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Quando roubar não é crime (se você for branco)

Quando era mais novo, teve uma época que a brincadeira da minha turma era ir a um shopping perto do nosso colégio para roubar chicletes e balas de uma grande loja de departamentos.

André Fran, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2020 | 05h00

Quando era mais novo, teve uma época que a brincadeira da minha turma era ir a um shopping perto do nosso colégio para roubar chicletes e balas de uma grande loja de departamentos. Um bando de garotos branquinhos com uniforme de escola particular em atitude suspeita pelas ruas de um bairro nobre do Rio. Volta e meia éramos pegos em flagrante delito pelos seguranças do local. Faziam cara feia, ameaçavam ligar para nossos responsáveis, mas acabávamos sempre escapando em desabalada carreira para planejar às risadas nossa próxima aventura.

Lembrei dessa história cerca de um ano atrás, quando um adolescente negro de 17 anos foi detido, amordaçado e chicoteado com fios elétricos por supostamente ter furtado uma barra de chocolate em um supermercado de São Paulo. Na época, compartilhei minha experiência de “adolescente rebelde” nas redes sociais. Fiquei impressionado com a avalanche de relatos semelhantes de outros tantos “ex-jovens” brancos como eu. Ao que tudo indica, pouco mudou dos meus tempos de juventude para o Brasil atual. Essa fase da vida em que passeamos entre o perigo e o ridículo para aprender sobre limites é ainda hoje um exemplo de privilégio branco. Minha experiência pessoal mostrava que, para além da violência em si, é especialmente significativo o fato de um jovem negro em um shopping ser tratado como culpado mesmo quando inocente, enquanto o jovem branco é considerado inocente mesmo quando culpado. O racismo estrutural em uma de suas faces mais cruéis.

No meu caso, o episódio virou apenas uma memória (ridícula) da juventude. Não deixou em mim cicatrizes físicas ou psicológicas. E nem me levou ao óbito. Diferente do que aconteceu semana passada com mais um cidadão negro, dessa vez João Alberto Silveira, o Beto, da minha idade, que foi espancado até a morte por dois seguranças brancos em uma unidade do Carrefour em Porto Alegre. Impossível para alguém que fez uma carreira analisando questões locais em um panorama global não relacionar esse trágico ocorrido com o assassinato de outro homem negro pelas mãos das autoridades. No caso, George Floyd: morto covardemente por policiais brancos em Minnesota, nos Estados Unidos. As semelhanças entre os dois episódios não podem ser ignoradas.

Ambos Floyd e Beto morreram asfixiados pela pressão dos joelhos de policiais brancos (em exercício da função ou em “bicos” ilegais de segurança privada) sobre seus pescoços negros. Os dois foram agredidos sem que ninguém fizesse nada. Nos dois casos, as vítimas tiveram seus antecedentes julgados por parte da opinião pública em uma tentativa racista de justificar o injustificável. E, em Porto Alegre e Minneapolis, as investigações iniciais trataram de amenizar o ato criminoso dos homens da lei (a delegada responsável pelo caso no Brasil disse não ter visto indícios de racismo e, nos EUA, em um primeiro momento o assassinato teve uma classificação mais branda do que a pela qual o assassino irá responder). Lá como cá a revolta foi tratada como “vandalismo” por aqueles que choraram mais as vidraças quebradas do que os corpos estendidos no chão. “Vidraças são o portal que separam, de um lado, o espaço público, dos cidadãos, e, de outro, o privado, dos consumidores. Negros são estranhos aos dois mundos”, como bem disse o advogado e professor Thiago Amparo.

Mas as semelhanças param por aí. Nos EUA, os protestos viraram comoção sob a bandeira do “Black Lives Matter”. Personalidades negras na política, entretenimento e esporte se posicionaram de forma veemente e foram às ruas. Grandes marcas se sentiram pressionadas a se manifestar. No Brasil, alguns pequenos protestos em frente a filiais do Carrefour de algumas capitais. Pouquíssima participação popular. Os brancos não fizeram uso de seu privilégio para engrossar o coro antirracista. 

Mas é preciso fazer uma ressalva para lembrar as raízes históricas, culturais e sociais que explicam, em parte, essa diferença. Enquanto os EUA viviam seus mais poderosos capítulos na luta pelos direitos civis dos negros americanos, o Brasil se encontrava em plena ditadura. Foi preciso uma Guerra para acabar com a escravidão nos EUA e a lei que bania de vez todas as formas de segregação racial foi promulgada em 1964. O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão e não implementou de forma efetiva indenizações compensatórias ou políticas públicas para integrar a população negra a sua sociedade. Como vimos, de George Floyd a João Alberto: muitas diferenças, o mesmo trágico resultado. 

É DIRETOR, APRESENTADOR DE TV, JORNALISTA E TEM MAIS DE 60 PAÍSES CARIMBADOS NO PASSAPORTE

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