Prováveis falhas que causaram o acidente da Gol

As investigações do acidente entre o Boeing da Gol e o jato Legacy que ocasionou a morte de 154 pessoas no dia 29 de setembro no norte de Mato Grosso apontam para uma sucessão de falhas que teriam provocado a tragédia. Embora ainda não possam ser apontadas conclusões, é possível destacar procedimentos e condutas que teriam contribuído para o acidente: RelatórioNa tarde da próxima quinta-feira, 16, o comando da Aeronáutica apresentará um relatório preliminar do acidente com a descrição de dados concretos como horário em que as aeronaves decolaram, número de contatos feitos entre os pilotos e os centros de controle de tráfego aéreo e o exato momento do choque. Já o relatório final, que deverá apontar os fatores determinantes para a colisão ainda não tem data para ser divulgado - o documento deve levar mais de um ano para ser concluído.Treinamento A Aeronáutica ainda investiga se os pilotos americanos do Legacy, Joseph Lepore e Jan Paul Palladino, estavam bem familiarizados com o jato fabricado pela Embraer e se cumpriram o número de horas necessárias de treinamento para operar o equipamento. Transponder O funcionamento do transponder do Legacy - equipamento que emite sinais para os radares em terra e para outras aeronaves - é apontado nas investigações preliminares como um dos fatores determinantes para a colisão. As investigações concluíram que o transponder estava desligado antes do choque, mas ainda não foi esclarecido se o equipamento falhou ou se foi desligado pelos pilotos. Um dado já confirmado pela análise da caixa-preta do jato revela que o transponder voltou a funcionar dez segundos após a colisão. Com o aparelho inoperante, os controladores não tinham condições de determinar com exatidão a altitude em que o jato voava porque as informações detalhadas do vôo desapareceram da tela dos radares. Além disso, o funcionamento do sistema anticolisão também fica comprometido. Caixa-preta Dados já analisados e divulgados das caixas-pretas do gravador de dados do Boeing da Gol revelou que o piloto aplicou força ao manche nos instantes que antecederam à queda. Mesmo com sérias avarias na estrutura, os sistemas eletrônicos e mecânicos da aeronave não foram afetados pelo choque. Os peritos da Aeronáutica suspeitam que o winglet (aerofólio instalado na ponta da asa) do jato tenha cortado a extremidade da asa esquerda do avião da Gol. Com isso, estruturas metálicas ou mesmo peças arrancadas pelo choque a 1.800 km/h teriam danificado a fuselagem da aeronave, provocando a despressurização e, conseqüentemente, a queda da aeronave. Silêncio A análise do cilindro de voz do Boeing já revelou que aparentemente não houve pânico entre os pilotos na hora do choque. Durante alguns segundos, o rádio ficou em silêncio. Em seguida o que se ouviu foi um forte ruído. Os peritos ainda não descartam a possibilidade de esse barulho ter encoberto diálogos na cabine do Boeing. Para tentar esclarecer essa dúvida, os técnicos da Aeronáutica deverão utilizar filtros eletrônicos na tentativa de remover os ruídos. Só após esse procedimento será possível afirmar se houve ou não uma conversa após a colisão.Torre de Controle Outro fator que também pode ter contribuído para provocar a tragédia é um diálogo impreciso entre a torre de controle de São José dos Campos, local de onde partiu o jato, e os pilotos do Legacy. Essa avaliação é feita por peritos do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), que pretendem apontar nos próximos dias se o diálogo pode ter induzido os pilotos a erro. Ao autorizar a decolagem, o controlador usou o código "N600XL (prefixo do jato). Clear, 370, Manaus.", que indica vôo a 37 mil pés. Faltou dizer no fim da frase, "as filed" ou "according to flight plan", o que quer dizer que as informações do plano de vôo - que dizia que, ao chegar a Brasília, os pilotos deveriam ter baixado a altitude dos 37 mil para os 36 mil pés - deveriam ser seguidas. O piloto americano pode ter se confundido e entendido que poderia voar a 37 mil pés até Manaus. Plano de Vôo Com a possibilidade de ter ocorrido esse mal-entendido na decolagem em São José dos Campos, os pilotos não teriam verificado se a ordem do controlador condizia com as informações do plano de vôo que previa três altitudes: 37 mil pés até Brasília; 36 mil pés entre a capital federal e o ponto Teres (ponto virtual da carta aeronáutica) e, a partir daí, 38 mil pés até Brasília. Mesmo assim, ao se aproximarem de Brasília, Lepore e Paladino perceberam que se mantivessem os 37 mil pés entrariam na "contramão" da aerovia. Uma hora antes da colisão, eles tentaram fazer contato com o centro de controle de Brasília, o Cindacta 1, que perdeu a comunicação via rádio com os pilotos minutos antes do acidente. A falha do transponder fez com que os controladores do Cindacta não pudessem determinar com exatidão a altitude do jato. A confirmação de que a aeronave contrariou seu plano de vôo e se manteve a 37 mil pés da decolagem, em São José dos Campos, até o momento da colisão com o Boeing, foi feita a partir da leitura da caixa-preta do jato Legacy. Falha de comunicação em Brasília Como os controladores do Cindacta 1 em Brasília não tinham a definição exata da altitude do Legacy, pilotos e especialistas apontam que eles deveriam ter orientado o Boeing a alterar a rota para evitar o choque. Mas, os controladores se defendem afirmando que por não terem tido condições de determinar a altitude do jato, não poderiam se arriscar a orientarem a mudança de altitude do Boeing e com isso provocarem uma sucessão de acidentes no ar. Outra suspeita é de que tenham ocorrido falhas na comunicação porque os controladores tiveram dificuldade para compreender o inglês dos americanos. Mas, nada disso, de acordo com pilotos, é mais grave do que a falta do cumprimento por parte dos pilotos do Legacy do que previa o plano de vôo. Independentemente de qualquer falha de comunicação que tenha ocorrido durante o trajeto, Lepore e Paladino deveriam ter trocado de altitude na chegada a Brasília. Em depoimento, eles alegaram que não o fizeram porque não receberam ordem para tal. Especialistas já ouvidos pelo Estado, que não quiseram se identificar, disseram que o plano de vôo é soberano em caso de falha de comunicação e os pilotos não poderiam ter mantido a última altitude autorizada, em São José dos Campos, eternamente. A empresa americana ExcelAire, proprietária do jato, porém, defendeu os pilotos e acusou o controlador de vôo que autorizou a decolagem em São José dos Campos em um comunicado à imprensa em 7 de novembro. A empresa afirma que de "acordo com as normas internacionais de aviação, as diretrizes passadas pela torre de controle se sobrepõem ao plano de vôo escrito."

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