07.03.2016
No Dia Internacional da Mulher, transexuais e travestis falam sobre conquistas e o duplo preconceito que sofrem no dia a dia 07.03.2016

Quando se tornar mulher é um desafio

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, transexuais e travestis falam sobre suas conquistas e o duplo preconceito que sofrem

Isabela Palhares e Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

06 de março de 2016 | 03h00

Elas são mulheres, não foram feitas para apanhar e não são boas de cuspir. Neste Dia Internacional da Mulher, comemorado na terça-feira, mulheres transexuais e travestis querem o reconhecimento de que não são as malditas Genis que canta Chico Buarque. Cinco trans e travestis ouvidas pelo Estado falaram sobre o duplo preconceito que sofrem na rua, a perfeição da figura da mulher e as conquistas de importantes papéis sociais.

Para o Conselho Federal de Psicologia, o transtorno de personalidade de gênero não é uma doença, mas uma orientação sexual, como outra qualquer, segundo explica Nelson Pedro Silva, professor de psicologia da Unesp. “É uma questão de ordem cultural e vários estudos têm apontado que há pessoas com uma subjetividade feminina em um corpo masculino e vice-versa”, diz Silva.

“Somos mulheres. Eu não estou com uma cueca debaixo do vestido. Estou com uma calcinha. Eu sou uma mulher. Um homem não passa um batom vermelho. Como me veem como um homem? Me veja como uma mulher. Travesti, mas uma mulher”, afirma Aline Marques, de 38 anos, articuladora da unidade móvel de Cidadania LGBT no Largo do Arouche, que presta apoio a vítimas de homofobia e faz exames de saúde.

Após muitas cirurgias plásticas e 21 anos de prostituição “para conseguir sobreviver” e mudar a própria história, Aline mora hoje na zona leste com o companheiro e a mãe. Ela conta, emocionada, que, após uma depressão, conseguiu o primeiro emprego aos 37 anos. “Nunca é tarde”, diz. Agora, trabalha como articuladora de dia e, à noite, comemora a possibilidade de chegar em casa e poder cozinhar, lavar roupa, assistir a novelas e conversar com a família. 

Apesar de ter apoio dos pais em casa, a cabeleireira Ivy Granelli, de 22 anos, afirma que, na rua, o preconceito ainda é grande com a mulher trans, que é vista como objeto sexual. “Mulher sofre muito na rua, mas com a trans é mais agressivo porque associam com vulgaridade, com prostituição”, afirma. “Se o homem dá uma cantada e as pessoas veem, elas me julgam como se eu estivesse procurando aquilo.”

“Sempre tentaram me caracterizar como um bichinho engraçado, uma aberração. Machuca uma pessoa olhar para você e dizer ‘você nunca vai ser ninguém na vida’, ‘você é limitada’ ou ‘você é inútil’. Foi o que mais martelaram para mim”, diz a agente de saúde Ciara Pítma, de 25 anos.

Conquistas. Na última Conferência Municipal de Políticas para Mulheres, em setembro, quatro delegadas trans - entre elas, Ciara e Aline - foram eleitas pela primeira vez para representar São Paulo na edição federal do evento. “Nos emocionamos porque conseguimos incluir travestis e trans em várias situações. Para nós, foi uma conquista muito importante”, conta Aline.

Para a analista de sistemas Margot Paon de Andrade Garcia, de 30 anos, um dos reconhecimentos mais importantes como mulher trans se manifestou no trabalho. Após uma grave depressão, ela assumiu a identidade que sempre teve e ficou surpresa com o apoio que recebeu. 

“Tive toda a aceitação na empresa. Quando souberam da minha transformação, fizeram até palestras de conscientização para os demais funcionários.” No setor em que trabalha, Margot é a única mulher. “Fui treinada para ser um homem e por muito tempo eu tentei, mas não consegui viver sem ser quem eu era: uma mulher.”

Foi aos 25 anos, depois de ter se mudado de Assis, no interior, para a capital, que a atriz Lorena da Cunha França, de 37 anos, decidiu abraçar a identidade feminina. Apesar de nunca ter sido reprimida pelos pais na infância ao brincar com bonecas, Lorena conta que o maior medo era que a família não a aceitasse. 

