AO VIVO

Acompanhe notícias do coronavírus em tempo real

Imagem Daniel Martins de Barros
Colunista
Daniel Martins de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Psiquiatria móvel

Esse mundo como o conhecemos começou com o lançamento da Apple App Store e da Google Play, em 2008. Dois anos depois, em 2010, a American Dialetic Society já elegeu “app” a palavra do ano

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2019 | 05h00

Nem sempre é fácil reconhecer uma revolução de perto. A maior parte das grandes promessas de transformar o mundo malogram sem deixar mais do que lembranças. Sabiamente o comitê do Prêmio Nobel espera um bom tempo para laurear uma pesquisa – de vinte a trinta anos, em média. É arriscado apontar uma revolução sem a cumplicidade do tempo ao nosso lado.

Na Medicina não é diferente. Como em praticamente qualquer área do conhecimento, sua história é marcada por avanços que foram negligenciados e erros que foram exaltados. Com o agravante de impor sofrimento a cada um desses tropeços, tornando uma narrativa tragicômica quando contada à distância. Particularmente no caso da Psiquiatria, especialidade inserida na área médica tardiamente e com características peculiares, como a grande subjetividade inerente a ela e as implicações sociais de suas práticas, contar sua história é elencar tanto avanços humanitários quanto equívocos cruéis ímpares.

Como então apontar qual foi a grande descoberta ou o maior avanço da década em área tão conturbada? Ainda que seja temerário, acho possível um palpite. Dizem que os peixes são os últimos a notar a água. De fato, não é fácil reconhecer algo que nos cerca por todos os lados, parecendo fazer parte da paisagem. Mas se conseguirmos nos distanciar um pouco e olhar para os últimos dez anos deve chamar atenção uma mudança que foi tão grande no cenário tecnológico como no dia a dia das pessoas. A revolução dos aplicativos.

Esse mundo como o conhecemos começou com o lançamento da Apple App Store e da Google Play, em 2008. Dois anos depois, em 2010, a American Dialetic Society já elegeu “app” a palavra do ano. Dez anos depois aqui estamos, com quase dez bilhões de celulares pelo mundo e centenas de bilhões de aplicativos instalados por ano.

Com o passar do tempo os telefones, agora chamados smartphones, passaram a agregar tanta tecnologia que tornaram possível reunir dados individuais em tempo real, de maneira até então impossível. O que, para uma especialidade que depende de dados sobre os sentimentos e comportamentos dos indivíduos, é uma mina de ouro. 

Para diagnosticar um transtorno mental os profissionais da saúde dependem de informações não apenas subjetivas, mas também retrospectivas. “E aí, como passou o mês?”, perguntamos. “O remédio fez diferença?”. “A última semana foi melhor ou pior do que a penúltima?”, “Quanto tempo tem dormido por noite?”. A regra é as pessoas se confundirem ao tentar responder essas questões.

Cada vez mais têm surgido aplicativos dedicados a reunir dados sobre o padrão de atividade de pacientes, desde a distância e velocidade no deslocamento até o número de postagens em redes sociais, bem como conteúdo das mensagens e tom de voz, de modo que as respostas às perguntas que fazemos venham prontas e precisas. 

Embora o grande impulso para o desenvolvimento seja comercial existem muitas iniciativas sendo testadas cientificamente, com resultados interessantes. Em 2016 a revista Nature publicou os resultados de um experimento no qual os cientistas criaram um aplicativo capaz de diagnosticar o estado de humor de pacientes com transtorno bipolar integrando características de voz (velocidade e entonação), dados comportamentais (numero de telefonemas ou mensagens por dia) e questões de auto-avaliação (feitas no próprio telefone). Esse ano outro grupo foi capaz de prever com grande margem de acerto recaídas em pacientes psicóticos a partir da análise de postagens em redes sociais.

Exagerando – apenas um pouco – a ubiquidade dos aparelhos celulares e a versatilidade dos aplicativos em breve será para os médicos tão útil como se cada um andasse por aí com um aparelho de ressonância magnética ligado e um psicólogo a tiracolo fazendo anotações.

Se lembrarmos que na outra ponta já existem tentativas bem-sucedidas de intervenção para pacientes, de terapias cognitivas com inteligência artificial a apps que ajudam da adesão aos medicamentos a desenvolvimento de atitudes mais saudáveis, fica claro que estamos diante de um avanço sem precedentes na psiquiatria. O quão revolucionário terá sido, só o tempo dirá.

*É PSIQUIATRA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.