Diego Vara/ Reuters
Diego Vara/ Reuters

Protesto no Carrefour de Porto Alegre termina em confronto entre manifestantes e polícia

Grupo se reuniu em frente à unidade do Carrefour da Avenida Bento Gonçalves, uma das mais movimentadas da cidade

Eduardo Amaral, especial para o Estadão

23 de novembro de 2020 | 21h55

PORTO ALEGRE - Um protesto realizado nesta segunda-feira, 23, na unidade do Carrefour da Avenida Bento Gonçalves, na zona leste de Porto Alegre, terminou em confronto com a polícia. A Brigada Militar (BM) atirou bombas de gás lacrimogêneo nos manifestantes e duas pessoas ficaram feridas. Este é o segundo protesto após o assassinato de João Alberto Freitas, de 40 anos. O homem negro foi espancado e morto por dois seguranças brancos do Carrefour localizado na Avenida Plínio Brasil Milano, na zona Norte da cidade, no dia 19 de novembro.

O grupo bloqueou as duas faixas da Bento Gonçalves, uma das avenidas mais movimentadas da cidade, aos gritos de "acabou o amor, isso aqui vai virar Palmares" e "o Carrefour é assassino". Motociclistas buzinavam em apoio ao protesto.

Durante o protesto, um pelotão de choque da Brigada Militar se posicionou na Rua Osvaldo Pereira, transversal à Avenida Bento Gonçalves. Duas pessoas começaram a avançar em direção aos brigadianos, que se mantinham parados.

Após alguns minutos de insistência, os dois recuaram e a marcha retomou para a Bento Gonçalves. Era por volta das 19h40 quando iniciaram as primeiras cenas de depredação. Cerca de dez pessoas, quase todas mais jovens, começaram a quebrar as grades da unidade do Carrefour localizado na avenida. Além de pichações, um grupo também ateou fogo em objetos na via e arremessaram rojões no pátio do hipermercado.

Após cerca de 15 minutos de ação dos manifestantes, a tropa de choque iniciou a contenção. Bombas de gás lacrimogêneo foram usadas. No motim, duas pessoas ficaram feridas - uma delas foi uma senhora de aproximadamente 60 anos, que foi atingida de raspão na perna por uma bomba jogada por um dos manifestantes. O motorista de uma rádio de Porto Alegre também foi atingido por estilhaços de um foguete.

Mesmo com a ação da BM, manifestantes mais revoltados seguiam enfrentando o batalhão, atirando paus e pedras contra os agentes. Entretanto, a resistência durou pouco mais de 15 minutos e o protesto foi se dissipando.

Professor de teatro, Luno Pires dos Santos, de 21, diz que as imagens de João Alberto sendo morto lhe trouxeram sentimento de raiva e ódio. "A primeira coisa que penso é que poderia ser eu ou meu pai. E dá muita raiva e ódio porque o Carrefour já paga um salário de miséria para os pretos e agora mata um de nós." Luno esteve presente nos dois protestos - o desta segunda e o de sexta, 20 - e era um dos que puxavam os cantos durante a caminhada.

Na última sexta-feira, uma manifestação aconteceu em frente à loja onde o crime aconteceu. Naquela ocasião, o protesto também terminou em confronto com a BM, que disparou bombas de gás para dispersar os manifestantes que tentaram invadir o prédio do Carrefour da zona Norte.

Violência no Carrefour de Porto Alegre é recorrente

A publicitária Regina Ritzel, de 37 anos, mora em frente à loja onde aconteceu o protesto desta segunda-feira. Ela conta que, ao saber da morte de João Alberto, viu reprisar uma cena que ela mesmo presenciou em 2018. "Eu fui acusada nesse Carrefour de ter roubado o mercado, fui levada para uma salinha com as minhas duas filhas e obrigada a ficar seminua na frente delas, dos funcionários e de clientes."

Na época, as filhas de Regina tinham 7 e 17 anos, e Regina só foi liberada 42 minutos depois, quando ouviu no rádio dos seguranças a afirmação "não é essa negra". Ela processou a rede e até hoje espera uma resposta da Justiça.

De acordo com Regina, ver Beto ser assassinado gerou nela os sentimentos de "revolta" e "impotência". "Vi mais um negro assassinado e virando estatística. Agora a gente quer que Porto Alegre vire Palmares."

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