Fabio Motta/Estadão
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Ações policiais em áreas pobres do Rio matam pedreiro, derrubam muros e causam protestos

Operações terminaram com uma pessoa morta na Vila Kennedy e com casas afetadas na Cidade de Deus. Protestos fecharam a Avenida Brasil e ônibus foram usados para bloquear tráfego na Estrada Marechal Miguel Salazar Mendes de Moraes

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2019 | 14h21
Atualizado 04 de setembro de 2019 | 11h18

RIO - Duas ações policiais geraram tumulto e protestos em duas favelas da zona oeste do Rio de Janeiro, na manhã desta terça-feira, 3. Na Vila Kennedy, por volta das 10h, um pedreiro de 45 anos trabalhava na laje de um bar quando foi baleado e morreu. Testemunhas acusam uma policial militar de disparar o tiro que matou o trabalhador. Na Cidade de Deus, a aproximadamente  23 quilômetros do local da primeira ocorrência, policiais que dirigiam um carro blindado (conhecido como ‘caveirão’) derrubaram muros de casas ao tentar circular entre elas. Ali, as vielas não comportam a passagem de veículos do tamanho do blindado. Nos dois casos, moradores reagiram e houve protestos.

Por volta do meio-dia, moradores da Vila Kennedy interditaram a Avenida Brasil nos dois sentidos e incendiaram um ônibus da linha 770 (Campo Grande-Coelho Neto). O trânsito só foi totalmente liberado por volta das 13h30. Na Cidade de Deus, por volta das 8h, moradores usaram pelo menos cinco ônibus e dois caminhões para interditar a Rua Edgard Werneck e a Estrada Marechal Miguel Salazar Mendes de Moraes. O tumulto se estendeu até às 11h20, quando as ruas foram liberadas.

O pedreiro morto na Vila Kennedy era José Pio Baía Junior, de 45 anos. Conhecido como Juninho, ele estava no telhado do bar Varandão da Gana, na esquina das ruas Gana e Etiópia, a 50 metros da Avenida Brasil, quando foi baleado. Em vídeo compartilhado nas redes sociais, um homem que se identificou como dono do bar onde Baía Junior trabalhava acusou a polícia pela morte. "Acabaram de matar um trabalhador em cima da minha laje! O cara fazendo a minha laje! O cara trabalhando, o policial atirou. Não tinha ninguém, não tinha ninguém, policial saiu dando tiro. É impressionante como a gente está sofrendo aqui na Vila Kennedy”, afirmou.

Outros relatos afirmam que havia quatro policiais na comunidade e que uma PM foi a autora do tiro que matou o pedreiro.

Em nota, a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar afirmou “que policiais militares do 14º Batalhão (Bangu) realizavam operação contra roubos de carga e veículos na avenida Brasil quando foram atacados por criminosos na esquina das ruas Tunísia e Gana, em um dos acessos à Vila Kennedy. Nesta manhã, quando estavam em deslocamento para a sede da companhia, que fica no interior da comunidade, os policiais foram atacados por criminosos. Houve um breve confronto e os policiais regressaram à companhia. Logo após, a unidade foi acionada pela Central 190, dando conta de que um homem teria sido ferido próximo ao local do confronto. Os policiais constataram o fato e acionaram a perícia. O comando do 14º Batalhão abriu procedimento apuratório para verificar as circunstâncias do fato”, informou a nota. 

A Secretaria de Polícia Civil afirmou que o caso será investigado pela Delegacia de Homicídios (DH) do Rio.

Sobre a ação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) na Cidade de Deus, a PM informou que um veículo blindado chocou-se com moradias, ao passar por uma rua da área conhecida como Rocinha 2, e que os moradores serão indenizados.

Durante a tarde desta terça-feira, após as duas ações da PM contestadas pela população, a hashtag “#aculpaedowitzel” ficou entre as mais usadas no Twitter. A frase atribui ao governador Wilson Witzel (PSC) a responsabilidade pelos erros na política de segurança no Estado do Rio.

O governador tem defendido a ação da polícia e chegou a responsabilizar defensores de direitos humanos pelas mortes de civis mortos por balas perdidas em confrontos.

Durante a tarde, pelo menos dois policiais militares foram baleados durante confronto com criminosos na Fazendinha, uma das favelas do complexo do Alemão, na zona norte. Eles sobreviveram e foram socorridos, mas até às 18h40 não havia informações sobre o estado de saúde deles. Segundo a PM, policiais do 16º Batalhão, em Olaria (zona norte), foram chamados para reforçar o policiamento na Fazendinha.

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