PT trava disputa com principal aliado pela presidência da Câmara

Partido de Lula discute estratégia, caso não haja acordo com aliados; ambos querem comandar Casa nos próximos 2 anos

Denise Madueño / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2010 | 00h00

Setores do PT já trabalham com uma estratégia alternativa para garantir a presidência da Câmara nos próximos dois anos, caso não haja acordo com o PMDB. Os partidos travam uma disputa para comandar a Casa no primeiro biênio, considerado o mais importante, quando a presidente eleita, Dilma Rousseff, que tomará posse no dia 1.º de janeiro, encaminhará ao Congresso os projetos prioritários para o novo governo e o Legislativo iniciará as discussões das reformas constitucionais.

O plano B petista prevê o isolamento do PMDB e a aproximação com o PSB, o PDT e o PC do B, o chamado bloquinho, partidos da base que somam quase o mesmo número de deputados eleitos pelo PMDB. O PT elegeu 88 deputados, seguido pelo PMDB, 79 e, como maiores partidos, reivindicam a indicação do presidente da Casa. O bloquinho soma 77 deputados.

No caso da insistência do PMDB em não aceitar um petista no primeiro biênio, o caminho petista prevê uma troca de apoios com os outros partidos, escanteando os peemedebistas. O PT indicaria o presidente nos primeiros dois anos e o bloquinho indicaria um nome para o segundo biênio. A tática serve para pressionar o PMDB a um acordo, mostra a animosidade existente entre os principais partidos que se alinharam para eleger Dilma Rousseff e revela a disposição do PT em não abrir mão de comandar a Câmara nos primeiros anos do mandato da petista.

A despeito de ter o vice-presidente de Dilma, o PMDB saiu machucado das urnas com uma bancada menor na Câmara do que a atual. Em 2006, foram eleitos 89 peemedebistas. Hoje, são 90 deputados e, em 2011, serão 79. Embora um partido médio no Parlamento, o PSB, em contrapartida, cresceu nestas eleições. Passou dos 27 deputados atuais para 34, elegeu governadores em seis Estados, mais do que o PT e o PMDB - cada um com 5 eleitos -, e tem pretensões de ocupar espaço maior na Casa e no governo.

Rodízio. O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), defendeu ontem um rodízio entre PT e PMDB que garantiria um petista na presidência da Câmara. Por essa proposta, o PT comandaria a Câmara e o PMDB, o Senado. Em 2013, seria feita a inversão. Na disputa aberta pelo cargo, Vaccarezza quer que o PT decida até o fim do mês o nome do deputado que deverá ser indicado para o cargo.

"Eu quero ser elemento de composição, de acordo e de ajuda para a solução. Não sou nem serei candidato para dividir o PT. Temos até o fim de novembro para definir isso. Sei que ainda não sou consenso nem no PT", disse. Vice de Dilma, o presidente do PMDB e da Câmara, Michel Temer (SP), argumenta que, no passado, o partido cedeu o primeiro biênio para o PT, elegendo Arlindo Chinaglia (PT-SP), mesmo com o maior número de deputados. O líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), já conta em assumir o cargo de Temer no próximo ano.

Embora, no momento, apareça como o nome mais forte no PT, Vaccarezza não está em campanha sozinho. Chinaglia se movimenta nos bastidores para voltar ao comando da Casa que presidiu no biênio 2007-2008. O deputado Marco Maia (PT-RS) avisou que está na disputa. Com a experiência de seis mandatos, iniciada quando o PT era um pequeno partido de oposição, José Genoino (PT-SP) pede cautela. Ele alertou sobre os riscos de impor tensão na relação com o PMDB, a segunda maior bancada na Câmara e a primeira do Senado.

"A coalizão que elegeu Dilma tem de sentar à mesa e discutir de forma madura o comando das duas Casas. O PT não pode ter pressa nem ir com muita sede ao pote", disse. "A gente não sabe o dia de amanhã e temos uma agenda de desafios pela frente."

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