Quanta Ladeira satiriza políticos e celebridades

Um dos pontos altos do carnaval do Recife, bloco lotou o Cais da Alfândega no fim da tarde de domingo

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo,

14 Fevereiro 2010 | 22h23

Criado há 13 anos em Olinda, o bloco Quanta Ladeira, uma "bagunça entre amigos", que reúne músicos da melhor estirpe pernambucana como Lenine, Lula Queiroga, Silvério Pessoa e Júnio Barreto, é um dos pontos altos do Carnaval Multicultural do Recife e há anos vem se apresentando no festival Rec-Beat. Neste domingo, milhares de pessoas (cerca de 10 mil segundo a produção do evento) lotaram toda a rua do Cais da Anfândega para ver o grupo de uns 30 integrantes tocar paródias hilariantes de canções conhecidas, sacaneando políticos e celebridades, fazendo (muitas) alusões a sexo (anal principalmente), bebedeira, drogas, o carnaval e outros assuntos mais leves.

 

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Este ano sobrou para Dilma Rousseff, José Serra, o atual e o ex-prefeito do Recife, João Costa e João Paulo, a cantora Beyoncé, os dois Arruda - o político corrupto e Geisy, a celebridade efêmera da Uniban - e até a mãe do presidente Lula, dona Lindu. Outras farpas foram lançadas na direção da polícia e do carnaval baiano.

 

As letras são inteligentes e muito engraçadas, na maior parte das vezes rimando em cima das letras originais de canções como 'Odara", "Baby" e "Terra" (Caetano Veloso), "Drão" (Gilberto Gil), "A Praieira" e "Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada" (Nação Zumbi), "La Belle de Jour" (Alceu Valença), "Festa de Arromba" (Roberto e Erasmo Carlos), "Beat it" (Michael Jackson), "Every Breath You Take" (The Police) e outras.

 

A letra sobre Dilma, "Otara", em cima da melodia de "Odara", diz: "Deixa eu votar/ Lula disse que Dilma é 'o cara'/ Sua tara é sentar em um pau-de-arara/ Deixa eu votar/ Mas eu não voto nessa 'otara'/ Que parece Pedro de Lara/ Essa Dilma ninguém azara/ Nem doidão nem de cara".

 

Serra ganhou sua "homenagem" com letra sobre a melodia de "Terra". "Mas que candidato feio/ Mais parece uma caveira/ Um vampiro do cinema/ Essa cara de sagui/ Uma múmia do Egito/ Vindo de outro planeta/ Zé da cara bu**ta". O refrão diz "Serra, Serra/ Esse mutante/ Que aparência horripilante/ Quem jamais eu votaria/'.

 

Lenine não veio, mas estava bem representado por Silvério, Lula, China, Luciano Queiroga, Aloisio Maluf, Marcio Almeida e outros 20 e tantos que lotaram o palco. Fernanda Takai, que veio só pra ver, acabou entrando na brincadeira na sátira a José Roberto Arruda sobre a melodia de "Festa de Arromba". A bela Thalma de Freitas já tinha chegado antes e era a única mulher até então no meio dos marmanjos cafas. E é claro que levou cantadas nada sutis.

 

"Beat it", de Michael Jackson ("nosso irmão albino que se foi tão cedo"), virou "Pires", com a mais inocente das letras: "Eu fico entre a mesa e xícara de chá/ Eu sou pires, pires, pires, pires..." Outras mais antigas como "A Cachaceira" ("A Praieira") se misturavam às novas. No tema do bloco, "Quanta Ladeira", montado em cima do clássico cubano "Guantanamera" ("Quanta ladeira/ Olinda, quanta ladeira"), eles abrem espaço para o improviso, na maioria das vezes sacaneando um ao outro rimando com aquela palavrinha de duas letras que termina em "u". É tanta referência à coisa, que o bloco devia trocar o "Q" pelo "C" no nome.

 

A banda toca pesado e às vezes cada um vai para um lado, mas isso é o que menos importa e a pegada sonora é tão forte quanto os versos das paródias. A marchinha "Balancê" (Braguinha/Alberto Ribeiro) serviu de base para "Beyoncê", de letra quase inteiramente impublicável sobre a bombada cantora americana.

 

Do lado do espelho, "Baby" virou "Geisy", que começa assim: "Não sei/ Quem lembra daquela menina/ Meio catráia/ Perna cangáia/ Que muié páia" . E prossegue: "Vestido mal tapava o c*/ E não lhe caiu muito bem/ Dançou na pior faculdade da América do Sul/ E foi vaiada, levou dedada, nega safada/ Geisy/ Geisy, mas que tribufu/ Geisy, Geisy, mas que cafuçu".

 

Entre uma safadeza e outra Luciano Queiroga definiu o Quanta Ladeira como "o maior bloco de coliforme cultural de Pernambuco", algo assim. O lixo das ruas do Recife (que já ganhou apelidos como "Recífilis" e "Venérea americana"), aliás, é uma das várias críticas à administração municipal. Dizem que este foi o último show do bloco no festival, mas como eles sempre se desmentem e voltam, há esperanças. Faz falta esse espírito satírico que havia nos carnavais antigos.

 

(O repórter viajou a convite da organização do carnaval no Recife)

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