Quitéria e o sonho inacabado

Apartamento entregue por Lula não tem piso nem pintura, mas ela conta com o filho Edinaildo

, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

Ainda não tem piso no dois quartos e sala de dona Quitéria Maria Andrade da Silva, de 67 anos. "Pode entrar, moço", ela convida, meio encabulada com o chão de cimento batido e paredes sem pintura. "O Edinaildo vai fazer o acabamento, vai ficar bonito."

Edinaildo Andrade da Silva, 43, "pintor, motorista, pedreiro, de tudo ele faz um pouco", é filho dessa pernambucana de Arcoverde que ontem recebeu das mãos do presidente Lula as chaves de sua moradia inacabada, o apartamento 2, térreo, bloco 6, Núcleo Serraria 1.

Não há móveis nem adornos na casa de Quitéria. No canto, uma pilha de lajotas, ainda no papelão, e um punhado de cerâmica que Robson Timóteo de Andrade, seu sobrinho, lhe deu de presente. O rapaz é vendedor, trabalha no Extra da Anchieta. "O Robson foi quem comprou."

Reza o contrato, ela diz, que à empreiteira cabia apenas colocar azulejos e o piso da cozinha e do banheiro.

É assim, sobre o alicerce do improviso, o conjunto habitacional que o presidente da República inaugurou em cerimônia que dividiu com o ministro Márcio Fortes (Cidades), o prefeito Mário Reali, de Diadema, e umas 200 testemunhas que desafiaram garoa fina e 12 graus às 11 da manhã.

Lula conheceu apartamentos apertadinhos e apareceu na janela do segundo andar para fotos ao lado de uma moradora. No palanque ele recebeu Isabel, Flor, João Baiano, Severino e outros a quem chamou de companheiros ? e a eles anunciou a liberação dos imóveis construídos sobre um terreno muito próximo da antiga Favela Naval onde, faz 13 anos, um soldado, que ficou famoso como o Rambo, executou a tiro o mecânico Mário José Josino. Era a noite de 31 de março de 1997. O arbítrio, filmado por um morador, chocou o mundo.

O governo informa que o empreendimento representa a primeira parte do PAC relativa à urbanização do Núcleo Naval. Investimento de R$ 13,8 milhões. Ontem, foram entregues 252 unidades, 204 no Serraria 1 e 48 no Piraporinha 2. A meta é o reassentamento das famílias que viviam à beira do córrego que corta área às margens da Imigrantes, quilômetro 20.

Cada apartamento tem 50 metros quadrados. Parte da conta vai para os moradores. A prefeitura anota que os custos por unidade, "agregando infraestrutura, sem o valor da terra, é de cerca de R$ 43 mil". Dez anos é o prazo para quitação do imóvel, valor "cobrado de acordo com a capacidade de endividamento de cada morador". O cálculo das parcelas tem como base a renda de cada família e não pode ser superior a R$ 135,50.

Flordinice Souza Caldeira, 42 anos, ajudante de cozinha, R$ 510 por mês, tem ciência de que o apartamento 5, bloco 7, não vai sair de graça. "Vou pagar uma prestação, não é? Não sei quanto vai ser, acho que é sobre o quanto a gente ganha." Dia 24, prevê, já poderá ocupar seu patrimônio.

Ela relata desgraças que enfrentou, "tempestade, inundação, praga, violência", e a tudo resistiu com os três filhos que sozinha criou desde que chegou de sua Nanuque, em Minas, faz 24 anos.

"Aquele tempo lá foi muito ruim para nós todos, muita discriminação policial. Fogo, enchente. Era horrível, a gente perdia tudo, colchão, geladeira, não sobrava nada. Não arrumava emprego. Eu ia pedir trabalho e perguntavam de onde eu era. Eu dizia que era da Naval, não arrumava colocação. Me dava medo."

É página virada. Flordinice está feliz da vida, ri à toa. Ganhou as chaves e, de quebra, um abração do presidente Lula e outro do prefeito Reali. "É um sonho que virou realidade." / F.M.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.