Felipe Rau/Estadão
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José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2017 | 03h00

A comunidade evangélica tem duas igrejas no Brasil inspiradas na Reforma de 1517, quando o alemão Martinho Lutero publicou as 95 teses contra as indulgências e, por causa da divergência, foi excomungado pelo papa e rompeu com a Igreja Católica. As duas denominações nasceram há mais de 100 anos entre colonos luteranos de origem alemã, no sul do País, que trouxeram a sua fé da Europa, mas não tinham assistência espiritual. A primeira foi a Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB), em 1864, e a outra, a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), em 1900.

Os evangélicos, que somam hoje mais de 42,3 milhões de fiéis no Brasil (22,2% da população), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já se organizavam desde 1811, quando se construiu um cemitério protestante em Sorocaba, no interior paulista. Apesar das dificuldades dos evangélicos num país em que o catolicismo era a religião oficial, outras comunidades surgiram a partir de 1824, já no Império, com a chegada de imigrantes alemães a Nova Friburgo (RJ) e São Leopoldo (RS). Em 1827, grupos menores se fixaram nas províncias de São Paulo, Rio, Minas e Espírito Santo e, na década de 1850, em Santa Catarina.

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Os primeiros 40 anos foram muito duros para os evangélicos, na vida civil e familiar, porque não tinham o direito de professar sua fé em público. Os casamentos dos evangélicos não tinham validade, por isso os casais viviam em concubinato. Os protestantes eram obrigados a sepultar seus mortos em alas segregadas. Os templos protestantes não podiam ter símbolos religiosos, como cruzes, torres e sinos.

Com a IECLB, começaram a chegar pastores da Europa regularmente. Eram enviados pela Igreja Evangélica da Prússia, a Sociedade Missionária de Basileia (Suíça) e a Sociedade Evangélica para os Alemães Protestantes na América. A IELB foi fundada entre imigrantes alemães no Rio Grande do Sul, com ajuda de um pastor americano. 

A duas denominações professam a mesma fé da Reforma de Lutero, mas têm diferenças na estrutura e nas práticas pastorais. Por exemplo: a IECLB admite ordenar pastoras, o que a IELB, mais conservadora, rejeita. 

Três séculos antes da organização das igrejas luteranas, já havia evangélicos no País. Entre os primeiros luteranos, a IECLB registra a vinda de Heliodor Hesse, escrivão que chegou por volta de 1554 e morou em São Vicente, no litoral paulista. Era filho do humanista Helus Eobano Hesse, amigo de Lutero. 

Temor de extremismos e desafios comuns fazem luteranos e católicos celebrarem cisma juntos pela 1ª vez e passarem mensagem de reconciliação

Na ocupação holandesa do Nordeste, eram calvinistas muitos dos invasores. Apesar do testemunho de cronistas do século 17 de que havia tolerância religiosa, foram responsabilizados pelo massacre de dezenas de católicos aliados dos colonos portugueses. Das vítimas dos massacres, ocorridos no Rio Grande do Norte, 30 foram canonizados pelo Vaticano no dia 15.

O reformador João Calvino, contemporâneo de Lutero e líder de um dos principais ramos do protestantismo, está sendo lembrado no aniversário de 500 anos da Reforma pela Igreja Presbiteriana, que segue sua doutrina. Os primeiros missionários presbiterianos vieram dos Estados Unidos no século 19 e fixaram-se em São Paulo, onde fundaram o colégio, e depois a Universidade Mackenzie. Ofereceram ensino de alta qualidade a filhos da elite paulista. Fundaram também escolas no Rio e em Juiz de Fora, em Minas. 

A comunidade se divide em três denominações – a Presbiteriana, a Presbiteriana Independente e a Presbiteriana Renovada. As três seguem basicamente a mesma doutrina, mas divergem em questões pastorais e de disciplina. A Presbiteriana não admite ordenar pastoras, que a Independente aprova. Fundada em 1903 pelo reverendo Eduardo Carlos Pereira, a Presbiteriana Independente nasceu da dissidência com a Igreja Presbiteriana do Brasil, ao pedir total autonomia em relação aos presbiterianos americanos e discordar do uso dos colégios, no caso o Mackenzie, para converter alunos. Os presbiterianos discordam também no ecumenismo, que os independentes praticam e a Igreja Presbiteriana do Brasil, não.

