Propina era paga por advogados

Presos orientavam defensores a negociar com policiais corruptos

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

30 Agosto 2008 | 00h00

Advogados do PCC eram os responsáveis pelo pagamento de propina a policiais civis de São Paulo. Denúncia do Gaeco do Vale do Paraíba relata a ação desses profissionais durante achaques efetuados por policiais do Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) de São José dos Campos e de Caçapava. Segundo a denúncia, a advogada Alessandra Moller, uma das coordenadoras da sintonia, recebia orientações dos presos sobre como negociar com os policiais corruptos. Ela repassava ordens ao advogado José Luiz Correia Menezes, que seria encarregado de levar o dinheiro do suborno à delegacia. "O PCC paga os serviços de advogados exclusivamente para os membros da facção que tenham cometido crimes em seu nome e em seu interesse", diz o Gaeco. Em 22 de maio, policiais do Denarc apreenderam uma "grande quantia de dinheiro" do PCC, que estava em um ponto de drogas. Naquele dia, Alessandra recebeu um telefonema de um homem chamado Clóvis, que contou o ocorrido e disse o que a facção queria que ela negociasse com os policiais, "estabelecendo as prioridades para a liberação de pessoas e de entorpecentes". Trinta minutos depois, os advogados Alessandra e Menezes fizeram uma teleconferência com dois presos que seriam responsáveis pela droga, identificados como Clóvis e Amaral. Menezes contou que havia oferecido aos policiais R$ 30 mil mais o dinheiro apreendido em troca da liberdade dos presos. Clóvis autorizou. "O dinheiro também serviria para que os policiais substituíssem duas armas apreendidas que estavam com a numeração raspada por outras sem esse problema, a fim de aliviar o flagrante." Concluídas as negociações com os policiais, Alessandra e Menezes realizaram uma nova teleconferência com detentos para dar um balanço do caso. Segundo o Gaeco, outros dois casos semelhantes ocorreram em São José dos Campos e em Caçapava. A desconfiança dos promotores é que a droga fosse de propriedade de Orlando Motta Junior, o Macarrão, um dos chefes da facção criminosa. Era Macarrão o homem encarregado na cúpula do PCC de cuidar da Sintonia dos Gravatas. Ele também controlaria pontos de venda de drogas em Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo, e em São José dos Campos. Por isso, um apartamento, registrado no nome de sua mulher, Maria Jucinéia da Silva, foi seqüestrado por ordem judicial. Os promotores desconfiam que a compra do imóvel serviu para lavar dinheiro. Macarrão, sua mulher e os advogados Menezes, Alessandra e Patrícia Galindo foram denunciados por lavagem. Alessandra teria ido ainda mais longe, orientando uma mula PCC sobre como entrar com droga em um presídio da Baixada Santista. Em uma conversa com uma colega, Alessandra se queixa de um advogado do esquema e se diz que é muito mais competente que o desafeto em um quesito particular: "se ele quiser medir força comigo sobre quem mais entrega celulares nos presídios".

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