“O maior alívio que senti foi quando meu pai me viu vestida como mulher pela primeira vez. Ele me abraçou com os olhos, como se dissesse que me aceitava e me amava”, conta.

Aline Marques, que hoje luta pela igualdade tanto das mulheres biológicas quanto das trans e travestis, condena a competitividade entre elas. “É um sofrimento passar por tudo isso para chegar perto da semelhança de uma mulher. Pagamos caro em cirurgia tentando chegar à perfeição de uma mulher. Porque, para mim, a mulher é perfeita.”

Cirurgias. Apenas cinco dos 27 Estados brasileiros têm hospitais habilitados para o processo transexualizador, com cirurgias para redesignação sexual, retirada ou inclusão de mama e a tireoplastia (troca da voz). Outros três Estados são equipados com ambulatórios especializados para pessoas transexuais, segundo o Ministério da Saúde. 

Em 2015, foram feitos 2.423 procedimentos de transexualização, até outubro. Em 2008, quando o processo começou a ser oferecido pelo SUS, foram 101. As cirurgias de redesignação ainda são uma pequena parte dessa parcela, foram feitas só 53 no ano passado em todo o Brasil - 16 delas em São Paulo.

Para o Ministério da Saúde, o Brasil está na “vanguarda” da garantia de direitos e reconhecimento de gênero, assegurando a cobertura gratuita de saúde para as pessoas que querem mudar de sexo. Para estarem aptos às cirurgias, os pacientes precisam ter no mínimo 18 anos e passar por avaliação e acompanhamento ambulatorial com equipe multiprofissional. 

Maria Amélia Veras, da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo, afirma que há um movimento para que os processos de transformação corporal possam ser assegurados pelos sistemas de saúde sem a necessidade de diagnóstico médico, já que há uma movimentação global para que a transexualidade seja despatologizada. “A ideia da não conformidade entre o sexo de nascimento e a identidade de gênero autopercebida é um conceito recente.”

Desde 2012, a Associação Americana de Psiquiatria (APA) deixou de considerar a transexualidade como uma patologia ou transtorno mental. “Essa nomenclatura infelizmente ainda prevalece, inclusive, no Brasil. É, inclusive, baseada nisso que o Estado brasileiro disponibiliza tratamento hormonal, psicoterápico e cirúrgico a tais pessoas”, diz Silva.

Tudo o que sabemos sobre:
MulherGêneroLBTGTransexual

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Pagamos caro em cirurgia tentando chegar à perfeição de uma mulher', diz trans

Articuladora da base móvel da Cidadania LGBT, Aline Marques, de 38 anos, exalta a perfeição da figura feminina

Isabela Palhares e Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

07 de março de 2016 | 21h14

"Aos 10 anos, eu não podia frequentar mais a escola. Parei na 4ª série incompleta. A molecada ficava na porta da escola já me esperando para me bater. Meus irmãos tinham que estar lá me esperando para me levar de volta para casa. A minha mãe tinha que ir na porta de mãe de aluno para se pegar, se rolar no meio da rua para tentar me defender. 

Ao mesmo tempo, ela me batia porque meus irmãos falavam para ela que eu era muito afeminado. Naquele tempo, falar de gay, de uma pessoa afeminada, era demais. 

Então, eu sofri muito, muito, muito mesmo: de apanhar em casa, de apanhar na rua, de ser xingada, de ser humilhada. Por eu querer ser simplesmente Aline Marques, uma travesti, que nunca fez mal a ninguém, que gosta de passar um batom, gosta de se vestir como uma mulher bonita, bem produzida. Isso não faz mal a ninguém. 

Tinha que me prostituir pelo fato de eu ter que sobreviver. Pegava um currículozinho, que eu já tinha trabalhado numa locadora como atendente, e as pessoas sempre falavam que entravam em contato, que iam dar uma olhadinha, que qualquer coisa entravam em contato… Jamais! Nunca. Nunca recebi um telefonema. Tinha o cabelo já grande, loiro, aquele hormônio pequeno nos seios. Acho que viam que eu era muito feminina e não se encaixava no perfil. Então, eu fiquei desempregada, não conseguia nenhum tipo de trabalho, nenhum tipo de atividade.