As igrejas luteranas e as presbiterianas são históricas ou tradicionais, ao lado da Metodista, da Batista e da Anglicana. Todas estão comemorando com maior ou menor ênfase os 500 anos da Reforma. Entre as tradicionais, ainda se inclui a Congregação Cristã no Brasil, de origem americana. Seus primeiros pastores vieram no século 19. 

++ As 95 teses de Lutero

Contemporâneas. As Assembleias de Deus, mencionadas assim no plural, são a maior denominação evangélica do País. Estão presentes em todos os Estados e contam com mais de 12 milhões de membros, segundo o IBGE. Como igrejas livres, no conceito dos líderes suecos, as Assembleias multiplicaram-se em templos locais. Nasceram de um grupo dissidente da Igreja Batista. 

Segundo o historiador Gedeon Alencar, autor do livro Protestantismo Tupiniquim, o protestantismo é cismático e divisionista, desde o início da Reforma, como comprovam as divergências doutrinárias entre Lutero, Calvino e, mais tarde, Wesley, fundador do Metodismo.

Em muitos casos, uma nova igreja evangélica surge e caminha em torno de uma liderança, como as denominações fundadas por Valdomiro Santiago, R. R. Soares e Silas Malafaia. Aí se inclui o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, com a diferença de que ele aparece e desaparece no cenário de seus templos. “Edir busca a institucionalização da Universal, de modo que o futuro da sua igreja não dependa da presença dele”, observa Alencar. Até os anos 1990, os grupos pentecostais eram considerados seitas, e não igrejas, pela hierarquia católica, alegadamente por não terem estrutura doutrinária.

Numerosas igrejas protestantes defendem uma nova reforma, ao constatar que abusos denunciados por Lutero, como a venda de indulgências, se repetem sob novas roupagens. É uma crítica e autocrítica que dirigentes de várias igrejas, incluindo a Católica, fazem ao constatar pedidos de contribuição, pagamento de dízimos e venda de produtos supostamente religiosos, em cultos e shows transmitidos pela TV.

O apóstolo Gilson Henriques, presidente da Missão Mundial Tabernáculos de Profetas, que fundou há 17 anos, denuncia a venda de produtos como óleos, porções de terra santa, pedacinhos de tecidos, garrafas de água do Rio Jordão.

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José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

30 Outubro 2017 | 03h00

Quem assiste a uma celebração, às 11 horas de domingo, na Paróquia da Ressurreição, na Vila Mariana, só é capaz de perceber que não se trata de uma missa católica, mas uma cerimônia evangélica, porque a oficiante é uma mulher. A reverenda Carmen Kawano entra na igreja com paramentos idênticos aos de um padre, com túnica branca e estola verde da liturgia do dia, inclina-se diante do altar e inicia o ritual, acolitada por um sacerdote e um diácono também paramentados. A estrutura da celebração é idêntica, e os textos do Antigo e do Novo Testamento lidos antes da homilia são os mesmos do folheto das missas católicas. Um dos dois cantores que entoam hinos ao som do violão é d. Flávio Irala, bispo da Diocese Anglicana de São Paulo.

“O rei Henrique VIII, que fundou a Igreja Episcopal da Inglaterra em 1534, não tinha a intenção de se separar de Roma. Só rompeu com o papa porque não conseguiu o divórcio da primeira mulher, Catarina de Aragão, para se casar com Ana Bolena, dama de honra da rainha”, observou d. Flávio. Sob a autoridade do monarca, a Igreja Anglicana introduziu várias mudanças, como a celebração em inglês, o divórcio e admissão de novas uniões. O rei inglês foi contemporâneo de Lutero, mas não se encontrou com ele. “Henrique XVIII chegou a escrever contra Lutero (antes de romper com o catolicismo)”, diz Carmen.

