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Quem cuida mais da saúde?

SÃO PAULO - Pense rápido: quem cuida melhor da saúde, homens ou mulheres? Acertou quem apostou nelas. Mas será que isso significa que elas estão mais protegidas de todas as doenças? Depende. Pelo menos é o que revelam estudos publicados nas últimas semanas.

Jairo Bauer, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2016 | 05h00

Trabalho feito pela organização Cancer Research UK, do Reino Unido, mostra que a cada ano são 179 mil novos casos de câncer entre os homens daquele país, ante 173 mil entre as mulheres. Para os pesquisadores, os homens estão mais sujeitos a desenvolver um câncer do que as mulheres porque se expõem a mais fatores de risco e cuidam menos da saúde. Uma vez descoberto um nódulo, por exemplo, eles protelam mais a busca por ajuda.

Estudo feito com 2.300 pessoas que enfrentam 15 diferentes tipos de câncer, publicado no British Journal of Cancer e divulgado pelo jornal inglês Daily Mail, revelou que 44% dos homens com sintomas de câncer de próstata adiaram a visita ao médico por três meses. Em contrapartida, apenas 8% das mulheres com sintomas de câncer de mama retardaram a busca por avaliação clínica.

Os dados mostram ainda que homens são 15% mais sujeitos a desenvolver um câncer, mas têm chance 36% maior de morrer pela doença do que as mulheres. A tendência a ignorar o problema e evitar o médico está na raiz desses números. 

Homens estão menos “ligados” nos sintomas de um câncer, como inchaço, perda de peso ou sangramento. Eles também estão menos acostumados a cuidar da saúde em geral e ficam mais assustados com a possibilidade de uma doença. A fantasia da onipotência ainda é muita viva no universo masculino. Muitas vezes, é a mulher quem pressiona o homem para buscar cuidados. Quando recebem um diagnóstico positivo, tendem a lidar de forma mais crítica com a notícia. Mais da metade deles enfrenta sintomas ansiosos e depressivos. As mulheres conseguem expressar melhor seus medos e preocupações e dividem mais suas angústias.

Nem tudo são flores. Mas a situação está se tornando também mais complicada para elas. O ingresso maciço no mercado de trabalho, nos últimos 20 a 30 anos, está expondo a saúde feminina a diversos fatores que podem piorar sua qualidade de vida. 

Trabalhar demais faz mal para todo mundo, mas a saúde da mulher parece se ressentir mais dessa sobrecarga. Pesquisa feita em empresas de manufatura da Dinamarca, de 1996 a 2006, quando a demanda pela exportação cresceu muito, revelou que uma elevação de 10% na carga de trabalho delas aumentou em 6,5% a chance de machucados e ferimentos, em 2,5% as taxas de depressão, em 7,7% o uso de remédios anticoagulantes e em 15% as internações por enfartes e derrames. Os problemas também cresceram entre os homens, mas foram muito mais frequentes nas mulheres. O estudo foi publicado pelo Escritório Nacional de Pesquisa Econômica, dos EUA, e divulgado pelo Daily Mail.

Aqui no Brasil, dados da última semana do Instituto Nacional do Câncer (Inca) reforçam essa teoria. Os números mostram uma queda da mortalidade entre os homens por câncer de pulmão entre 2005 e 2014, de 18,5 para 16,3 por 100 mil habitantes. A queda acompanhou a diminuição importante do tabagismo no Brasil, de quase 35% da população, em 1989, para menos de 15% em 2013.

Na contramão dessa tendência de queda, entre as mulheres, as taxas subiram de 7,7 para 8,8 em 100 mil habitantes no mesmo período. Na década de 1980, o índice era de apenas 4,4 por 100 mil habitantes. Esse aumento tem relação com o maior acesso feminino ao mercado de trabalho. O cigarro passou a ser, possivelmente, uma nova forma de elas lidarem com o estresse e o desgaste da nova rotina.

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