuchi e Gregori se entenderam bem, apoiados durante todo o tempo por outro integrante do governo de Fernando Henrique, o diplomata e acadêmico Paulo Sérgio Pinheiro.

Vannuchi montou aos poucos um núcleo informal de consultas, que realizou cerca de dez reuniões para tratar do assunto. Uma delas, no Instituto Fernando Henrique Cardoso, em São Paulo.

Do grupo também faziam parte militantes petistas de direitos humanos e o advogado Belisário dos Santos Júnior, tucano que fez parte do secretariado do governador Mario Covas, em São Paulo. O coroamento dessa rara aliança entre tucanos e petistas foi a indicação, nesta semana, do senador Aloysio Nunes Ferreira para ser o relator do projeto no Senado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.