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Erro fez professor virar ?marajá?

Renato Machado, O Estadao de S.Paulo

18 de junho de 2009 | 00h00

O dia tinha tudo para ser mais um na rotina do professor Cláudio de Rezendes Silva, de 34 anos. Com exceção do sentimento de fim de festa que aparece após comemorar o aniversário, ele repetiu o que faz todas as manhãs e acordou quando o céu ainda estava escuro, tomou café da manhã e viajou mais de uma hora até o trabalho. Só que ao chegar à escola onde dá aulas, descobriu que era o maior "marajá" da Prefeitura - pelo menos para todas as pessoas que entraram no site do Município e viram os salários dos servidores.A listagem da Secretaria Municipal de Educação indica que o professor recebeu em maio R$ 142.845,02, quase 70 vezes o salário do mês anterior. "Eu sabia que tinha dado problema, tanto que não recebi pagamento. Mas tudo tinha sido resolvido, até que hoje a imprensa veio aqui perguntando o que fiz para ter um salário desses como professor."Silva dá aulas de educação artística na Escola Municipal Flávio Augusto Rosa, na Vila Itaim, bairro pobre na periferia da zona leste. Desde março, atua como professor contratado em período integral na instituição, começando a trabalhar às 7 horas e saindo no início da noite. Ele recebe por mês cerca de R$ 2 mil. A vida que o professor leva pouco condiz com uma renda como a apontada pela Prefeitura. Formado em Ciências Contábeis e Artes Plásticas, vive em uma cidade do interior e sempre viajou para dar aulas. Depois de cinco anos na rede estadual, em Itaquaquecetuba, viu sua carga horária diminuir e, por isso, veio para a capital. Todos os dias, ele sai cedo e retorna no fim da noite. Quando chega em casa, a primeira coisa a fazer é preparar a marmita para o dia seguinte, formada por feijão, arroz e alguma mistura. "O diretor da escola deu de presente aos professores um forno micro-ondas e todos trazem refeição de casa." Seu estilo também indica se tratar de uma pessoa simples. Usa luzes no cabelo e trabalha com calça de agasalho de moletom.O pior é que ele obteve a fama de "marajá" sem nunca ter tocado nas centenas de milhares de reais. O holerite de maio trazia um rendimento bruto de R$ 142.845,02, mas logo em seguida mostrava um desconto na mesma quantia, incluindo os centavos. Ou seja, Silva ficou sem salário. Só que o site da Prefeitura expõe somente os rendimentos brutos e, por isso, Silva aparece como o líder em ganhos.A confusão com seu salário começou após o professor faltar duas vezes no mês de abril - ambas justificadas, sendo uma para doar sangue. Mas uma secretária cometeu um erro de digitação quando fechava as contas de horas trabalhadas. Em vez de digitar separado o número de faltas (2), a data das ausências (28) e o código (06), ela colocou tudo no mesmo campo, o que fez com que oficialmente ele tivesse se ausentado em 22.806 aulas.O sistema de escolas, no entanto, tem um mecanismo chamado "débito a regularizar", que impede que os professores fiquem em débito com o poder público. Por isso, a mesma quantia em débito foi revertida em crédito. "Fizemos um depósito para ele de R$ 1,9 mil, já que ficou sem salário, mas no próximo pagamento tudo estará certo", disse o diretor da escola, Alexandre de Oliveira. Mas a divulgação de um salário exorbitante preocupa o professor. "Eu trabalho num bairro perigoso e todo mundo vai achar que eu tenho um salário astronômico. Claro que tenho medo."

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