Embora não deem ênfase ao reformador, como fazem os luteranos, os anglicanos estão participando das comemorações dos 500 anos da Reforma. A reverenda Carmen Kawano foi atuante, nos últimos meses, em discussões teológicas e celebrações ecumênicas, ao lado de padres católicos e pastores de outras denominações evangélicas. Formada em Letras e em Física, Carmen celebra cultos ou missas em japonês para filhos e netos de imigrantes. 

D.Flávio Irala preside o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, que agrega católicos, ortodoxos e protestantes. Não buscam a união sob uma autoridade, mas a unidade em torno de ideais. 

Os anglicanos são 80 milhões em 110 países. No Brasil, são de 30 mil a 50 mil, com nove dioceses e um distrito missionário. Em São Paulo, é expressiva a comunidade anglicana japonesa, que se desenvolveu em colônias agrícolas e no Vale do Ribeira, em São Paulo. A Igreja da Inglaterra chegou ao País no início do século 19, mas só dava assistência a ingleses, sem aval para erguer templos. A autonomia só foi obtida em 1965, quando adotou o nome de Igreja Episcopal do Brasil e, a partir de 1990, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. 

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José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2017 | 03h00
Atualizado 04 Novembro 2017 | 16h05

A Igreja Batista, que chegou ao Brasil com missionários americanos enviados dos Estados Unidos, em 1882, também  comemorou os 500 anos da Reforma de Lutero. O professor André Muceniecks, pesquisador da Faculdade Teológica Batista de São  Paulo e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), disse que  havia, no começo, uma aparente falta de interesse, provavelmente pelo fato de as igrejas batistas serem congregacionais, com grande autonomia entre as congregações e em relação às convenções nacionais e estaduais às quais estão filiadas. Depois o quadro mudou.

"Não havia, de início muitas comemorações em nível geral, mas nas últimas semanas foram organizadas muitas comemorações ou menções isoladas das reformas protestantes", disse Muceniecks. Um evento digno de menção é o Concerto da Reforma, organizado pela associação dos músicos batistas do Estado de São Paulo (AMBESP).

No Ato Cultural promovido por luteranos e católicos, na noite de 24 de outubro, o coral e a orquestra da Igreja Batista em Perdizes apresentaram um concerto com peças sacras ligadas à Reforma, entre elas o hino Castelo Forte, de Martinho Lutero, cantado em português.

O professor Muceniecks  foi sondado por alunos para falar sobre o tema em suas igrejas e participou de conferências e palestras sobre as reformas protestantes, não só a de Lutero, mas também as de outros reformadores. Segundo ele, existe um grande número de pastores jovens que estudam e ensinam uma teologia reformada calvinista, não luterana.

A Igreja Batista, que tem cerca de 700 templos e 1.350.000 fiéis na maior de suas convenções, a Convenção Batista Brasileira, aponta 31 de outubro como Dia da Reforma Protestante, mas não agendou comemoração oficial. Foram discretas também as referências de outras convenções, como a Convenção Batista Nacional e a Convenção Batista Regular, ao quinto centenário da Reforma de Lutero.

Ao se referir à data, o professor Muceniecks prefere falar em Reformas Protestantes, no plural. Pela história oficial da igreja, os batistas derivam de separatistas ingleses que fugiram da perseguição religiosa do rei James (Tiago) no século 17 e se refugiaram na Holanda.

Liderados por Thomas Helwys e John Smyth, foram acolhidos por anabatistas holandeses (sectários do anabatismo, que só admitem o batismo na idade adulta e rebatizam os convertidos batizados ainda crianças ou adolescentes).

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José Maria Mayrink, O Estado de São Paulo

30 Outubro 2017 | 03h00

A Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), fundada sob orientação luterana em 1948, atingiu este ano as marca de 156,5  milhões de Bíblias publicadas, Antigo e Novo Testamento. Desse total, 30,7 milhões foram exportados.