Sempre olhava a minha mãe e me imaginava ela. Minha mãe era linda, uma morena tão linda. Aquele cabelo liso de índia. Ela passava aquele batom vermelho na boca, eu olhava e falava assim, na minha mente: eu quero ser igual a ela.

Estamos homenageando essas mulheres lindas que temos no Brasil. É um sofrimento passar por tudo isso para chegar perto da semelhança de uma mulher. Pagamos caro em cirurgia tentando chegar à perfeição de uma mulher porque, para mim, a mulher é perfeita.

Somos mulheres. Eu não estou com uma cueca debaixo do vestido. Estou com uma calcinha. Eu sou uma mulher. Um homem não passa um batom vermelho. Como me veem como um homem? Me veja como uma mulher. Travesti, mas uma mulher.

Todos os dias são dias da mulher. O ano inteiro é o dia delas, o século é o dia delas. Elas são incríveis, são maravilhosas, são guerreiras, são mães, são tias, são irmãs, são companheiras. Um dia é muito pouco. Para mim, todo dia é dia da mulher. Ela é uma flor."

Tudo o que sabemos sobre:
Dia da Mulher

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

‘Com mulher trans, a violência é mais agressiva'

Ivy Granelli, de 22 anos, teve apoio dos pais, mas se queixa do duplo preconceito na rua por ser mulher trans

Isabela Palhares e Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

07 de março de 2016 | 21h05

"Desde criança, sempre fui diferente. Aos olhos das outras pessoas, claro. Primeiro, me assumi para a minha mãe e para a minha família como homossexual. Porque eu ainda não fazia ideia, não conhecia essa questão de gênero. Minha mãe sempre me apoiou em tudo. Depois de uns três anos, comecei a me vestir mais… feminina, de fato.

 

Sempre fui muito feminino enquanto homem. Até então, achava que era um lance mais de estilo. Mas aí comecei a me vestir de mulher quanto tinha 18 anos, com vestimentas mais femininas. Reparei que já não era mais um homem. Continuava usando meu nome de batismo, só que eu já era uma mulher.

 

Quando comecei a me vestir de mulher, foi uma realização para mim. Foi quando realmente me achei. Eu sempre me via como mulher desde criança. Não queria saber dos meus brinquedos. Queria saber dos brinquedos da minha irmã. Eu puxava minhas roupas mais para baixo para dizer que era vestido. Puxava a meia para dizer que estava de bota. Depois que cresci, comecei a procurar mais informações e vi que ser trans era realmente possível.

 

A trans é vista como um objeto, na maioria das vezes. Ainda tem esse preconceito e essa vulgarização da mulher trans. É muito do homem olhar para a gente como se fosse um pedaço de carne e estivesse disponível para fazer o que ele quiser naquele momento.

 

A gente ouve muita piadinha de mau gosto e eu acho que seja mais do que mulher. Mulher sofre muito com isso na rua, mas com a mulher trans é mais agressivo por associarem a mulher trans com vulgaridade, com prostituição. É muito forte. Se o homem dá uma cantada e as pessoas veem, elas me julgam como se eu estivesse procurando aquilo. Temos que nos envergonhar como se a culpa fosse nossa.

O gênero é uma coisa que a gente tem dentro da nossa cabeça. A gente se vê no espelho, mas a gente não é daquele jeito. Quando a gente começa a fazer tratamento hormonal, é a realização de um sonho. Porque o que você é por dentro começa a sair. A terapia hormonal - não que seja uma regra -, mas para mim é a principal atitude porque é o que possibilita ser o que você é por dentro."

Tudo o que sabemos sobre:
Dia da Mulher

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

‘Sempre tentaram me caracterizar como um bichinho engraçado, diz agente de saúde

Ciara Pitma revela que se sentiu rejeitada na adolescência e que foi obrigada a se prostituir

Isabela Palhares e Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

07 de março de 2016 | 21h01

Adolescência é uma fase de descobertas e acho que é onde a gente busca se conhecer. Não nego que tive alguns problemas, algumas dificuldades. Por exemplo, papai disse que nasceu homem tem que morrer homem. Questões de sexo mesmo, questões de religião, questões de orientação sexual. Isso foi muito difícil. Vovó foi perdendo a visão, ela era costureira e muito cedo eu tive que ter responsabilidade dentro de casa. Não é fácil com 10 anos você já ter que dar remedinho para a vó na hora certa, ter que levar para a Igreja, ter que cuidar da casa e ter que cuidar do outro irmão.

