Marcio Fernandes/AE
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Promotor denuncia tesoureiro do PT por crime de lavagem de dinheiro

Além de João Vaccari Neto, Ministério Público acusa à Justiça outros cinco ex-dirigentes da Bancoop e pessoas ligadas a fornecedoras da cooperativa por suposto rombo de R$ 168 milhões; todos são alvo de pedido de bloqueio de bens

Fausto Macedo, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2010 | 00h00

O Ministério Público denunciou ontem à Justiça e requereu abertura de processo contra o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, por formação de quadrilha, estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro - crimes que ele teria praticado como diretor administrativo da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop) de São Paulo, fundada em 1996 por um núcleo do PT.

Em 81 páginas, o promotor José Carlos Blat aponta rombo nos cofres da Bancoop no montante de R$ 68 milhões e prejuízos a 1.126 cooperados que não receberam suas unidades no valor de R$ 100 milhões. Parte do desvio, diz o promotor, teria abastecido caixa 2 de campanhas do PT.

Além de Vaccari, há outros cinco denunciados - Ana Maria Érnica, Tomás Edson Botelho Fraga, Letycia Achur Antonio, Henrique Rodrigues de Oliveira e Helena da Conceição Pereira Lage -, ex-dirigentes da Bancoop e ligados a fornecedoras da cooperativa. A denúncia foi distribuída à 5.ª Vara Criminal da capital. O promotor pediu quebra do sigilo bancário e fiscal de Vaccari e dos demais citados. Solicitou também bloqueio de bens do petista.

Blat depôs ontem durante cerca de 4 horas à CPI da Bancoop na Assembleia em sessão marcada por tensão e provocações. Cerca de 100 cooperados lotaram o plenário e vaiaram petistas que acusaram o promotor de agir movido por interesses eleitorais a serviço do PSDB. "A denúncia do promotor tem tintas tucanas", disse o deputado Vanderlei Siraque (PT). "São tintas da Justiça e lágrimas de 3 mil cooperados lesados", rebateu Blat.

Vaccari foi diretor-administrativo e financeiro da Bancoop, cargo que assumiu em substituição a Ricardo Berzoini, fundador da Bancoop. Depois, Vaccari ocupou a presidência da entidade até afastar-se, em março passado, para ser tesoureiro do PT.

Blat investiga a Bancoop desde 2007. Ele afirma ter identificado "negócios escusos, absurdos" com recursos dos cooperados. "O esquema para ocultação dos valores provenientes de estelionato consumado através da quadrilha que se estabeleceu na direção da Bancoop contava com sofisticada manipulação de dados dos balanços contábeis."

O promotor sustenta que "a utilização da empresa fantasma Mizu Gerenciamento pela organização criminosa serviu para captação de recursos da Bancoop e destinação para campanhas políticas eleitorais do PT". Mapeamento parcial aponta repasse de R$ 200 mil para o PT. "Planilhas de controle financeiro da Mizu permitiram detectar lançamentos com a rubrica "doação PT"", disse Blat.

A Germany Construtora, fornecedora da Bancoop, teria movimentado R$ 50 milhões ilegalmente. "A Bancoop pode ser qualquer coisa, menos cooperativa. É um verdadeiro balcão de negócios criminosos." Ele anota que entradas de recursos lícitos na conta denominada Pool, no Bradesco, de titularidade da Bancoop, movimentou R$ 323,9 milhões de créditos e R$ 324,7 milhões em débitos "onde se depreende uma série de cheques, transferências eletrônicas e bancárias que impossibilitam a destinação de aludidos recursos".

A base da acusação são 70 depoimentos e o laudo 39/2010, do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro, da Procuradoria-Geral de Justiça. Para rastrear 8 mil cheques, os auditores usaram programa semelhante ao do FBI e da polícia da França. Blat, que classifica a Bancoop como "verdadeira organização criminosa", juntou 60 anexos de documentos bancários e fiscais.

O pente fino pegou "movimentações escandalosas". Blat citou despesas de R$ 105,7 mil no hotel Grand Hyatt São Paulo em reservas feitas pela direção da cooperativa nos GPs de F-1 de 2004 e de 2005. A investigação mostra repasse de R$ 50 mil da Bancoop para um centro espírita. "O dinheiro começou a sangrar dos cofres da Bancoop a partir de 2002 e os picos de movimentação foram até 2005", acusa o promotor. "Uma parte foi para o PT."

CASO BANCOOP

Setembro/2006

Estado noticia que o Ministério Público de São Paulo investiga denúncias de irregularidades na cooperativa criada pelo ex-presidente do PT, Ricardo Berzoini

Março/2008

Reportagem do Estado informa que promotor José Carlos Blat encaminhou à Procuradoria documentos que indicariam uso da Bancoop para caixa 2 do PT

Junho/2008

Estado informa que morte de Luiz Malheiro por acidente de carro será investigada. Irmão diz que ele teria sido alertado para reforçar segurança

Abril/2009

Promotor João Lopes Guimarães Jr. pede condenação dos responsáveis pela Bancoop ao pagamento de indenização por danos morais e materiais

Março/2010

O Ministério Público pede a quebra de sigilo do presidente licenciado da Bancoop e também tesoureiro do PT, João Vaccari Neto

Agosto/2010

Justiça decreta bloqueio de ativos financeiros de Vaccari a pedido de cooperados que alegam terem sido lesados. Valor congelado chega a R$ 73,8 mil

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