Seus principais clientes são as igrejas evangélicas, de todas as denominações. Mas a editora fez parceria também com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para uma edição ecumênica, que inclui os livros rejeitados pelo reformador Martinho Lutero, do século 16, como não canônicos, mas reconhecidos pelos católicos.

A SBB publicou, em fevereiro deste ano, a Bíblia de Estudo da Reforma, em comemoração dos 500 Anos da Reforma Protestante. A edição traz uma biografia de Lutero, além de 40 mil notas de rodapé e reflexões do reformador na introdução dos livros bíblicos.

A Bíblia Sagrada com Reflexões de Lutero, com 900 reflexões do reformador, foi lançada pela SBB em 1912. Inclui ainda hinos evangélicos, com letra e música do alemão.

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Artigo: Aos 500 anos da Reforma Protestante, uma proposta ética para nossos dias

Lutero entendia a ética do trabalho como obra altamente moral, que melhora a qualidade de vida da pessoa e transforma a sociedade

Geraldo Graf *, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2017 | 03h00

Em fins de outubro de 1517, o monge agostiniano e professor da Universidade de Wittenberg (Alemanha), doutor Martinho Lutero (1483-1546), enviou uma carta ao arcebispo Alberto de Mogúncia reclamando sobre a venda de indulgências. Indulgências são declarações de perdão concedidas pela Igreja e, segundo Lutero, não poderiam ser comercializadas.

Lutero anexou à carta um documento, posteriormente conhecido como “95 teses contra a venda de indulgências”, por meio do qual defendeu que o perdão dos pecados deveria ser anunciado gratuitamente mediante o sincero arrependimento da pessoa. O documento “viralizou” e se espalhou rapidamente pela Europa, dando início ao movimento conhecido como Reforma. O dia 31 de outubro de 1517 foi definido como Dia da Reforma. Não há provas concretas de que as 95 teses tenham sido pregadas na porta da igreja do Castelo de Wittenberg.

Em outubro de 2017, registramos os 500 anos da Reforma iniciada por Martinho Lutero. A comemoração deste importante jubileu acontece em meio à conturbada situação política e social brasileira, quando os mais altos escalões do governo são acusados de corrupção; ele acontece em meio à profunda crise de transformação (perda) de valores; ela acontece em meio ao descrédito geral em relação às instituições.

Tem a Reforma Luterana uma proposta ética para responder a todos estes desafios?

Em seu livro Da Liberdade Cristã (1520), Martinho Lutero escreveu: “Um cristão é senhor livre de todas as coisas e a ninguém submetido – pela fé; um cristão é servo submisso a todas as pessoas – pelo amor”. Lutero escreveu estas palavras como orientação ética aos cristãos de todos os tempos quanto ao seu comportamento e à sua ação na sociedade. 

Ele apontou para a responsabilidade cidadã e política de cada cristão. A fé é expressão de liberdade diante do jugo da exploração econômica e das ideologias que se agarram ao poder. A fé é expressão da identidade do cristão e norteia seu jeito de ser e de agir. Pela fé, o cristão se desobriga das amarras que o prendem, mas simultaneamente o recoloca na sociedade para ações concretas e transformadoras. A fé liberta, o amor compromete. Missão do cristão e da Igreja é apresentar propostas éticas ao discurso político e levantar voz profética onde indivíduos e governos transgridem e ultrapassam os paradigmas éticos. É sua missão apontar caminhos que aproximem a ação humana da vontade divina. 

O “mar de lama” em que se encontra nosso país é sinal de que a voz profética dos cristãos ainda não foi suficientemente ouvida ou proferida. As denominações cristãs são devedoras de uma palavra ética orientadora para a sociedade brasileira.

Em 1524, Martim Lutero escreveu “aos conselhos de todas as cidades da Alemanha para que abram e mantenham escolas públicas”. Em 1530, Lutero exortou os pais a reconhecerem sua responsabilidade e enviarem seus filhos à escola. Lutero propôs uma ampla reforma do ensino (elementar, secundário e universitário). Ele defendeu a criação de escolas públicas, que possibilitassem o estudo e a boa formação de toda a população (tanto rapazes quanto moças). Lutero mostrou quão relevantes seriam pais compromissados e cidadãos bem-educados para bem atuarem nos lares, na sociedade e nas administrações públicas além de se tornarem boas lideranças na Igreja. 

