Quadrilhas dão golpe do emprego no centro de SP

Polícia prende 18 em flagrante por lesar pelo menos 200 pessoas

Fábio Mazzitelli, O Estadao de S.Paulo

03 de abril de 2009 | 00h00

Emprego rápido, sem pré-requisitos e com bom salário. As vantagens "de sonho" de qualquer desempregado faziam parte de um golpe que lesou pelo menos 200 pessoas na região central de São Paulo. Entre a noite de anteontem e a tarde de ontem, 18 estelionatários foram presos em flagrante, acusados de integrar empresas de fachada que iludiam candidatos a ponto de os desempregados tirarem dinheiro do bolso para ganhar a vaga.De acordo com relatos recolhidos ontem no 3º DP (Campos Elísios), cada vítima pagou, pelo menos, R$ 695 à Meta Negócios Ltda como parte da venda de um suposto cartão de benefícios, que daria descontos em exames laboratoriais e consultas. Para conseguir uma vaga de "supervisor de vendas", os candidatos teriam de garantir uma venda de forma antecipada e entregar o dinheiro à empresa. Na luta pela vaga, a maioria dos interessados tomou dinheiro emprestado para cumprir o objetivo. Depois de algumas semanas de arrecadação, o contratante fechava e sumia. "Esses anúncios com salários razoáveis para cargos que não exigem tanto são indícios de que há alguma coisa errada", afirmou a delegada Elizabeth Galvão.Além da Meta, outra empresa, identificada como Alfa, aplicava golpe semelhante. Segundo a polícia, que já investigava os bandidos, os flagrantes só foram possíveis porque as denúncias ocorreram rapidamente, enquanto os estelionatários ainda operavam nos mesmos endereços. Dos 18 presos, 12 trabalhavam na Meta, incluindo os donos do negócio, e 6 na Alfa. Todos foram indiciados por estelionato e formação de quadrilha, cujas penas variam de 1 a 8 anos de prisão, somados os dois crimes.Agentes do 3º DP investigam desde 2006 a empresa Hinfinit, nome do cartão de benefícios vendido pelos funcionários presos da Meta. Dois inquéritos anteriores abertos - um deles após denúncia contra a Hinfinit - indicam que pode haver outros grupos de golpistas atuando da mesma forma e até se revezando na hora de cometer o crime. A polícia diz que o número de falsários pode crescer e sugere alguns cuidados para não cair no golpe, como desconfiar de empregos que ofereçam muitas vantagens (veja acima). TEATRODepois que os candidatos ao emprego entregavam a carteira de trabalho e cumpriam a primeira meta - vender uma unidade do cartão de benefícios a R$ 695 ou R$ 810, valores fixados pela empresa Meta -, começava um "teatro" na forma de treinamento para o início do trabalho: todos passavam dias recebendo instruções sobre o aumento dos ganhos com comissões. "Falaram que a gente poderia ganhar mais de R$ 4 mil, mas devolveram a minha carteira de trabalho em branco e pediram para eu voltar com ela outro dia, depois que acabasse o treinamento de 30 dias", conta a assistente administrativa Edicélia Rodrigues Pereira, de 21 anos. "Desconfiei, pedi para um advogado ver se a empresa existia e ele disse que pelo CNPJ (cadastro de pessoa jurídica) estava tudo certo com o registro dela", diz.O golpe do emprego, como foi batizado pela polícia, era aplicado em salas de escritórios alugadas nas ruas do entorno da Estação Anhangabaú do Metrô. Os candidatos eram seduzidos por ofertas de vagas em um jornal de empregos que circula na região central para "auxiliares de escritório" com salários iniciais que variavam entre R$ 650 e R$ 1.900.A maioria das vítimas tem até 25 anos, ensino médio completo ou o curso superior em andamento. Durante o treinamento de fachada, os instrutores orientavam os interessados nas vagas a não conversarem entre si e, na hora de ir embora, muitos relatam que eram acompanhados até o lado de fora do prédio."Uma pessoa foi comigo até a estação de metrô. Disse a ela que minha mãe achava que era golpe e disse: ?Aconteceu a mesma coisa com a minha mãe, mas não acreditei e hoje estou trabalhando?. A gente precisa de trabalho e se ilude", diz Leonardo Silva, de 23 anos, que pegou R$ 695 emprestados com um amigo. "Além de desempregado, estou endividado." COMO EVITAR GOLPES Use o bom senso: Para evitar cair no golpe de estelionatários, desconfie de todas os anúncios que fogem do bom senso; saiba diferenciar uma oportunidade de trabalho séria de uma propaganda ilusória nos classificados dos jornais; desconfie quando houver facilidade demais em um determinada chance de emprego Lógica e altos salários: Desconfie de tudo que fuja de uma lógica. Por exemplo, se você precisa de dinheiro, não faz sentido adiantar valores ou ainda pagar taxas. Os golpistas costumam oferecer altos salários para chamar a atenção, mas as exigências para os cargos não são compatíveis com os ganhos oferecidos

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