Promotoria apura elo de esquema e vereador

Rede de tráfico de influência que manteve prostíbulo aberto é alvo

Diego Zanchetta, Marcelo Godoy, Rodrigo Pereira e Roberto Almeida, O Estadao de S.Paulo

24 de junho de 2008 | 00h00

O Ministério Público Estadual (MPE) vai investigar a rede de tráfico de influência e de corrupção que manteve aberta a casa W.E., prostíbulo de luxo de São Paulo e um dos centros de uma organização que traficava mulheres e lavava dinheiro. Escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal durante as investigações que levaram à deflagração da Operação Santa Tereza mostram fiscais da Prefeitura, policiais e assessores políticos supostamente ajudando a organização criminosa. As escutas envolvem o presidente da Câmara Municipal de São Paulo, vereador Antônio Carlos Rodrigues (PR), e seu genro e braço direito, Fabiano Alonso.A decisão de investigar o caso, revelado ontem pelo Estado, foi tomada pela Promotoria de Justiça da Cidadania, que vai verificar possível improbidade administrativa cometida pelos envolvidos. O Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) também quer cópias dos materiais produzidos pela PF. Na Câmara Municipal, a vereadora e candidata a prefeita Sonia Francine (PPS) tentava ontem articular a abertura de CPI para apurar se Carlinhos quebrou o decoro parlamentar. A parlamentar necessita de 19 assinaturas. "Não podemos deixar dúvidas à população sobre a conduta do Legislativo", diz Soninha.Nas conversas flagradas em abril pelos federais, Alonso diz ao lobista da organização, o coronel Wilson de Barros Consani Junior, que Carlinhos ia ajudar. Alonso afirma, nos dias 7 e 9 de abril, que o sogro vai tratar do assunto com o prefeito Gilberto Kassab (DEM) - o prefeito e o vereador negam. No dia 18, Consani telefona ao empresário Manuel Fernandes de Barros Filho, o Maneco, apontado pela PF como dono da W.E., e combina valores a serem pagos até outubro - cuja soma chega a R$ 60 mil. Em seguida, Maneco telefona para o proprietário do prédio que abriga a W.E., o construtor Felício Makhoul, e diz que o problema com a Prefeitura estava resolvido, mas ia "ter um custo de campanha aí".A casa ficou aberta até 24 de abril, quando a PF deflagrou a Operação Santa Tereza. Consani foi um dos dez presos no dia operação. Ele trabalhava como assessor de segurança para a Força Sindical e mantinha contatos com o deputado federal Paulo Pereira da Silva (PDT), o Paulinho da Força, também investigado pela PF. Treze pessoas foram denunciadas pela Procuradoria da República por crimes como lenocínio, tráfico de mulheres, formação de quadrilha e desvio de dinheiro público. Três ainda estão presos, e Maneco está foragido. Indagado sobre o caso, o prefeito Gilberto Kassab afirmou ontem que a sua gestão sempre agiu com rigor contra as casas de prostituição na cidade e insistiu que a citação de seu nome "não significa nenhum envolvimento". "Possivelmente muitas pessoas devem citar o nome do prefeito em diversas ocasiões, o nome do governador, do presidente da República", exemplificou. "Cabe ao vereador explicar, não a mim. Estou desvinculado desse assunto e tenho credibilidade para fazer essa afirmação."Em nota de esclarecimento, Carlinhos disse que todo cidadão que procura seu gabinete é ouvido e que "se a solicitação apresentada tem procedência" o gabinete "procura ajudar este cidadão sem pedir nada em troca". Diz que, neste ano, enviou 1.307 ofícios à Prefeitura e que, quando tomou conhecimento de que a solicitação de Consani envolvia a regularização de um prostíbulo, determinou que seus assessores "não adotassem nenhuma medida para o local continuar aberto".Questionado sobre por que a W.E. ficou aberta, Carlinhos disse que não é atribuição sua manter aberto ou fechar estabelecimento comercial. "Trata-se de atribuição do Executivo." A Prefeitura informou que o prazo para a boate se regularizar terminaria em maio. Antes disso, a pedido da PF, fiscais da Prefeitura fecharam o lugar em 25 de abril.

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