Proposta permite censura e inviabiliza trabalho de institutos

O projeto de lei 93/2010, aprovado em comissão do Senado, prevê três maneiras de censurar e inviabilizar as pesquisas eleitorais feitas até um mês antes da votação:

Análise José Roberto Toledo, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2010 | 00h00

1) que o plano amostral das pesquisas seja aprovado por pelo menos 2/3 dos candidatos;

2) que a amostra seja de pelo menos 0,01% do eleitorado;

3) que os resultados sejam ponderados exclusivamente por dados populacionais do IBGE.

A primeira exigência dá poder aos candidatos de vetar a divulgação de pesquisas. Imagine um segundo turno: se não menos do que 2/3 deles precisam aprovar o plano amostral, na prática, significa ambos. Se o candidato A aprovar, mas o B não, a pesquisa não poderá ser divulgada.

Na eleição presidencial de 2010 havia nove candidatos. Se quatro dos cinco nanicos que tiveram menos de 90 mil votos (e que corretamente nunca pontuaram nas pesquisas) não aprovassem o plano amostral, não saberíamos nada sobre a sucessão no último mês do primeiro turno.

Não contentes em dar poder de censura a si próprios e a seus colegas, os senadores se meteram a estatísticos. Estipularam que a amostra terá que ter no mínimo 0,01% do eleitorado. O texto é omisso, mas supõe-se que seja o eleitorado apto a votar em cada eleição. Em 2010, as pesquisas feitas até 30 dias antes do primeiro turno e todas as do segundo turno teriam que ter pelo menos 13.580 entrevistas. Isso inviabiliza financeiramente sua execução, pois o custo aumentaria de 5 a 7 vezes.

O pior é que os senadores tomaram essa decisão sem nenhuma base científica: até as carteiras dos cursos de estatística sabem que o tamanho da amostra independe do universo pesquisado: 2 mil entrevistas dão margem de erro de 2 pontos, 10 mil dão 1 ponto, 13.580 dariam 0,9. O custo é multiplicado, mas só diminui em 1 ponto a margem de erro. Finalmente, os dados do IBGE são atualizados apenas de 10 em 10 anos. Levada ao pé da letra, a lei proíbe os institutos de ponderar os resultados pela abstenção, já que a fonte é a Justiça Eleitoral.

É JORNALISTA ESPECIALIZADO EM ESTATÍSTICAS

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