PT quer mais com Dilma

A eleição de Rui Falcão para a presidência do PT remete ao que previra seu principal cabo eleitoral, José Dirceu: de que o governo Dilma Rousseff seria o verdadeiro governo do partido.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2011 | 00h00

A frase, proferida ano passado a uma plateia de sindicalistas, embutia, a um só tempo, duas avaliações: que Lula governava com indesejável independência do partido e que este voltaria a exercer seus interesses de forma plena depois de sua saída do poder.

É o que se materializa agora, com a velocíssima manobra que tirou de cena o candidato de Lula e da presidente Dilma, o senador Humberto Costa (PE), ungido por ambos depois de um esforço vão pela permanência no cargo de José Eduardo Dutra (SE). O próprio Lula foi ao Palácio da Alvorada ponderar a Dilma que era melhor não enfrentar a maioria produzida pela ação do ex-chefe da Casa Civil.

O desfecho agrava o malabarismo que a presidente já vem fazendo desde a posse para mediar os dois principais partidos de sua base - o próprio PT e o PMDB -, engalfinhados numa disputa por cargos de segundo e terceiro escalões.

O PT tenta "enquadrar" Dilma e consolidar sua hegemonia na aliança, o que a torna mais dependente de Lula e dos partidos satélites da base governista, além do próprio PMDB.

E estimula os adesistas vocacionais em direção ao PSD, que espertamente se coloca aberto a todos, já que " não é de centro, nem de esquerda e nem de direita". Uma espécie de PMDB alternativo.

Espera fatal

A convicção do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff de que a renúncia de Dutra era reversível favoreceu a manobra de José Dirceu para eleger Rui Falcão. O tempo de espera agravou a sensação de paralisia no âmbito do partido e contribuiu ainda para sepultar a tese de um mandato-tampão para o novo dirigente do PT. A determinação de aumentar a pressão sobre o governo na disputa com o PMDB e de influir mais nas decisões políticas fez o resto. Não é difícil detectar em setores do partido grande insatisfação com as mudanças de rumo promovidas por Dilma em relação ao seu antecessor - do fim da hostilidade à imprensa à reorientação na política externa.

Pisando em ovos

A presidente Dilma Rousseff chega ao Dia do Trabalhador em meio a uma queda de braço entre as duas principais centrais sindicais - a CUT e a Força Sindical, outra disputa a lhe impor jogo de cintura. É esperada hoje nos eventos de ambas em São Paulo: às 11 horas, pela Força Sindical, na Avenida Marquês de São Vicente; e, às16 horas, pela CUT, no Vale do Anhangabaú.

Queda de braço

A Central Única dos Trabalhadores pressiona o governo que, desde 2007, adia o envio ao Congresso de projeto extinguindo a contribuição obrigatória em vigor por uma voluntária. O deputado Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho (SP), acusa a Força Sindical de romper acordos com o governo, como na votação do mínimo, e de obstruir o fim do imposto sindical. Depois de dizer que não tem medo de vaia, provocou: "Com o imposto obrigatório fica muito fácil". O presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, condiciona a medida ao fim também do imposto patronal que abastece o chamado Sistema "S" (Sesi, Senac e Senai).

Overdose

Seiscentos novos sindicatos são criados por ano, uma média de 2,3 por dia, sem que se saiba para onde vai o dia do salário recolhido aos trabalhadores - sindicalizados ou não.

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