'Puxarei o samba e vencerei o câncer', diz Neguinho

Enquanto passa por quimioterapia para tratar um tumor, o sambista da Beija-Flor ensaia em casa

02 Fevereiro 2009 | 11h51

Luiz Antônio Feliciano Marcondes já não assina mais esse nome desde o último dia 21. Depois de adotar oficialmente o apelido que o fez famoso, Neguinho da Beija-Flor, promete outras surpresas para o carnaval deste ano. Ele planeja se casar em plena Marquês de Sapucaí, pouco antes de sua escola, a Beija-Flor de Nilópolis, iniciar o desfile. Com a voz cansada por conta de um tratamento quimioterápico, o músico conversou com a reportagem do JT por telefone, de sua casa em Copacabana, onde vive há 22 anos. Enquanto falava, outros aparelhos da casa tocavam frequentemente: eram amigos que ligavam para desejar melhoras e dizer que estão rezando pela recuperação do sambista, que descobriu um câncer no intestino no ano passado.    Veja também:  Cobertura completa  Blog: dicas de carnaval  Especial: mapa das escolas     Trocaria o Rio de Janeiro por São Paulo, como o Ronaldinho fez com o Corinthians? Não, até porque o carinho e o reconhecimento que eu tenho pelo que a Beija-Flor fez por mim é muito grande. Eu até poderia trocar se não fosse a Beija-Flor. A minha escola representa tudo para mim. Se hoje a gente leva uma vida de quatro refeições, com café, almoço, lanche e jantar, como diz o Presidente Lula, eu só tenho a agradecer a Beija-Flor. Ela me proporcionou a oportunidade de gravar 32 álbuns e me deu uma carreira internacional. Não há dinheiro que pague. Se fosse por outro motivo, eu até trocaria. Sou muito bem-recebido pelo povo paulista quando vou nas escolas de samba, mas a gratidão que tenho pela Beija-Flor não deixa.   O que acha das escolas de samba de São Paulo? Estive aí recentemente e cantei um samba junto com a Vai-Vai. Vamos organizar ainda uma feijoada no dia 17, mas a vitrine mesmo é o Rio de Janeiro. O samba daqui é mais antigo e entramos na mídia mais cedo. Em todo o caso, o carnaval de São Paulo também é muito bonito e divulgado.   Você faz parte da turma carioca que acha o carnaval de São Paulo pior do que o do Rio? Não, o que é isso! Eu acho que o pessoal do Rio não acha isso, não. O carnaval daqui, como disse, é mais divulgado, tem mais vitrine, inclusive na Europa. A transmissão do carnaval de São Paulo pela TV dá uma dimensão legal e eu torço sempre por uma festa bonita, sem briga ou confusão. Seja qual for o resultado, temos de aceitar, porque só pode ganhar uma escola. Quero que o mercado de carnaval em São Paulo cresça muito.   As atrizes famosas que não se identificam com o samba das comunidades foram capazes de banalizar o carnaval? O carnaval cresceu muito com a adesão da galera famosa. O carnaval do Rio só tomou essa dimensão com a vinda das musas, das atrizes de novela, dos astros do futebol. Nada tenho contra. Se não fosse por eles, não seríamos tão conhecidos. Na década de 50, quando o carnaval não era divulgado, a gente convidava os artistas de Hollywood e pagava para que assistissem à festa e a divulgassem. Hoje, a gente não precisa disso. Nossos artistas conhecidos fazem questão de participar.   E a história do "Não deixa o samba morrer, não deixa o samba acabar"... O samba agoniza mas não morre. Escuto desde criança diversos segmentos musicais que surgiram e morreram, mas o samba continua aí. O samba é samba desde que eu me entendo por gente. Nunca, jamais o samba vai morrer. Ainda mais com a explosão do carnaval. Enquanto existir carnaval, vai existir samba. A essência nacional, a brasilidade que tem no samba, não deixa ele morrer. É contagiante.   