Quatro mulheres e R$ 102 por mês

Sudoeste concentra maiores índices de pobreza

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

Os R$ 102 que a estudante Vanessa Rodrigues da Costa, de 11 anos, recebe por mês do Programa Bolsa Família são a única renda da casa em que ela mora com a mãe Rosa Maria, de 35, e as tias Maria Benedita, de 49, e Maria Sueli, de 53, no bairro Alegre de Cima, zona rural de Guapiara, a 263 km da capital paulista.

As três mulheres são lavradoras, mas, doentes, estão impedidas de trabalhar. E já nem se constrangem de serem sustentadas por uma criança. Como o dinheiro é insuficiente, os vizinhos ajudam com doações para evitar que a família passe fome. Na última quarta-feira, elas comeram apenas arroz com feijão no almoço e pinhão cozido no jantar.

As quatro mulheres estão na região com os maiores índices de pobreza de São Paulo, o Estado mais rico da federação. De acordo com o IBGE, 8,5% dos 17.988 moradores de Guapiara vivem abaixo da linha de pobreza, sobrevivendo com renda per capita inferior a R$ 70 por mês. A situação é ainda mais dramática nas vizinhas Itaoca, com 13,7% de miseráveis, Itapirapuã Paulista, com 11,9%, e Barra do Chapéu, com 10,4%, todas no sudoeste do Estado.

A lista é completada pelo município de Iporanga, no Vale do Ribeira, que tem 10,2% da população rural em miséria extrema. O prefeito de Guapiara, Flávio de Lima (PSDB), contesta os dados. "É a herança maldita de um passado em que a região era conhecida como ramal da fome, mas essa miséria aqui não existe mais."

Na casa de Vanessa, arroz e feijão são cozidos em fogo de lenha. Tem fogão a gás, mas o botijão está vazio há meses. Tem energia elétrica, mas a geladeira não funciona. Nas raras vezes em que matam uma galinha, são obrigadas a preparar e comer no mesmo dia. "Sem geladeira não tem onde guardar", diz Maria Sueli.

Elas perderam os pais cedo e ganhavam o sustento na roça, mas o corpo não resistiu ao serviço árduo. "Para amarrar tomate e quebrar milho, tinha de abaixar muito e hoje estou imprestável", diz, conformada, Maria Benedita. A mãe de Vanessa, abandonada pelo pai da menina assim que ela nasceu, passou a ter desmaios no campo. "Ninguém mais dá trabalho para ela", conta a irmã. A esperança da casa passou a ser a garota: ela sai às 5h30 para a escola no ônibus da prefeitura, volta às 13 horas e ajuda no trabalho doméstico. Além de lavar roupa, cuidar da pequena horta e tratar as galinhas, precisa estudar - Vanessa quer ser médica para cuidar da mãe.

O prefeito de Guapiara diz que a região sofre com o descaso do governo. "As rodovias de acesso estão intransitáveis, dificulta o escoamento da produção." Ele garante que os moradores dos 56 bairros rurais têm acesso a escolas com merenda escolar e aos serviços de saúde. "São 15 escolas novas e, onde não tem, a prefeitura dá condução."

Lima fala do esforço para melhorar a renda com programas como a produção de alimentos para a merenda escolar, produção de leite - "compramos um caminhão-tanque e resfriadores" - e artesanato.

A Cooperativa dos Artesãos de Guapiara tem mais de 100 mulheres lavradoras, como Iracema Galdino Cravo, de 54 anos. Além de plantar mandioca, milho, feijão e ervilha para o sustento da família, Iracema ganha cerca de R$ 250 por mês com a venda de artesanato. No pequeno sítio, no bairro Capela do Alto, vive com o marido, cinco filhos e um neto. "Comida não falta", diz.

A coordenadora do programa e responsável pela assistência social no município, Rita de Cássia Lima, não aceita a constatação do IBGE. "Não se pode medir a qualidade de vida apenas pela renda. Muita gente trabalha para si, produz o necessário para comer e para atender necessidades básicas. Quem passa fome aqui?"

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