Quando vai voar, Lula entrega a sorte a Deus

Presidente define-se como ?medroso?, ao dar posse a ministro

Vera Rosa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2026 | 00h00

Uma semana depois do acidente com o Airbus da TAM no Aeroporto de Congonhas, que deixou 199 mortos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva confessou ontem que tem medo de andar de avião. Ao dar posse ao novo ministro da Defesa, Nelson Jobim, o presidente disse que fazia a confissão publicamente por não ver vergonha nenhuma em se definir como "medroso" quando o assunto é avião. Foi a segunda vez em que o presidente escancarou esse temor desde o início da crise aérea, há dez meses, quando um Boeing da Gol se chocou com um jato Legacy, deixando 154 mortos. "Toda vez que o avião fecha a porta, eu entrego a minha sorte a Deus", disse Lula ontem. "Eu estou na mão de um comandante que é um ser humano, de uma máquina ultramoderna, mas que é uma máquina, estou na mão de um controlador que diz quando eu devo parar ou não - e estou na mão das intempéries, que nem sempre o ser humano consegue controlar." Em 30 minutos de discurso, Lula cometeu pelo menos duas gafes com Jobim e dirigiu afagos a Waldir Pires, o ministro que deixava o cargo, com o argumento de que ele tinha "extraordinária história pública" e poderia andar "de cabeça erguida". Chegou a alegar até mesmo que Pires saía da Esplanada "a pedido", embora todos saibam que ele foi "fritado", depois de o presidente ter sondado outros nomes para a sua vaga. O presidente fez várias brincadeiras ao defender a reestruturação do Ministério da Defesa, que na sua opinião está "muito aquém" das exigências da sociedade. Disse, por exemplo, que resolveu tirar Jobim da vida pacata de aposentado porque ele estava em casa "sem fazer nada" e "atrapalhando a esposa". Depois, dirigindo-se ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, não pestanejou: afirmou que o novo ministro não daria despesa porque já ganhava o teto salarial. Referia-se a seus vencimentos como ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), de R$ 24,5 mil. Ao apresentar Jobim, o presidente cometeu mais um escorregão verbal. "Não sei se é mérito ou não dizer que ele também é advogado", afirmou à platéia formada, na maioria, por advogados e ministros. Diante da fisionomia de espanto de alguns ouvintes quando se referiu ao fato de Jobim ser mais econômico por já ganhar um alto salário, Lula procurou contornar: "Estou dizendo essas coisas aqui porque nós vivemos momentos de tensão no País, de sofrimento e, de vez em quando, é preciso que a gente tenha momentos de descontração para tornar a vida, eu diria, menos sofrível." Ele comentou que nesses dez meses de crise ficou com cabelos mais brancos. E mais uma vez pediu que as pessoas aguardem o fim das investigações sobre o acidente em Congonhas, condenando julgamentos precipitados e "disputas menores". Desde o acidente, o Planalto e a oposição travam uma guerra de versões sobre as suas causas. "Não se pode transformar tragédias em penas de morte", conclamou o presidente. "Nós precisamos (...) sofrer menos internamente e aproveitar esses momentos para tirar lições." Lula pediu a Jobim que visite o Aeroporto de Congonhas. Prometeu, ainda, que ele terá os recursos necessários para mudar o sistema aéreo. Lembrou que muitos perguntam por que é necessário investir dinheiro para reequipar as Forças Armadas em tempos de paz: "Isso é como Deus e como segurança: a gente só avoca quando precisa." Para Lula, a alegada falha do centro de controle de vôos de Manaus (Cindacta-4), no fim de semana, foi algo "impensável". "Qualquer cidadão de juízo perfeito diria: ?Isso não pode acontecer.?" O presidente afirmou que, se pudesse, pediria a Deus que o acidente com o avião da TAM fosse o último "do planeta". Admitiu, no entanto, não poder prometer que outros desastres aéreos não ocorrerão. FRASES Luiz Inácio Lula da Silva Presidente "Estou dizendo essas coisas aqui porque nós vivemos momentos de tensão no País, de sofrimento e, de vez em quando, é preciso que a gente tenha momentos de descontração para tornar a vida, eu diria, menos sofrível" "Ele estava sem fazer nada e atrapalhando a esposa. Além disso, não vai dar mais gastos ao País" (sobre o ministro Jobim) "Não se pode transformar tragédias em penas de morte. Nós precisamos, nos momentos de dor, tirar lições para fazer as coisas que precisam ser feitas" "Toda vez que o avião fecha a porta, eu entrego a minha sorte a Deus. Eu estou na mão de um comandante que é um ser humano, de uma máquina ultramoderna, mas que é uma máquina, na mão de um controlador que diz quando devo parar ou não, e estou na mão das intempéries que nem sempre o ser humano consegue controlar" "Não sei se é mérito dizer que ele é advogado" (ao apresentar o novo ministro) "Qualquer cidadão de juízo perfeito diria: ?Isso não poderia acontecer?" (sobre a pane do Cindacta-4) "Isso não depende de nós (a ocorrência de acidentes aéreos), mas, se depender das condições e da estrutura, podemos garantir que este país vai viver tempos de tranqüilidade" "É uma pessoa com extraordinária história pública" (sobre o ex-ministro da Defesa Waldir Pires, que passou na realidade por um processo de "fritura")

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