'Quem tem informação tem o poder'

Presidente da SIP diz que diferença do Brasil em relação a alguns países vizinhos é a autonomia do Poder Judiciário

Entrevista com

GABRIEL MANZANO, ENVIADO ESPECIAL / LIMA, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2011 | 03h03

Para que exista de fato liberdade de imprensa é preciso acabar a impunidade. Assim, curto e direto, o presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Gonzalo Marroquín, resume suas experiências de dois anos na cúpula da entidade, um como vice e outro como presidente.

Na véspera de passar o cargo a Milton Coleman, jornalista do Washington Post, que assume no final da Assembleia-Geral, na terça-feira, ele conclui que a entidade avançou muito, abriu frentes, mas o resultado prático foi pouco. Essa briga contra quem não quer que a sociedade seja informada "é uma luta diária, que nunca acaba". A SIP tem insistido com muitos órgãos de informação, por toda parte, para que "não aceitem cair na autocensura".

Nesta entrevista ao Estado, entre duas reuniões da SIP no Swissotel, em Lima, no Peru, Marroquín - que dirige o jornal Siglo 21, na Guatemala - afirma, também, que vê na presidente Dilma Rousseff não apenas declarações formais, mas "uma real vocação de respeito à liberdade de expressão". E diz o que considera a grande diferença entre o Brasil e alguns vizinhos: é que no Brasil "o Judiciário não está submetido ao Poder Executivo".

Este encontro da SIP começa à sombra de uma má noticia, a morte de 21 em seis meses. Por que esse número foi tão alto?

Há muitas causas. Em grande parte, como no México, isso vem do crime organizado. Mas o problema, que também se estende a outros países, é que persiste a impunidade no assassinato de jornalistas. Enquanto essas pessoas continuarem impunes, e foi isso que ocorreu nos últimos dez anos, os números altos de vítimas vão continuar. Os Estados têm obrigação de investigar esses crimes, capturar os culpados, processá-los e condená-los. Mas há outros fatores ao lado desses.

Quais?

Falta as autoridades adotarem medidas como federalizar a investigação. Em nível regional é muito difícil consertar. Em pequenas cidades há muitos juízes que ou estão corrompidos ou estão ameaçados. Isso precisa mudar, praticamente no continente inteiro. E temos enfim o desafio político, que é a crescente aprovação de medidas para reduzir o espaço da liberdade de imprensa. Há uma batalha clara contra a imprensa independente, para controlar a informação.

O que a SIP tem feito de concreto nessa guerra?

Mantemos uma pressão constante sobre governos. Veja o México. Fizemos duas ou três missões por ano, com diferentes presidentes. Recebemos discursos muito positivos e pouca ação concreta. Sabemos que o problema não é simples. Mas o fato é que não encontramos tampouco vontade política para levar isso em frente. Também adotamos outras medidas, como levar casos graves à comissão interamericana de direitos humanos da OEA (a Organização dos Estados Americanos), mas o problema é que tais assuntos precisam sempre passar por etapas judiciais em cada país. Posso garantir que a SIP tem, sim, uma política definida, um trabalho constante em defesa dos jornalistas assassinados. E se preocupa em informar e orientar os profissionais na prevenção, para reduzir os riscos.

Que medidas, por exemplo?

Que se mantenha o anonimato de quem escreve, que várias publicações possam publicar uma mesma informação - ou seja, que se deixe de lado o zelo da exclusividade. Entendemos que, quanto mais se divulga uma notícia, mais difícil é atacar um jornalista só. A SIP, enfim, faz o contato com governos, acompanha em órgãos internacionais e procura capacitar melhor os profissionais da informação.

Quatro países têm tomado mais tempo da entidade nessa cruzada: Venezuela, Equador, Bolívia e Argentina. O sr. espera que as coisas melhorem nesses lugares?

Temos de estar preocupados, pois não temos eco em nossas demandas com esses governos. Eles até se negam a dialogar com a SIP. O que não podemos é mostrar fraqueza, como não o podem, igualmente, os meios de comunicação locais, em cada um deles. Temos insistido com esses jornais para que não aceitem cair na autocensura, fiquem firmes. Nesse sentido criamos uma cruzada, fazendo de 2011 o ano internacional da informação.

No que consiste essa iniciativa?

Em chamar a sociedade, por toda parte, para que compreenda que, quando começa um processo contra uma mídia ou se limita o espaço da informação, não é só o jornal ou o jornalista que perde. É toda a sociedade, pois ela fica menos informada e mais fraca. Sem o fluxo da informação, quem sofre é a democracia, no final. As atitudes que vemos nos governos, mesmo quando se caminha, como agora, para várias eleições nacionais, são autoritarismo, intolerância e governantes que querem se manter no poder. Os políticos sabem, os cidadãos também, que quem tem informação tem o poder. E o que os políticos querem é o poder que lhes dá a informação. E não o querem nas mãos dos outros, do povo, que é o que a imprensa faz.

O Brasil lhe parece já seguro, afastado desse quadro?

O Brasil é um país grande, com muitas particularidades. De modo geral, encontramos nas mensagens da presidente Dilma Rousseff, não só um discurso, mas uma real vocação de respeito à liberdade de expressão. O que temos de fazer é ficar sempre atentos, para corrigir problemas que apareçam no caminho. A diferença dos demais é que no Brasil o Judiciário não está submetido ao Poder Executivo, como ocorre em Venezuela e Equador e, em menor grau, na Argentina e na Bolívia. É preciso manter essa vantagem, que está na direção correta.

Acha que está deixando a SIP, na terça-feira, em situação melhor do que quando lá entrou?

Foi um tempo interessante. Decretar 2011 como ano da liberdade de expressão nos levou a formular essa necessidade, de que a imprensa faça estratégias junto com a sociedade civil, para se defender. Temos tido contato com entidades de todo tipo, profissionais e cívicas, ONGs, com os mesmos princípios e valores - isso foi uma novidade. Mas não alcançamos os resultados esperados, e não podemos descansar nisso, temos que avançar mais nos próximos anos. Tivemos missões no Chile, na Argentina, no Equador e no México.

Seu sucessor, a ser anunciado na terça-feira, deveria manter essas estratégias?

Acredito que sim. Este ano e em 2012 haverá eleições presidenciais em vários países do continente e temos de acompanhar. Volto a insistir que um dos caminhos é conseguir que a sociedade entenda que essa luta é não só das mídias, mas principalmente dela.

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