Psicotécnico dificilmente detecta distúrbios

Especialistas dizem que exame no Detran não apresenta rigor necessário

Renato Machado, O Estadao de S.Paulo

28 de maio de 2008 | 00h00

Os últimos incidentes nas vias brasileiras revelam um novo grupo de fatores que pode colocar em risco quem as utiliza: os distúrbios psíquicos. Segundo especialistas ouvidos pelo Estado, isso acontece principalmente porque os exames para tirar carteira de habilitação não apresentam o rigor necessário para detectá-los.A família de Fabíola Cutolo Silveira informou à polícia que a motorista detida ontem sofre de transtorno de bipolaridade. Para o psiquiatra da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) Júlio Cesar Fontana-Rosa, esse quadro pode interferir no discernimento, embora não seja o comportamento comum nesses casos. "Somente uma manifestação mais grave de transtorno bipolar de humor pode interferir na realidade", diz . A psiquiatra da Unifesp Andrea Feijó de Mello diz que o distúrbio não atrapalha a vida cotidiana, inclusive em atividades como dirigir. A situação só pode ser prejudicial quando se vive a chamada "fase de mania", quando uma pessoa pode agir sem censura. Segundo ela, essa fase pode ser provocada por stress muito grande ou em conseqüência de uma parada brusca na medicação.Nos casos de transtorno bipolar de humor, as pessoas oscilam períodos de alegria excessiva com outros de tristeza profunda. Segundo o médico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e autor do livro Enigma Bipolar, Teng Chei Tung, os períodos de felicidade são marcados por sensação de poder, em que a pessoa faz o que quer, independentemente de ser certo ou errado. "Muitas vezes ela não consegue fazer esse julgamento."No momento de tirar a carteira de habilitação, o transtorno de bipolaridade de humor e outros problemas podem passar despercebidos, segundo os especialistas. Julio César Fontana-Rosa diz que os testes psicotécnicos são bons para apontar distúrbios psíquicos, quando bem aplicados. Mas os exames realizados pelo Detran, no geral, nem sempre conseguem detectar esses problemas, pois são feitos em um único dia e as pessoas podem apresentar um quadro estável na hora.Para Andrea Feijó de Mello, não há como descobrir os distúrbios somente com os métodos tradicionais. Ela diz ser necessária entrevista psiquiátrica para detectar também traços de personalidade e hábitos prejudiciais. "Os casos de brigas e crimes no trânsito podem não ser necessariamente distúrbios, mas conseqüência de uma personalidade mais agressiva, consumo de drogas, álcool."O diretor do Centro de Psicologia Aplicada ao Trânsito (Cepat), Salomão Rabinovich, defende que a renovação da habilitação seja feita com maior freqüência e com exames psicológicos. Rabinovich acha que o exame precisa ser mais profundo, com entrevista longa que revele o histórico mental. "Pelo que estamos vendo, se fizesse o exame aqui no meu consultório, não daria carteira de motorista para nem 10% das pessoas."

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