Quebrados sigilos de advogados suspeitos de ligação com PCC

O presidente da CPI do Tráfico de Armas, deputado Moroni Torgan (PFL-CE), disse nesta quarta-feira, 12, que foram quebrados os sigilos bancário, fiscal e telefônico de 14 advogados suspeitos de envolvimento com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). A CPI aprovou também a quebra de outros 16 sigilos de criminosos e parentes de presos envolvidos com o crime organizado. Moroni acredita que, por essas 30 contas, passa boa parte do dinheiro que financia a "logística" do PCC, como a corrupção de funcionários em presídios, compra de telefones celulares e pagamento de advogados. A CPI investiga 34 advogados suspeitos de colaborarem com o crime organizado.A partir da investigações dessas contas, a CPI pretende chegar ao que o deputado chama da "contas-mães", muito mais robustas, por onde passaria o dinheiro obtido com tráfico de droga, de armas, as contribuições obrigatórias dos integrantes do PCC e também dinheiro do aluguel de armamento para bandidos não vinculados à facção. "Há informações de que o PCC recebe R$ 750 mil mensais só em contribuições. Muitas delas são feitas com depósitos direto nas contas bancárias. Estamos pedindo uma devassa nessas contas, com ajuda do Banco Central e da Receita Federal. Se tirarmos estes recursos financeiros do PCC, eles não terão logística", disse o deputado, depois de ouvir o depoimento de dois advogados presos por suspeita de envolvimento com o crime organizado, Eduardo Diamante e Nelson Roberto Vinha. Moroni disse não acreditar que o PCC tenha contas fora do País. O deputado acredita que um dos motivos para as novas ações da facção é a proximidade do início das transferências de presos mais perigosos para o presídio federal de Catanduvas (PR), recém-inaugurado. "É um fato marcante e um receio que eles têm, de ficarem isolados. Eles estão se sentindo encurralados. E a besta-fera encurralada reage", disse o parlamentar.SócioNesta quarta-feira, o advogado Eduardo Diamante, que prestou depoimento na superintendência da Polícia Federal, em Brasília, disse admitiu para os integrantes da CPI que é sócio do presidiário Bruno Cesar Pascini, seu cliente, em uma fábrica de bolas, que são costuradas por presos em seis penitenciárias paulistas. A polícia suspeita que boa parte dessas bolas, sob o pretexto de que estavam com defeito, voltam às penitenciárias recheadas com drogas, armas e telefones celulares. Dimante negou o esquema das bolas, mas disse que, além de sócio, Pascini, que cumpre regime semi-aberto, foi contratado como estagiário de seu escritório de advocacia. A CPI suspeita que Pascini comande o envio do material para o presídio quando deixa a cadeira, supostamente para trabalhar no escritório de Diamante.O advogado é suspeito de ter providenciado a entrada de três celulares e de R$ 15 mil para presos da penitenciária de Presidente Venceslau. Na casa do advogado, a polícia encontrou R$ 10 mil. Diamante não convenceu os deputados de que não atue como pombo-correio do PCC. "Ele está firmemente incluso no esquema do PCC. Não diz a origem dos R$ 10 mil encontrados na casa dele e tem ligações com Macarrão, que é o segundo homem do PCC. Acredito que ele seja um dos advogados mais vinculados ao PCC", disse o presidente da CPI.Segundo Moroni Torgan, Diamante admitiu contatos com um homem identificado pelo advogado apenas como João, que seria um emissário de Macarrão para providenciar celulares. O advogado disse, no entanto, que foi contratado para fazer "um dossiê que tudo que saiu na imprensa sobre o PCC". "Ele diz que é contratado para recolher as notícias, a pedido deste João", contou Moroni.O outro advogado ouvido pela CPI na quarta-feira, Nelson Roberto Vinha, foi preso em flagrante depois de entregar seis celulares a seis presos, no mês passado, no Centro de Detenção Provisória de Mauá, em São Paulo. Vinha, segundo os parlamentares, não tem grande importância no esquema do crime organizado e faz pequenas tarefas. O que impressionou os parlamentares, no entanto, foi a facilidade com que o advogado entregou os celulares e cinco carregadores.Apenas um dos seis presos que estiveram com Vinha era seu cliente. Os outros foram chamados pelo advogado e puderam conversar com ele no parlatório da cadeia. Os agentes penitenciários, desconfiados do fato de um advogado mandar chamar vários presos ao mesmo tempo, revistaram os detentos ao chegarem e ao saírem do parlatório. Na saída, cada um levava um celular. O relator da CPI, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), vai pedir o indiciamento dos advogados suspeitos de envolvimento com o crime organizado, para que sejam investigados por crimes como associação para o tráfico e formação de quadrilha. Pimenta vai sugerir mudanças na Lei de Execuções Penais e no estatuto do advogado, para tornar mais rígidas as regras de acesso aos clientes. "Hoje, qualquer preso pode conversar com qualquer advogado, mesmo que não seja seu cliente. Por isso o Nilson Vinha conseguiu fazer uma verdadeira assembléia no parlatório da cadeia, sem agendamento prévio. A sugestão é que o preso tenha acesso apenas ao seu advogado ou ao advogado que vai constituir, se não ainda não tiver. Estamos convencidos que a brecha na lei permite que a organização criminosa use os advogados para articular contatos entre os líderes", afirmou Pimenta.Vinha nega ter levado os celulares aos presos, mas disse aos parlamentares que passou facilmente pelo detector de metais da cadeia, porque estava com uma bolsa tipo pochete que não foi revistada e não passou pelo aparelho de raio x.

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