Promotor admite que Suzane ajudou a espancar os pais

Virgílio Ferraz do Amaral, de 35 anos, já viu muitos crimes assustadores nos dez anos em que atua como promotor de júri. Mas nunca ficou tão chocado como no caso que trabalha agora: o assassinato de Manfred e Marísia Von Richthofen por sua filha Suzane, o namorado Daniel Cravinhos e o irmão dele, Cristian. ?A frieza da garota foi realmente uma coisa triste de se ver, chega a ser assustadora?, conta Amaral, que já atuou em casos de crianças de nove e 12 anos estupradas e de uma jovem que foi assassinada com golpes de um taco de beisebol. Ele aponta a compra da moto por Cristian, apenas dez horas após o assassinato, como o grande erro dos criminosos. ?Fizeram de tudo para não errar, usaram luvas cirúrgicas, tiveram muitos cuidados, mas ninguém consegue a perfeição em um assassinato. Esqueceram-se disso?, conta. Amaral é o 103º Promotor de Justiça Criminal de São Paulo e foi designado para acompanhar o inquérito. Agora, aguarda que seja indicado para o processo ou que o promotor indicado requisite os seus serviços. Abaixo, trechos da entrevista que Virgílio Amaral deu ao Jornal da Tarde. Jornal da Tarde ? Qual foi a reação de Andreas ao saber que sua irmã havia assassinado seus pais? Amaral ? Ele estava desconfiado que as coisas se encaminhavam para isso. Eu, o delegado e seu tio, Miguel Abdalla, contamos a ele, logo após Suzane haver confessado a culpa. Ele não teve uma reação destemperada, ficou triste, mas não foi nada muito impressionante. As pessoas reagem de forma diferente a um mesmo caso. Depois, deitou no banco da delegacia e dormiu por mais de uma hora, enquanto terminávamos o inquérito.Conversei bastante com seu tio e fiquei muito bem impressionado com ele. É uma pessoa boa, ficou arrasado quando Suzane confessou. Eu creio que ele dará uma boa assistência psicológica para o garoto. Ele vai precisar. Perdeu os pais e a irmã de uma vez só. Qual foi a participação de Suzane no crime? Foi tão intensa quanto a dos irmãos Daniel e Cristian. Eu não afasto a possibilidade de que ela também tenha agredido os pais, como os cúmplices. Ou, pelo menos, que estivesse dentro do quarto quando aconteceu o massacre. E ela terá pena menor caso se comprove que estava do lado de fora da casa, que não tivesse participado da agressão? Não, a lei é clara neste aspecto. Ela planejou o crime, forjou o assalto e providenciou material para que tudo acontecesse. É co-autora do crime, sem nenhuma atenuante. Os advogados de defesa podem defender a hipótese de que se trata de uma desequilibrada mental e tentar fazer com que cumpra a pena em um manicômio? Apesar de ela não ter ainda advogado constituído, tenho ouvido falar nesse absurdo. Aqui e ali começam a levantar esta possibilidade. Ela é muito inteligente, tem frieza e insensibilidade. Pode ser considerado um desvio de personalidade, nunca uma doença mental. E sobre o uso de drogas? Não vai ser atenuante, pois eles não admitiram vício contumaz. Fumavam maconha esporadicamente e só. Então, quantos anos cumprirá? Trata-se de um crime hediondo, sem direito a atenuantes. Terá de cumprir no mínimo 2/3 da pena em regime fechado, antes de se pedir livramento condicional. Se eu for designado para o caso, ou se o colega designado requisitar minha ajuda por já estar trabalhando até agora no caso, vou denunciar os três por duplo homicídio com roubo qualificado. Se os jurados optarem pela pena mínima, cada um pegará entre 28 e 30 anos, e se optarem pela pena máxima, poderão pegar até 70 anos, o que é muito difícil de acontecer. Qual foi a reação da Suzane no momento em que ela confessou o crime? Eu estava presente em todos os interrogatórios. Quando confessou, demonstrou certa preocupação com o que pudesse acontecer com ela, falou que era uma pessoa má e que desejava que o tempo voltasse atrás. Logo se recompôs e voltou a mostrar sua personalidade. Quando vocês começaram a desconfiar de Suzane? Não houve arrombamento da porta de entrada e por isso desde o início desconfiávamos de que alguém de dentro da casa havia facilitado a entrada dos criminosos. Seria impossível entrar sem arrombar. Ficamos sempre nesta linha e depois houve uma denúncia da compra de moto em nome do Jorge, amigo do Cristian, com pagamento em dólares. Então, pegaram o Jorge? Sim e ele contou tudo o que sabia. Disse que o Cristian estava com o nome sujo e que havia pedido que ele comprasse a moto. O Jorge desconfiou do Cristian, que estava muito apressado em desfazer-se do dinheiro. Quais os procedimentos a partir de agora? Temos dez dias para concluir as investigações e depois mais cinco dias para oferecer a denúncia. Há um prazo de 81 dias para que esta primeira fase termine e que os acusados vão a júri. Acompanhe toda a história nos links abaixo. » Quinta, 31/10: Casal é assassinado no Campo Belo » Para vizinhos, casal era "simpático e reservado" » Sexta, 1/11: Policiais investigam namorado e filha do casal » Segunda, 4/11: Filha do casal depõe pela segunda vez » Terça, 5/11: Polícia volta à mansão do casal assassinado » Quarta, 6/11: Para Polícia, casal foi assassinado por vingança » Quinta, 7/11: Preso o irmão do namorado da filha » Sexta, 8/11: Pedida prisão de suspeito de matar o casal » A Polícia conclui: Suzane, a filha, tramou o assassinato » Assassinos do casal têm prisão provisória decretada » Polícia encontra material furtado da mansão do casal » Suzane era meiga e quieta, dizem colegas » Richthofen era homem-chave do Rodoanel » Matam os pais e não mostram remorso » Especialistas acreditam em "distúrbio mental" » Casal queria mandar a filha para a Alemanha » Sábado, 9/11: "Cheguei a pensar em desistir, mas já não tinha volta", disse Suzane » Pena de assassinos do casal pode chegar a 50 anos » Domingo, 10/11: Amigo diz que Andreas perdoou a irmã

Agencia Estado,

11 de novembro de 2002 | 08h26

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