 

Minha diversão foi mais no final de semana, com alguns amigos. Poucos. Eu não saía muito de casa. Saía mais para a Igreja, que foi a minha segunda família. Não tive uma vida muito dispersa nesse sentido. Era de casa para a Igreja. Na escola, eu não nego: o meu ensino fundamental foi muito chato. 4ª 5ª, 6ª série foi muito difícil. Eu via meus amigos se modificarem no corpo, na aparência, e eu ficar congelada por ter cabelinho grande, por ter um jeito diferente. Era sempre o alvo da chacota e da zoação.

 

Fui muito presente na Igreja. Trabalhei com grupos de perseverança, fazendo atividades dominicais na Igreja. Aprendi muito, cresci muito. Depois, na escola, foi difícil conciliar a escola e cuidar da casa. Sempre era “a bichinha”, “o viadinho”. Bullying, como chamam hoje. Eu era “um demônio”. A Igreja foi a minha segunda família, mas também tive que sair por causa da minha sexualidade. Um lugar que eu acho que deveria ter me agregado e não ter desperdiçado. Já não queria estar na Igreja e tinha dificuldade na escola, então não era gente. Onde era o meu lugar?

 

Eu tinha 14 anos e já ia em loja procurar emprego. Sempre ouvi de gerentes de repartições que não queriam ‘viados’ na loja deles. “Essa bibinha”, “esse menino-menina”, “essa sapatão”. Quando mudei o cabelo, eu via muito isso. Sempre tentavam me caracterizar como se eu fosse um bichinho, sabe? Um bichinho engraçado. Uma hora gay, uma hora lésbica. Ou como aberração. O que eu sempre sofri foi uma rejeição.

 

Ai, é chato. Machuca uma pessoa olhar para você e dizer que eu não sou nada, que não sou ninguém, que nunca vou ter nada, que nunca vou ser ninguém na vida e que tenho que viver na noite, que tenho que me limitar, que sou uma pessoa inútil e só sirvo para sexo. Isso foi o que mais martelou a minha cabeça e martela até hoje.

 

Porque eu não gosto de fazer programa. Não gosto de estar deitada com um cara que eu nem conheço, que eu nunca vi nada, e amanhã tenho que estar com outro e com outro… Eu só quis uma vida normal: estudar, trabalhar. Fui obrigada com 16 anos a me prostituir. Eu não queria fazer aquilo. Não queria estar indo para posto, não queria sair com caminhoneiro e ter que largar a minha cidade natal.

 

Tive que vir para cá (São Paulo) e vai fazer cinco anos agora em agosto. Mas eu vim em busca de trabalho e me realizar enquanto transexual. Colocar minha prótese, mudar meu nome. O meu nome, graças a Deus tive uma notícia ótima, já vou entrar em andamento. E a minha prótese já estou vendo isso também depois que estiver com a minha estabilidade.

 

Outra vertente que as pessoas têm que entender é que a gente passa por processos. A gente faz hormonioterapia, que não é fácil. Tomar hormônio afeta com tudo. Não é só corpo. É corpo e mente. E não adianta a gente se negar. Isso é a cultura do falo: “você é aquilo que você tem nas pernas” ou “você é aquilo que o papel diz”.

 

Tire um dia e faça um teste: inverta seu sexo. Um dia, atua como personagem. Atua com um dia de travesti. Se pinta, se maquia e enfrenta a sociedade. Porque quando você enfrenta e você sente o que você passa na prática, aí você sabe. É muita fobia, muita rejeição, é só vivenciando mesmo na prática. Para quebrar esse tabu, essas ideias que foram implantadas não sei de onde, a gente pode se colocar no lugar do outro. Nesse intervalo do tempo, você vai sofrer alguma coisa.

Temos que apostar na diversidade. Estamos para somar, apostar na união. Enquanto a gente não pensar em ser mais solidário e em construir junto, a gente não vai ter um País bom. Vai continuar a se digladiar todo dia.