O objetivo inicial de Lutero era que todas as pessoas fossem alfabetizadas para poderem fazer o livre exame das Sagradas Escrituras. Para tanto, ele traduziu o Novo Testamento para a língua alemã em 1521. Resultado de todo este esforço foi a elevação do nível educacional da população, de sua capacidade profissional e intelectual. Lutero partiu do princípio de que, através da leitura e do estudo das Sagradas Escrituras, pessoas instruídas pudessem ter a consciência e a liberdade diante de forças escravizantes e seguir paradigmas éticos para a condução de uma vida digna e justa: livres pela fé em Cristo e dispostos a servir por amor.

Em outro livro, Comércio e Usura, de 1524, Lutero fala sobre o trabalho. Na contramão do antigo espírito ateniense, que entendia o trabalho como uma atividade degradante, que caberia aos escravos, ele concedeu ao trabalho uma compreensão religiosa/espiritual. Fazendo um jogo de palavras: beruf = trabalho versus berufung = vocação, Lutero descreveu o trabalho como uma vocação, como aspecto integrante da existência humana. Através do trabalho, praticamos uma missão. Além de buscar o próprio sustento e o da família, servimos ao nosso próximo.

Lutero entendia a ética do trabalho como obra altamente moral, que melhora a qualidade de vida da pessoa e transforma a sociedade. A partir de Lutero, os luteranos reconceituraram o trabalho como um dever que beneficia tanto o indivíduo quanto a sociedade como um todo. Desta forma, combatem-se dois extremos: o ócio – em que deixar de trabalhar significa deixar de utilizar seus dons e suas potencialidades. Transforma o ser humano em “desumanidade”; e a avareza – em que se deixa de enxergar o trabalho como um servir a Deus e ao próximo e passa a acumular os resultados do trabalho em detrimento dos outros, como exploração e escravidão.

Lutero afirmou: “Do trabalho não há quem morra, da ociosidade sim, porque o ser humano nasceu para trabalhar como as aves nasceram para voar”. Em outro trecho, Lutero escreveu: “A riqueza é a coisa mais mesquinha desta terra e o menor dos dons que Deus possa dar aos humanos. É por isso que Deus dá geralmente a riqueza aos grandes asnos que não sabem almejar outra coisa”.

Uma ética em perspectiva luterana é ética da fé ativa no amor, ética do cuidado, ética da liberdade. Seu fundamento está na percepção das relações concretas da vida como geradoras e foco da existência ética. Lutero escreveu na introdução à Carta aos Romanos: “a fé é altamente dinâmica e atuante. Há algo muito vivo, atuante, efetivo e poderoso na fé, a ponto de não ser possível que ela cesse de praticar o bem. Ela também não pergunta se há obras a fazer, e sim, antes que surja a pergunta, ela já o realizou e está sempre a realizar.”

* É pastor sinodal do Sínodo Sudeste da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB)

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Artigo: Ser presbiteriano é pertencer a uma igreja que é uma comunidade

Presbiterianos não querem que a igreja cresça a qualquer custo, mas almejam que as pessoas cresçam em bondade e misericórdia

Valdinei Aparecido Ferreira *, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2017 | 03h00

João Calvino (1509-1564) era ainda criança quando Martinho Lutero (1483-1546) afixou as 95 teses à porta da Catedral de Wittenberg, em 1517. A conversão de Calvino ao protestantismo se deu somente em 1533, quando a Reforma Luterana já avançava para a sua segunda década de existência. Coube a esse francês bastante reservado, em 1536, apresentar a sistematização mais ampla e didática dos insights doutrinários de Martinho Lutero na obra intitulada Instituição da Religião Cristã. Refugiado em Genebra, ao lado de outros refugiados das perseguições movidas pela Igreja Católica Romana, João Calvino deu forma à doutrina e ao modo de organizar a igreja cristã reformada. 

