Quando o passado não absolve as digitais do presente

Análise

Rui Nogueira, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2010 | 00h00

No bastidor das conversas sobre o escândalo das violações do sigilo fiscal dos tucanos, dirigentes do PT e assessores do presidente Lula costumam soprar uma versão dos fatos que ninguém tem coragem de debater em público. Uma versão surrada, de natureza semelhante à que foi fartamente usada para "explicar", por exemplo, os escândalos do mensalão (2005) e dos aloprados (2006).

Em síntese, se alguém ou algum partido que antecedeu o PT no poder fez algo semelhante de errado, então o erro "é velho" e está no DNA do processo político. Em vez de responder pelo erro do presente, os dirigentes do PT buscam a desculpa e a absolvição nos erros do passado.

O que o PT e o Planalto dizem agora, à boca pequena, é que a coleta dos dados sigilosos dos tucanos teria começado com uma equipe de jornalistas, em Belo Horizonte, uma espécie de tropa de choque mobilizada para bisbilhotar a vida e as decisões públicas do pré-candidato José Serra. Estocado na forma de dossiê, o material seria usado para facilitar o caminho do mineiro Aécio Neves na disputa com Serra pela indicação do nome tucano a concorrer ao Planalto.

Assim sendo, com algum regozijo e ironia, os líderes petistas concluem: "Não temos nada a ver com o dossiê e os dados sigilosos dos tucanos porque o assunto começou lá entre eles, é velho, anterior à existência da candidatura Dilma."

Em primeiro lugar, não consta que Aécio tenha contratado um grupo de jornalistas para fazer esse serviço sujo. Então, se a tropa da imprensa existe, é preciso explicar direito a sua origem, em vez de jogá-la no colo de Aécio.

Segundo: o dossiê com informações dos tucanos existe e os dados foram coletados por meio de violações do sigilo fiscal.

Terceiro: em maio deste ano o dossiê estava nas mãos de pessoas contratadas para assessorar a campanha de Dilma, a "equipe de inteligência".

Quarto: em junho deste ano as declarações de IR de 2008 e 2009 do tucano Eduardo Jorge estavam no dossiê.

Quinto: nem tudo é "coisa velha" no dossiê e anterior à certeza de que Dilma seria a candidata. Dados da movimentação bancária de EJ estavam no dossiê. E são de janeiro e março... deste ano. Em fevereiro, no encontro nacional do PT, em Brasília, Dilma foi aclamada como candidata.

Sexto: por que a "equipe de inteligência" de Dilma se interessou por algo que, supostamente, não era seu, mas está cheio de digitais petistas?

Sétimo: se a origem do dossiê absolve o PT e Dilma, por que o Planalto é parte integrante da operação abafa em curso?

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