Tudo o que sabemos sobre:
Dia da Mulher

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'É preciso parar de rotular', diz atriz

Mulher trans Lorena França, atriz, diz que é preciso mais tolerância e menos preconceito ao se falar sobre identidade de gênero

Isabela Palhares e Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

07 de março de 2016 | 20h44

"Nunca fui reprimida pelos meus pais, nunca ninguém me disse que brincar com bonecas ou andar com as meninas era certo ou errado. Sempre deixaram que eu fizesse o que me fazia bem.

Por isso, só comecei a sentir que era diferente na adolescência. Porque eu era um menino, mas era afeminado. Eu sentia atração por outros meninos, mas não era gay.

Foi quando mudei para São Paulo aos 25 anos que fiz a minha transformação. Ela aconteceu aos poucos. Comecei com as roupas, depois a maquiagem, cabelo, voz, trejeitos. Eu nunca precisei contar para ninguém sobre a minha transformação, todos, inclusive meus pais, acompanharam essa mudança.

Apesar de ter crescido em um ambiente bastante acolhedor, minha maior insegurança era a reação dos meus pais. O maior alívio que senti foi quando meu pai me viu vestida como mulher pela primeira vez. Ele me abraçou com os olhos, como se dissesse que me aceitava e me amava.

O apoio da família é mais importante e, no meu caso, eles entenderam que eu era a mesma pessoa de sempre.

Mas na rua a gente sofre muito. Ainda mais no começo da transformação, eu deixava de pegar metrô e ônibus nos horários de pico, não andava sozinha na rua. Mas hoje eu já me sinto mais segura, eu estou no meu melhor momento, estou muito contente com o meu corpo.

Hoje, o que eu mais queria é que as pessoas entendam que não é preciso ter uma vagina para ser mulher. As pessoas precisam parar de rotular. Eu já sou uma mulher, as pessoas que convivem comigo já me tratam da forma como eu quero, minha família já me enxerga como mulher."

Lorena da Cunha França, de 37 anos, é atriz e figurinista 

Tudo o que sabemos sobre:
Dia da Mulher

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Fui treinada para ser homem', diz mulher trans

A analista de sistemas Margot Garcia diz ter entrado em depressão ao tentar seguir comportamento que a sociedade esperava dela

Isabela Palhares e Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

07 de março de 2016 | 20h40

"Desde pequena eu me sentia diferente, mas era tão reprimida pela minha família e por uma educação machista que não tinha espaço para manifestar meu interesse e fascínio pelo ambiente feminino.

Essa sensação de ser diferente me acompanhou durante toda a vida. Eu era um homem, machão, dentro de todos os padrões que a sociedade espera de um homem. Tinha uma noiva, com quem estava junto há seis anos.

Mas no final de 2013 tive uma depressão muito grave por não ser quem eu era, mesmo sem saber exatamente como eu poderia expressar essa pessoa. Eu só sabia que precisava sair desse limbo. Fui treinada para ser um homem e por muito tempo eu tentei, mas não consegui viver sem ser quem eu era: uma mulher.

Desde então, tem sido muito complicado porque não tive apoio da minha família e da minha ex-noiva. O principal apoio que tive veio da empresa em que trabalho, quando souberam da minha transformação, eles deram todo o reconhecimento que eu queria. Contrataram até mesmo uma ONG para conscientizar os funcionários sobre identidade e diversidade de gênero.

Trabalho na área de Tecnologia da Informação, uma área que é tradicionalmente vista como masculina, mas mesmo assim fui muito bem aceita. Eu sou a única mulher em meu departamento, ainda por cima uma mulher trans. E isso é incrível.

Desde a minha transformação, a única coisa que eu quero é o apoio da minha família. Quero que meus parentes entendam que eu sou a mesma pessoa. A única diferença é que agora eu me achei, eu nasci com a genitália errada, mas não é o órgão genital que define quem você é.

Se eu pudesse ter um presente nesse dia da mulher, gostaria de poder conversar com a minha mãe que morreu antes de eu ter feito a transformação. Tenho certeza de que ela teria me entendido, me apoiado. Porque a mulher é assim, compreensível, sensível. Ela é mãe."

Margot Paon de Andrade Garcia, de 30 anos, é analista de sistemas

Tudo o que sabemos sobre:
Dia da Mulher

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.