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'Quando vou à praia, vou de biquíni mesmo'

Estrela da Givenchy desfila nesta quarta-feira no Fashion Rio para grife de beachwear e fala de trabalho, futuro, preconceito e ignorância

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

01 de junho de 2011 | 08h17

Lea T., modelo transexual

 

Do Píer Mauá aos sites, passando pelos blogs de moda, só se fala nisso. Após se tornar estrela da Givenchy e desfilar para Alexandre Herchcovitch na última São Paulo Fashion Week, Lea T. vai desfilar hoje de biquíni para a Blue Man na Fashion Rio. Estrela da nova campanha da grife de beachwear, a top transexual foi clicada anteontem em Ipanema pelo fotógrafo americano Terry Richardson.

A filha do ex-jogador Toninho Cerezo desfilará um dos looks da coleção verão 2012 da marca, que neste ano traz como tema Terra Brasilis, projeto que David Azulay, fundador da grife, desenvolveu nos anos 1970.

"Era a ideia de criar uma segunda grife com este nome, que exaltasse a riqueza e a natureza brasileiras", contou Sharon Azulay, filha de David, que com apenas 19 anos assume a direção da grife um ano após a morte do pai. "É uma responsabilidade e tanto. Mas meu pai sempre ousou e queremos manter esse espírito. A escolha da Lea tem tudo a ver." Lea, que adorou a ideia, conversou com o Estado dias antes do desfile.

Como recebeu o convite?

Fiquei assustada. Mas encaro como mais um desafio. Quando vou à praia, vou de biquíni. E sempre vai ter quem vá ficar procurando o que está errado, ‘aquele’ pelo encravado, se tenho estria, se dá para ver, se não dá para ver. Como eu faço...

E como você faz?

A história é sempre a mesma. ‘Bota o biquíni bem apertado, põe para trás e vai.’ Mas quando se trata de um desfile pode acontecer qualquer coisa. É claro que vamos escolher um look legal, não vulgar. Pelas provas de roupa que fiz, tinha ficado tudo bom. Não tenho problema de fotografar nua. Mesmo estando em um processo de transformação, tenho de viver o presente e curtir o meu corpo.

Já tinha recebido convite para desfilar de biquíni?

Sim, na própria Givenchy, mas não quis fazer. Foi em uma época em que eu estava muito magra. E não pelo lado de ser transexual. Acho que quem é gordo tem de curtir a gordura que tem; quem tem perna torta, pôr minissaia. A gente tem de se ver com humor. Se não fica tudo muito chato.

O que você espera de hoje?

Quero curtir. Mas não sou nenhuma Globeleza. Vou fazer o melhor. Acho a ideia fantástica. É bom fazer esse trabalho para, mais uma vez, calar a boca de muita gente. Por mais que critiquem e tenham raiva, as transexuais continuam segurando a peteca. Sei que incomodo. Mas não estou fazendo nada errado. Só meu trabalho momentâneo.

Por quê? Já tem planos para o futuro? Vai continuar na moda?

Provavelmente não. Adoro e, graças à moda, consegui passar minha mensagem. Mas não é muito meu ambiente. A moda é linda e maravilhosa quando você está fora dela. Quando você entra... Nunca pensei em ser modelo. E, mesmo quando fui ‘modelo homem’, homem não sonha ‘quero virar top model’. Quando entrei para a moda, já era adulta. Já era ‘um trabalho’. Incrível, claro, porque a mensagem que passo é a de que não tem de ser só eu, mas várias trans na moda.

Mas você, muito por sua história, é sempre assunto.

Falar sobre a minha vida é perder tempo. O que posso falar é sobre a discriminação. Se desfilar de biquíni é algo midiático da parte da Blue Man, tudo bem. Que sirva para abrir a cabeça das pessoas. Importante é que coisas que são ditas sobre mim não sejam mais ditas sobre trans das futuras gerações.

Que tipo de coisa?

Outro dia li que eu sou um aborto, uma aberração, a vergonha do meu pai. Se me chamam de feia, não me ofendem. Mas é triste me chamar de desgraça e dizer que um transexual tem de morrer. Comecei a reparar que esse tipo de gente fala mal também de crianças que nascem com patologias, gêmeos siameses... Preconceito é ignorância.

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