''Quintais'' modernos para atletas miúdos

Correr e pular viraram coisa séria nas novas ?academias? infantis

Ana Carolina Sacoman, O Estadao de S.Paulo

23 Agosto 2009 | 00h00

Os pequenos atletas correm para lá e para cá suados, felizes e rodeados de supervisores. A possibilidade de uma queda ou uma virada de pé é praticamente nula. Cantos acolchoados, chão de espuma e brinquedos adequados para cada faixa etária fazem os quintais de ontem, com subida em árvore, corre-corre e guerra de lama, parecerem mesmo coisa do século passado. "Antes, esse tipo de atividade física acontecia naturalmente. Isso não existe mais", diz Thais Japequino, diretora executiva da My Gym no Brasil. O "quintal moderno" comandado por Thais segue uma metodologia americana, nascida há 26 anos, que tem como base princípios da ginástica olímpica - e só em março desembarcou no Brasil. Num espaço colorido e cheio de brinquedos funcionais, os pequenos desenvolvem coisas sérias, como equilíbrio e coordenação motora, enquanto brincam. As turmas são divididas por "faixa de desenvolvimento motor". E eles até perdem medos. Foi o que aconteceu com o pequeno Eduardo Dan Tomiya, o Dudu, de 4 anos. "Ele era inseguro em relação à altura; nunca subia em um brinquedo alto", conta a mãe, Leonice Tomiya, de 38 anos - quem viu o menino se pendurando em um tipo de trapézio até duvida. O fofo está há apenas um mês na escolinha. "A mudança é visível", comemora a mãe. As atividades começam cedo por ali. Os pimpolhos podem ser matriculados a partir das 6 semanas de vida, até os 13 anos. As mães participam das aulas até os 3 anos e meio. "É uma hora de qualidade com meu filho. Esse tempo juntos é nosso", diz Ana Maura Del Picchia, de 37 anos, mãe do Rodrigo, de 4, e do Arthur, de 1 ano e 9 meses. Eles frequentam o espaço desde março e o pequeno já dá mostras de independência, outra característica valorizada na escolinha. Rodrigo, o mais velho, segundo Ana Maura, ganhou muito em coordenação motora e sociabilidade. As aulas, de 45 minutos para quem tem até 14 meses, e de 1 hora para o resto do pessoal, uma vez por semana, envolvem música, dança, uma pitada de ginástica e terminam com show de fantoches. Isso, garantem mães e professores, sem estimular a competitividade, outro mandamento sagrado para as escolinhas. A ordem, ali, é dar corda para a sociabilização. Os especialistas aplaudem. "Até 10 anos, o pai não pode colocar a criança em um esporte competitivo porque ela não sabe perder", pontua Jorge Ismael Huberman, pediatra e neonatologista do Hospital Albert Einstein e do Instituto Saúde Plena. CONVENCIONAL Não estressar os miudinhos vale também nas aulas convencionais. A Bem Me Quer Sports, academia exclusiva para crianças, tem como princípio ser uma extensão da escola. Elas podem ficar meio período e praticar três modalidades num dia. Se cansarem das aulas, vão para o playground exercitar a "arte" de ser só criança. "Não queremos estafar os alunos. Eles têm de ter prazer de vir para cá", diz a coordenadora da unidade da Vila Mariana, Rosana Gregório Ferraz. O método é uma mão na roda para as mães. "Eles ficam aqui sempre que eu preciso", afirma Carolina Cretella Vaz Conn Muniz, de 37 anos, mãe do Raphael, de 7, e da Manoela, de 5 anos. "Aqui existe uma relação de confiança e vínculo." A facilidade pode ficar em torno de R$ 660 por criança. A proposta tem se mostrado eficaz. A academia exclusiva começou há 11 anos, na Vila Olímpia, e hoje tem outras duas unidades, além de estar em quatro condomínios de São Paulo e num colégio. No total, são cerca de 1.500 alunos. Ali eles podem praticar de judô a sapateado, mas a atração é mesmo o circo, onde se penduram em trapézios e gastam a energia na cama elástica. "Essa é a aula em que eles podem fazer tudo o que não é permitido em casa: correr, pular, saltar. Por isso, o sucesso", especula Rosana. Os muito pequeninos, que ainda não se penduram por aí, são o foco da Baby Steps Lounge. Entre aulas de música e arte, bebês a partir dos 3 meses participam de classes de movimento, em circuitos especialmente planejados para a escolinha, que mudam constantemente. "Trabalhamos o desafio motor", explica Gláucia Maciel, sócia-diretora da escolinha. Os maiores, a partir dos 4 anos, têm aulas preparatórias para a pré-escola que também incluem atividade física. Entre aulas na horta e almoços orgânicos, eles suam a camiseta em circuitos coloridos. VONTADE Para o fisiologista da Unifesp e coordenador do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte (Cemaf), Turíbio Leite de Barros, a atividade física da criança tem de ser lúdica, uma brincadeira espontânea. "Os pais devem oferecer liberdade para a criança escolher o que quer fazer", diz. O médico cita um bom termômetro para saber se o pequeno está ou não pronto para as aulinhas: ele tem de conseguir se comunicar e, a partir daí, manifestar o desejo de participar de alguma atividade física. "Não pode forçar." Baby Steps Lounge: www.stepsbabylounge.com.br; Bem Me Quer Sports: www.bmqsports.com.br; My Gym: www.mygymbrasil.com.br ESPORTES ADEQUADOS A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda, para crianças de até 13 anos, pelo menos cinco horas semanais de atividades. Veja as mais adequadas: Até 5 anos: natação Mais de 5 anos: balé e recreação, como jogar bola Mais de 8 anos: esportes coletivos, como vôlei e futebol, e atividades que requeiram concentração, como artes marciais Mais de 10 anos: corrida Mais de 12 anos: a musculação está liberada Fonte: Jorge Huberman, pediatra do Albert Einstein

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