As igrejas presbiterianas são descendentes da Reforma da Igreja de Genebra, liderada por João Calvino. Entretanto, foi na Escócia que esse ramo reformado adotou a designação presbiteriana. O nome é proveniente do modo de tomar decisões e governar a igreja. Os membros da igreja elegem, dentre os próprios leigos, pelo voto direto, seus representantes para o Conselho da Igreja. As decisões administrativas, disciplinares e doutrinárias são tomadas por esse conselho de presbíteros. Daí serem chamadas de presbiterianas, ou seja, igrejas que são governadas não por bispos, mas pelos presbíteros. John Knox (1514-1572), um discípulo de João Calvino, foi o principal reformador da igreja na Escócia. Francis Makemie (1658-1708) levou o presbiterianismo para os Estados Unidos quando este ainda era uma colônia inglesa. Aliás, o único clérigo a assinar a Declaração da Independência dos EUA foi o pastor presbiteriano John Whiterspoon.

Em 1859 chegou ao Brasil o missionário presbiteriano Ashbel Green Simonton. A Primeira Igreja Presbiteriana no Brasil foi organizada no Rio de Janeiro, em 1862. Caberia à Alexander Blackford organizar, na cidade de São Paulo, em 1865, a Primeira Igreja Presbiteriana. Os missionários presbiterianos foram recebidos com entusiasmo pela elite intelectual brasileira, quase sempre em conflito com o obscurantismo da Igreja Romana da época.

Afinal, em que creem os presbiterianos? Como vivenciam sua fé? O que significa ser presbiteriano? Ser presbiteriano é pertencer a uma igreja que é uma comunidade. Os presbiterianos não são uma corporação religiosa, igreja composta apenas pelo clero, ou uma empresa religiosa, dirigida por “pastores-proprietários”, para atender as necessidades de consumidores religiosos. Presbiterianos não querem ser “a única igreja verdadeira” sobre a terra. Presbiterianos não querem que a igreja cresça a qualquer custo, mas almejam que as pessoas cresçam em bondade e misericórdia.

Presbiterianos lembram-se a cada dia do que Cristo disse: “...tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso e fostes ver-me” (Mt 25.35-36). Ser presbiteriano implica viver a fé cristã de forma madura e coerente. O presbiteriano não foge das complexidades da vida com respostas prontas. Menos ainda se vale o presbiteriano da infantilização por meio do cultivo do pensamento positivo, chavões e superstições, mascarada sob a designação imprecisa de fé. A fé presbiteriana possui um fundamento – Cristo. Antes e acima de tudo, trata-se de fé em Cristo, o Salvador.

* É pastor titular da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo e doutor em Sociologia 

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Artigo: Lutero tentou resgatar o que cria ser a verdade genuína afirmada com clareza na Bíblia

Numa época onde as moças e mulheres não eram valorizadas, ele queria ensino e escola para todos, rapazes e moças, com direitos iguais

Rev. Egon Kopereck *, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2017 | 03h00

No dia 31 de outubro, completam-se 500 anos desde que um monge agostiniano chamado Martinho Lutero mudou a história do mundo Ocidental, ao afixar 95 Teses à porta da Igreja do Castelo, na cidade de Wittenberg, Alemanha. Ali ele dava início ao movimento que ficou conhecido como Reforma Luterana, mais tarde denominada como Reforma Protestante, já que seus sucessores contemporâneos, poucos anos mais tarde, protestaram por liberdade religiosa.

A Reforma Luterana marcou profundamente a história do Cristianismo. Os ensinos da Reforma podem ser resumidos nos seguintes pilares, conhecidos na expressão latina como os “três solas”, ou seja:

– Sola Gratia: Somos salvos somente pela graça de Deus, conforme a Bíblia nos diz em Romanos 3.24 e Efésios 2.8 e 9;

– Sola Fide: Este presente vem a nós somente pela fé, conforme nos é dito na Bíblia Sagrada em Romanos 1.17, Romanos 3.28 e Gálatas 2.16;

– Sola Scriptura: Somente a Escritura é fonte de doutrina e verdade. Isso nos atestam os textos bíblicos de 2 Timóteo 3.16 e 1 Pedro 1.23-25.

