PSDB reage a uso de dados da Receita em dossiê

Revelação de que dossiê contra tucanos contém informações sigilosas faz partido acusar campanha de Dilma de práticas ilegais

Luciana Nunes Leal, Christiane Samarco e Julia Duailibi, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2010 | 00h00

A revelação de que um grupo ligado à campanha da candidata petista Dilma Rousseff (PT) teve acesso a dados fiscais sigilosos do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, levou lideranças tucanas reunidas ontem, em Salvador, a acusar os responsáveis pela campanha de Dilma de "práticas ilegais".

Reunidos na convenção nacional que formalizou a candidatura de José Serra à Presidência, os tucanos lembraram que se trata de dados que, por lei, são exclusivos da Receita Federal e do próprio declarante. O episódio, segundo os tucanos, associa a campanha petista a irregularidades como a quebra de sigilo fiscal e bancário.

"Em que país estamos, em que um cidadão tem a conta bancária devassada dessa forma? Isso não faz parte da regra do jogo. As instituições estão sendo esculhambadas", afirmou o deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP). "O PT reincide em uma prática criminosa, usando instrumentos do governo (para quebrar sigilo bancário)", reforçou o líder tucano João Almeida (BA). Ele acrescentou que Eduardo Jorge "foi brutalmente perseguido mas provou que não tinha nenhum envolvimento com prática ilícita".

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, dossiê montado por grupo vinculado a uma parte da campanha de Dilma contém informações sobre depósitos efetuados em contas bancárias de Eduardo Jorge e detalhes da sua declaração de Imposto de Renda. A revelação trouxe à memória de muitos participantes da convenção o caso do caseiro Francenildo Costa, cujo sigilo bancário foi quebrado em março de 2006 - um episódio em que estavam envolvidas pessoas ligadas ao PT e ao governo Lula e que custou o cargo ao então ministro da Fazenda, deputado Antonio Palocci (PT-SP).

No sábado retrasado, o Estado tinha informado que arapongas a serviço do comitê de Dilma tinham rastreado a movimentação financeira de vários membros da cúpula do PSDB.

Encontros. O escândalo do dossiê começou há duas semanas, quando reportagem da revista Veja revelou que o jornalista Luiz Lanzetta, contratado pela campanha de Dilma, tinha se reunido com arapongas ligados a serviços secretos oficiais. A missão, segundo alguns de seus participantes, seria reunir informações contra os adversários do PT. Dias depois, Lanzetta se desligou da campanha de Dilma.

Um tucano presente à convenção informou que o PSDB vai explorar "contra Dilma" a suposta ação de espionagem petista. "Queremos uma campanha limpa e popular, que expõe o candidato e não que esconde", afirmou o presidente do partido, Sérgio Guerra. "Nada nos aproximará da política dos dossiês, dos atos subalternos". "É ficha suja fazendo jogo sujo", resumiu Jutahy Magalhães (PSDB-BA).

Nesse clima, Aécio Neves animou a plateia ao dizer que "o Brasil não merece apenas um messias. A praça não é de um partido, é do povo." Criticando o loteamento de cargos públicos, disse que é hora de "dar um basta no aparelhamento dos que querem desdenhar da democracia tão duramente conquistada."

Mais tarde, em Brasília, a direção do PT procurou desvincular as denúncias da campanha de Dilma. Chamando-as de "ridículas", José Eduardo Dutra,presidente nacional do partido, perguntou: "Do ponto de vista eleitoral, por que alguém iria investigar Eduardo Jorge? Qual o efeito eleitoral disso?" O ministro Alexandre Padilha, das Relações Institucionais, adotou o mesmo tom: "Isso nada tem a ver com a campanha da Dilma e muito mejos com o PT. Perguntem então a quem fez", sugeriu.

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