Quando você percebeu que iria viver só de samba? Foi em 1976, quando fui campeão pela primeira vez com a Beija-Flor, com o samba Sonhar com rei dá leão, de minha autoria. Pensei: "Dá para viver disso." Viver de samba sempre foi meu objetivo. Está confirmado mesmo que você vai puxar o samba da Beija-Flor no carnaval deste ano? Vou para a Avenida e vou cantar. Não parei o tratamento de quimioterapia do câncer que tenho no intestino. Vou fazer as duas coisas. Vou puxar o samba e vencer o câncer, mas a quimioterapia maltrata muito a gente   Por que resolveu abrir para o público que está doente? O povo acompanha tudo o que acontece de bom. O que acontece de ruim, eles têm de saber também. No meu caso foi super benéfico, porque recebi milhares de manifestações das pessoas que estão rezando pela minha recuperação. Já recebi ligações da Itália, Alemanha e França. As pessoas passam na rua e me dizem que estão rezando por mim. Se eu não tivesse falado, eu teria guardado só para mim e minha família e ficaria aquele sofrimento. Formou-se uma corrente muito forte, graças a Deus. E vamos alcançar a cura.   Está frequentando a quadra da Beija-Flor, em Nilópolis? Estou sempre em Nilópolis, mas neste ano eu tenho ido pouco aos ensaios. Só fui duas vezes. A quimioterapia abaixa a nossa imunidade, por isso não vou muito. Estou me preservando para o desfile. Eu estou firme e ensaiando em casa.   Está com medo da doença? Claro! É uma doença terrível. Temos de reconhecer que é terrível, terrível... Quando você recebe a notícia do médico de que é câncer, você fica muito abalado.   Tem medo de morrer? Tenho, todo mundo tem.   O Presidente Lula ligou? Ele me liga às vezes. Ele disse que está rezando pela minha recuperação e me desejou saúde. Ele queria saber como eu estou me sentindo, é meu amigo. Beth Carvalho, Alcione, Emílio Santiago, Roberto Carlos, Agnaldo Timóteo e o Zeca Pagodinho, além da galera do samba, e do Zico, e também Cláudio Adão, Junior e Vanderlei Luxemburgo me ligaram. São pessoas que acompanham o nosso trabalho.   E os fãs? O carinho é muito maior. Foi através do câncer que eu descobri que eu tenho tantas pessoas que gostam de mim   E você pretende mesmo se casar na Avenida? É verdade, vou sim. Vai ser em um carro de som, um pouco antes da Beija-Flor entrar na Avenida. Nós vamos realizar o nosso matrimônio com juiz de paz, padre, e tudo o mais. Os convidados vão assistir da plateia, no meio do carnaval deste ano.   Qual vai ser a trilha sonora? O samba da Beija-Flor, é claro. A Avenida me proporcionou tudo o que eu tenho. Tudo de bom que aconteceu na minha vida foi dentro da Marquês de Sapucaí. O casamento vai ser mais uma coisa boa da minha vida a ser lembrada na Marquês.   Conseguiu mudar oficialmente seu nome? Mudei sim. Agora me chamo Luiz Antônio Feliciano Neguinho da Beija-Flor Marcondes. Na minha carteira de identidade, cheque, CPF, só assino Neguinho da Beija-Flor. Oficializei no dia 21, com conta bancária e tudo o mais. É meu nome mais conhecido. Com o Luis Antônio eu só ‘gastava’. É como Lula, Xuxa, Pelé.   Emocionou-se com a posse de Barack Obama? Confesso que chorei com a vitória do Obama. Nunca imaginei ter, um dia, um presidente negro nos Estados Unidos. É um país que domina o mundo, foi muito bom, muito bom.   E qual negro você escolheria para ser presidente do Brasil? A Benedita da Silva. Foi senadora, seria excelente presidente.

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