Como herdeiros da Reforma, louvamos a Deus por ter preservado entre nós a sua palavra, registrada na Bíblia Sagrada, ao longo desses 500 anos.

Na verdade, o então monge e já PhD em Bíblia não reivindicava criar uma doutrina nova ou iniciar uma nova religião. Quando Lutero, em 31 de outubro de 1517, apresentou suas 95 teses ou afirmações teológicas, defendendo a “justificação pela fé” – ou Sola Fide, na verdade, estava tentando resgatar o que cria ser a verdade genuína afirmada com clareza nos livros da Bíblia.

Numa época onde as pessoas, orientadas e estimuladas pelo clero da Idade Média, tentavam comprar o perdão dos seus pecados e a salvação eterna mediante seus próprios méritos, seu dinheiro, suas boas obras, Lutero apontava para a Bíblia, o que ela dizia. O refrão de Lutero era “Jesus já fez tudo por nós”, o pro nobis tão característico de sua teologia.

No legado da Reforma Luterana para os dias de hoje, podemos destacar a valorização da palavra de Deus, a Bíblia Sagrada, e, a partir dela, o amor a Deus e ao próximo. O resgate dos valores éticos e morais, tão pisoteados em nossos dias, a valorização do casamento entre um homem e uma mulher, conforme expresso em Gênesis 2.24 e repetida por Jesus no Novo Testamento, em Mateus 19.5: “Deixa o homem pai e mãe e se una à sua mulher”. Além disso, devemos destacar o cuidado e a educação dos filhos, a começar no lar, pelos pais. Para conseguir fazer isso, Lutero preparou um catecismo menor, destinado aos pais, sempre com a introdução: “Como o chefe da família deve ensinar os seus filhos”. 

Nesse sentido, sobre a importância da educação dos filhos, Lutero dizia: “Se a raiz é de má qualidade, o tronco, os ramos e os frutos, certamente, também o serão. O filho amanhã será pai, juiz, professor, príncipe, rei (...). Se for mal educado, tudo será corrompido”.

Numa época onde as moças e mulheres não eram valorizadas, ele queria ensino e escola para todos, rapazes e moças, com direitos iguais. Lutava para que o governo se ocupasse e preocupasse com uma boa educação, oferecendo condições aos professores e alunos para um bom ensino e aprendizado. Certa vez, Lutero bramiu: “Gasta-se mais com armas do que com educação”. Por isso, também, Lutero é considerado o mentor da educação pública na Alemanha.

No Brasil, tão logo chegaram os primeiros luteranos imigrados da Europa, as primeiras escolas foram fundadas. Muitas perduram até hoje. 

Martinho Lutero também causou impacto na história ao propor uma clara distinção entre Igreja e Estado. Seu ensino era para que a Igreja formasse bons cidadãos e bons políticos, com princípios éticos e morais dignos, lutando pelo bem-estar do povo. No entanto, Igreja e Estado têm funções diferentes e são independentes.

O legado da Reforma Luterana ou Protestante, como queiram, perpassa os séculos e tem muito a ensinar e contribuir para os dias de hoje. A chanceler alemã, Angela Merkel, filha de um pastor protestante, recentemente afirmou: “Os europeus deveriam ter a coragem de voltar à Igreja e à Bíblia”. Creio ser este também o desafio e a necessidade do povo brasileiro. A partir da palavra de Deus, da sua mensagem, ouvida e praticada, mudam-se conceitos desvirtuados, resgatam-se valores e, com certeza, vive-se melhor, com mais justiça, honestidade, fidelidade, humildade, onde a moral e a ética prevalecem e, consequentemente, o amor, a paz e a esperança despontam.

* O reverendo Egon Kopereck é presidente da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB)

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