Quitinete e 1 quarto são novo perfil

Antes, apartamentos da CDHU eram de 2 e 3 dormitórios; solitários ocupam 11% das moradias paulistas, diz IBGE

O Estadao de S.Paulo

09 Agosto 2008 | 00h00

Para atender os diferentes perfis da nova família brasileira, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) criou outras configurações de apartamento, além dos imóveis de dois e três dormitórios (de 48 e 55 m2) que constrói. Nas 85 unidades a serem entregues neste mês, 31 têm um dormitório e 29 são quitinetes. Solitários ocupam 11% das moradias paulistas, ou 1,4 milhão de domicílios, segundo o IBGE. Desses, 60% têm renda entre 1 e 10 salários mínimos, faixa atendida pela CDHU. Nos cortiços, chegam a 38% - ou 3 mil dos 38 mil que vivem nesse tipo de habitação no centro, 42% deles de 25 a 40 anos. São pessoas como Antonio Gomes, solteiro convicto de 33 anos, que veio de Pernambuco aos 20 e desde então vive sozinho. Ele aguarda por seu quitinete no centro, perto da padaria onde trabalha, no Edifício Copan. "Se já é difícil me virar sozinho, que dirá sustentar dois", diz. Solitários, assim como famílias mononucleares e anaparentais e casais homossexuais são uma nova demanda para a CDHU. Mas a companhia não prevê aumento de recursos. "Não acreditamos numa avalanche de inscrições. Grande parte da demanda já estava prevista nos projetos de urbanização de favelas e erradicação dos cortiços. Só não sabíamos que haveria esses perfis", diz Eduardo Trani, chefe de gabinete da CDHU. Este ano, a companhia entrega 33 mil unidades e, em 2009, outras 45 mil estão previstas - o déficit habitacional no Estado chega a 620 mil. Quando soube que o assentamento onde vive seria removido, a pintora Rosana Gomes, de 28 anos, procurou a CDHU. Solteira, sem filhos, teve o financiamento negado. No dia seguinte, a manicure Rose Ferreira, sua companheira há um ano, separada há cinco e mãe de uma menina de 7, voltou à CDHU na esperança de conseguir o apartamento. Ela não tinha como assumir sozinha as parcelas e explicou que as duas vivem em união estável e criam a menina juntas. "Disseram que o apartamento teria de ser só no meu nome. Mas a última carta da CDHU já veio com o nome das duas", comemora Rose. Cada uma terá 50%, e a menina será herdeira. Sem filhos, os professores Reginaldo Alves e José Oliveira vivem juntos há 5 anos, mas sua renda era insuficiente para um financiamento privado. Eles acabam de receber da CDHU carta de crédito no valor de R$ 57 mil. A companhia exige de casais homossexuais uma declaração de união estável, registrada em cartório. Outras famílias têm de comprovar a relação afetiva e a convivência. Já os solteiros devem ter mais de 25 anos e renda suficiente. Lilian Siqueira, de 19 anos, era apegada à avó e passava mais tempo na casa dela e da tia, Elaine, de 32, que com a própria mãe. Quando a avó morreu, Elaine e Lilian foram morar juntas. "Mas me disseram que seria impossível o financiamento, porque somos tia e sobrinha." Dias depois, receberam a boa notícia: elas esperam a entrega do apartamento de 48 m2 , onde cada uma terá seu quarto, em Franco da Rocha. A entrada foi de R$ 6 mil e 300 prestações de R$ 290. "Parece muito, mas é menos que o aluguel na Casa Verde; e esse será nosso", diz Elaine. Danilo Silva, de 22 anos, foi criado pela avó, Maria Carmelita, de 70. Pela antiga regra, ela tinha direito apenas ao uso do apartamento - para compra, a idade somada ao tempo de financiamento não pode ser superior a 80 anos. Com renda de R$ 600, Danilo assumiu sozinho as prestações. Assim como a faxineira Maria Silva, de 49 anos, divorciada há 20. Ela não vê a hora de trocar a pensão onde divide cozinha e banheiro com estranhos por sua quitinete, no centro. Valdenice Maria, de 59 anos, que veio da Bahia aos 17 e sempre viveu em cortiços, será sua vizinha. Enquanto aguarda, ela mora em um quarto, ao lado da construção. "Está ficando lindo", diz.

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