Protesto em Vitória contra não intervenção

Cerca de 300 pessoas (de acordo com a Polícia Militar) fizeram nesta quinta-feira uma manifestação no centro de Vitória em protesto contra o arquivamento do processo de intervenção federal no Espírito Santo. Durante o ato, foi divulgado um relatório da ong Justiça Global que aponta o nome de 14 pessoas - entre elas um promotor, três juízes, um deputado e um advogado - que teriam recebido ameaças de morte no Estado.Os manifestantes encaminharam ao Ministério Público Federal uma carta de repúdio à decisão do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, e seguiram até o Palácio Anchieta, sede do governo capixaba, onde houve protesto contra o governador José Ignácio Ferreira (PTN), que mandou reforçar o policiamento no local, com 25 homens.O ato foi organizado pelo Fórum Reage Espírito Santo, entidade que reúne partidos de oposição ao governo estadual, sindicatos, igrejas cristãs, Ordem dos Advogados do Brasil e estudantes, entre outros. Os organizadores estimaram em 600 pessoas o número de participantes. Maria das Graças Nascimento Nacort, uma das 14 pessoas citadas pela ong, estava na manifestação.Ela teve o filho executado por policiais com 19 tiros, em 1999, e diz que, agora, está recebendo ameaças. "Temos grupos de extermínio agindo dentro da polícia. O procurador-geral arquivou o pedido de intervenção por ordem do crime organizado", afirmou Isaías Santana, membro do Conselho Nacional de Direitos Humanos.Para ele, uma força-tarefa não resolveria o problema. A pesquisadora Eugênia Raizer, que coordena o Núcleo de Estudos da Violência da Universidade Federal do Espírito Santo e integra o fórum, disse que o problema do Estado é a impunidade. "O crime organizado está infiltrado no aparelho do Estado, indiciado em processos de corrupção e envolve os poderes Legislativo e Judiciário, que dificulta a tramitação de processos."O pastor Norberto Borges, presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, classificou o ato de Brindeiro de "ditatorial". "Aqui no Espírito Santo, os três poderes estão unidos: o Judiciário deveria estar presente no ato, mas vejo nenhum juiz; o Executivo, envolvido com denúncias de roubo do dinheiro público, não veio; e, do Legislativo, só vieram dois dos 30 deputados", disse o pastor, referindo-se aos deputados Cláudio Vereza (PT), um dos ameaçados da lista, e Lelo Coimbra (PSB). "Mas não iremos parar nossa luta."A conselheira da OAB Ivone Vilanova, também ameaçada, disse que não vai intimidar-se. "Estou nessa luta desde 1994. Eles ameaçaram minha família, sabem o que cada um dos meus filhos faz, mas não quero proteção da Polícia Federal, vou até o fim." O pesquisador americano Jeffrey Zinsmeister acompanhou o ato, como observador da ong Justiça Global."A esfera pública está muito contaminada pelo crime organizado no Estado, que tem liderado as estatísticas nacionais de homicídio. O problema é que as investigações não vão em frente, os processos são arquivados, e as pessoas que os conduzem são ameaçadas ou deslocadas", disse a diretora de Pesquisa da ong, Sandra Carvalho."Antes existia Estado paralelo; agora o que existe é Estado oficial do crime", disse o coordenador do Movimento Nacional de Direitos Humanos, Oscar Gatica.O advogado do governador, Nelson Aguiar, reagiu às acusações. "Estamos vendo uma manifestação de lideranças políticas. Não tem povo. São as mesmas pessoas que tentaram conseguir o impeachment de José Ignácio", disse ele. "Recebemos com naturalidade, o que querem é fazer barulho em cima do governo atual para beneficiar seus candidatos. Quem ganhar a eleição que peça a intervenção no primeiro dia de governo."Ele reconheceu que o crime organizado atua no Estado, mas disse que a situação não justifica uma intervenção federal. Comentou também as ameaças que advogados e deputados de oposição vêm recebendo. "Ameaça se faz até por brincadeira. Eu também já recebi ameaças, quando assumi a defesa do governador, mas sabia que era coisa do pessoal de esquerda enchendo o saco."Afirmou ainda que o Estado vai solicitar um "ato de governo" ao presidente Fernando Henrique Cardoso, por meio do Ministério da Justiça, porque o Espírito Santo "ficou sem defesa" no relatório que solicitava a intervenção, depois arquivado. "Só tinha as informações de um lado, por isso esse documento não vale nada."

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