Reprodução/Twitter
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Quem é o agente da PRF que ensina alunos a usar gás como tortura; veja vídeo

Vídeo em que policial descreve método de abordagem viralizou nas redes sociais; ele disse à reportagem que esse foi um 'exemplo lúdico' e acrescentou não compactuar com a tortura

Weslley Galzo, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2022 | 19h25

BRASÍLIA - Um dos representantes do movimento de policiais influenciadores que se disseminou nas redes sociais, o agente da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Ronaldo Bandeira viralizou nas redes nesta sexta-feira, 27. Num vídeo ele aparece dando aula num cursinho para policiais ensinando como teria torturado um preso na viatura policial usando gás de pimenta. O método que Bandeira relata em tom jocoso é semelhante ao que levou à morte Genivaldo de Jesus Santos, em Umbaúba, no sul de Sergipe: a aplicação de spray de pimenta no porta-malas da viatura, fazendo do local uma câmara de gás improvisada.

“Ele (suspeito) tentou quebrar o vidro da viatura com um chute, ficou batendo o tempo todo. O que o polícia (sic) faz? Abre um pouquinho (o porta-malas), pega o spray de pimenta e ataca. F...! É bom para c... A pessoa fica mansinha”, disse Bandeira aos risos. “Daqui a pouco eu só escutei assim: ‘eu vou morrer’. Aí eu fiquei com pena, cara. Eu abri assim e disse: ‘tortura’! E fechei de novo”, completou, arrancando risadas da plateia de candidatos a policiais. 

Ciente de que a aula estava sendo gravada, Bandeira chega a afastar o microfone do rosto antes de relatar a prática de tortura, com a pretensão de que somente os alunos ouvissem o relato. Ao final do vídeo, o agente rodoviário diz se tratar de uma brincadeira e afirma não ter feito isso, pois sofreria procedimentos disciplinares.

Questionado pela reportagem, Bandeira disse que o vídeo foi “pinçado e recortado”. O policial rodoviário afirmou ao Estadão que as declarações dadas durante a aula foram um “exemplo lúdico” sobre o que não deve ser feito durante o exercício da função. Segundo ele, a encenação da tortura, aos risos, foi uma brincadeira.

“Quero deixar claro que eu não corroboro com nenhuma prática de tortura e nunca pratiquei. Aquilo ali é um exemplo fictício. Tem seis anos aquele vídeo. Esse vídeo foi resgatado, pinçado e recortado. No final do vídeo, eu deixo claro que se trata de uma brincadeira. Foi um exemplo acerca da própria lei 455 (tipifica o crime de tortura). Um exemplo infeliz ali no momento. Não corroboro, não pratico e nunca vi um ato desses na PRF”, afirmou Bandeira ao Estadão. 

Quando perguntado sobre o caso de Sergipe, Bandeira disse não poder se manifestar, em nome da PRF, sobre o assassinato de Genivaldo de Jesus por colegas de corporação. O policial também não comentou a semelhança entre os métodos aplicados pelos agentes e os ensinados por ele aos seus alunos no curso preparatório.

“A gente, na sala de aula, traz casos para fazer o aluno entender, de tal forma que o aluno traga o exemplo fictício para a vida real. A gente usa esses exemplos elucidativos em uma turma de carreira policial, que infelizmente pode se deparar com essas situações dessas, que não devem ser praticadas e que ele pode ser responsabilizado por isso”, disse.

Com 20,9 mil seguidores no Facebook e outros 13,4 mil no Instagram, Bandeira se comporta como celebridade e foca em produzir conteúdos motivacionais que levem o público das suas redes sociais a se inscrever nos cursos preparatórios oferecidos por ele para aprovação nos concursos da PRF. O pacote com as aulas é vendido por R$ 899 em um site com o nome do agente, que também é o dono  da RBCarreiras. Ao Estadão, ele descreveu a empresa como  “um curso preparatório para concursos públicos voltados para carreiras policiais”.  

No Youtube, Bandeira publica vídeos em dois canais: o RB Carreiras Policiais, com 56,3 mil inscritos, e o Embaixador do CTB, com apenas 75 inscrições. O primeiro canal é utilizado para publicar conteúdos selecionados dos cursos preparatórios, com publicações que abarcam desde aulas de língua portuguesa até a análise da proposta do presidente Jair Bolsonaro (PL) de reestruturação da PRF. “Eu tento trazer educação e conhecimento para o público em geral”, disse ao Estadão.

Na conta de menor alcance, que conta com apenas dois vídeos, Bandeira fez uma publicação intitulada “Como é ser um PRF?”, com explicações sobre a vida de policial rodoviário. Em tom informal, o agente come pão com mortadela e entretém o público com comentários sobre sua dieta, o uso confesso de anabolizantes com acompanhamento médico, a rotina na instituição e os motivos para não consumir bebidas alcoólicas.

"Eu queria um trabalho mais ameno, que eu tenha autonomia, tempo livre para fazer outras coisas que eu queria e que tenha um salário razoável, então optei pela Polícia Rodoviária Federal. E também porque eu amo, sempre tive esse sangue policial”, disse Bandeira no vídeo.

Bandeira explica ter se dedicado à carreira de policial rodoviário porque, na época em que prestou o concurso, a corporação oferecia salários mais atrativos do que as Forças Armadas. Às 300 pessoas que assistiram ao vídeo, o agente disse amar o que faz, mas também faz críticas sutis à PRF, como o desejo que a instituição aumentasse o efetivo.  

Procurado pela reportagem, o Ministério da Justiça e Segurança Pública disse que a avaliação do comportamento do agente é responsabilidade da Polícia Rodoviária Federal. A Corporação não respondeu ao contato do jornal até a publicação deste texto.

 

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