Psicoterapeuta diz ter mapeado a alma feminina

Luiz Cuschnir calcula que atendeu 20 mil mulheres em 35 anos e conseguiu descobrir o que elas querem

Humberto Maia Junior, O Estadao de S.Paulo

10 Agosto 2008 | 00h00

Comover as mulheres não é algo novo para Luiz Cuschnir, de 58 anos. Psicoterapeuta e coordenador dos grupos de gênero do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, ouviu, em 35 anos de carreira, milhares de histórias. Tantos casos que, hoje, ele diz que mapeou a alma feminina. Ouvir milhares de mulheres teria permitido a ele realizar um trabalho cartográfico. Cada relato, uma cidade. Um problema comum - conciliar maternidade com carreira -, um país. Assim, foi desvendando o mapa. Por isso, ele não se surpreendeu, na quarta-feira à noite, ao ver as mulheres presentes no primeiro dia do curso A Mulher e Seus Segredos: o Mapa da Alma Feminina se emocionarem com uma encenação criada por ele. A apresentação pretendia mostrar alguns dos papéis e dramas vividos pelas mulheres de hoje. Na sala com pouca luz e música relaxante, duas moças, uma loira e uma morena, se revezam na interpretação desses papéis: a trabalhadora, a vaidosa, a insegura, a sonhadora, a romântica, a invejosa, a competitiva. Cada um toca de forma diferente as espectadoras. Os olhos da jovem bem vestida brilham ao ver a representação da moça que se entusiasma com o casamento da amiga. Uma senhora elegante ri ao se ver representada como chefe do lar. No fundo da sala, controlando o volume do som, Cuschnir sorri. Fisgara as pessoas, no Universo do Conhecimento - instituto nos Jardins que reúne intelectuais para cursos e palestras. Embora com o mesmo objetivo, cada uma tinha sua motivação. "Tem coisas dentro de mim que não conheço", disse uma advogada. Uma loira, alta, aparentando uns 40 anos, dizia-se "anestesiada" e querendo encontrar seu "lado mulher". Outra quer se achar no "mapa": sente-se incomodada por oscilar entre o masculino e o feminino - entre a vaidade e a raiva. Freud, o pai da psicanálise, morreu sem saber o que as mulheres queriam: se independência financeira ou amor eterno; comer chocolate ou ficar em forma. Os homens sofrem para interpretar aquele ser humano complexo, cheio de contradições e com humor variável. Mapear a alma da mulher, porém, não significa definir o indefinível. "Alma tem dimensão subjetiva", diz. "A idéia de mapeá-la é para que a mulher possa localizar a sua essência." Questionado sobre o que querem, ele responde aos poucos. "Elas querem conseguir conciliar", diz. "A emoção com a execução; a inteligência com a sensibilidade; a cobrança interna com a externa; a cobrança pessoal com a da sociedade em relação à sua beleza." Esse entendimento veio do trabalho. O número de mulheres atendidas, cerca de 20 mil, é uma estimativa feita a partir da média de consultas por mês. A inspiração veio das mulheres da família: a bisavó, a avó, a irmã e a mãe - que Cuschnir reuniu numa só, num quadro. Pendurada no seu consultório, no Paraíso, a figura feminina olha para baixo, com postura ereta. O batom vermelho, o vestido verde decotado, a ausência de brincos, pulseiras ou colares denotam uma vaidade discreta. Cada detalhe da imagem, com traços semelhantes aos retratos feitos por Amedeo Modigliani, revela uma faceta da "alma feminina", que Cuschnir viu nas mulheres de sua família. A inclinação e o olhar para baixo representam o respeito, a aceitação, a humildade. Traços comuns nas mulheres do século 19, como sua bisavó. Judia austríaca, mudou-se com o marido para Londres, onde criou a família. Depois, veio para o Brasil. A postura é característica das mulheres inglesas do começo do século 20. Entre elas, a mãe de Cuschnir, descrita por ele como uma "lady". A vaidade, traço universal, ele pegou da irmã. Linda, ela sofria, na juventude, com as barreiras e preconceitos que a beleza impunha. As flores representam a sensibilidade feminina: a delicadeza, a intuição e a capacidade de lidar com o emocional. Cuschnir diz que sempre soube ouvir as mulheres. "Sempre tive muitas amigas, dava ouvido e conforto a elas." O interesse pela psicanálise surgiu aos 16 anos, ao assistir ao filme Freud - Além da Alma, de John Huston. "A questão do inconsciente me fascinou." A partir daí, sabia que seria psicanalista. Após estudar o sexo oposto - é criador do termo "masculismo", que tenta explicar o homem -, resolveu mirar a mulher. "Quis saber o que ela sente, não o que ela faz." O LOCAL FAZ A PESSOA A experiência de Cuschnir lhe permitiu traçar um curioso perfil da paulistana. Elas se diferenciam por bairros. Quem mora na Vila Madalena, por exemplo, é mais livre para freqüentar bares ou outras atividades sociais. As do Morumbi têm uma relação diferente com o carro. "Elas não se importam com grandes distâncias." As mulheres de Higienópolis são mais conversadoras e não têm o costume de se afastar muito do bairro. As da zona norte e da zona leste gostam "de ir atrás de coisas que os outros bairros proporcionam". E atenção, homens: segundo Cuschnir, as mulheres nos julgam pelos locais que freqüentamos. Os shoppings, por exemplo. Os que freqüentam o Shopping Iguatemi "têm fama de serem arrogantes e narcisistas". Já os freqüentadores do Shopping Paulista são vistos, de acordo com o relato das pacientes dele, como feios.

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