Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Racionalidade deve permear o uso da tecnologia

Dos carros autônomos à desigualdade social, inovações nos transportes podem ajudar ou atrapalhar; só depende das pessoas

Luiza Pollo e Lucas Lopes, especiais para O Estado, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2019 | 05h00

“A tecnologia é a cereja do bolo, não o bolo em si”, comparou Timothy Papandreou, Fundador e CEO da Emerging Transport Advisors, ainda no início do Summit Mobilidade Urbana 2019. Antes de mais nada, diz ele, as cidades precisam se preocupar em melhorar a infraestrutura urbana, abrindo espaços específicos para veículos autônomos, bicicletas e patinetes elétricos. Se essa estrutura for bem implementada, a tecnologia se encaixa naturalmente.

“Os veículos autônomos não vão oferecer benefícios ou perdas por si só. São as políticas da cidade que vão determinar se a tecnologia vai trazer benefícios ou problemas. Se a cidade disser ‘vamos deixar nossas ruas exatamente como estão’ e não mudar nada, quando a nova tecnologia chegar, teremos exatamente o que temos hoje: uma grande bagunça.”

Segundo ele, a solução passa pela aproximação entre os setores público e privado. A inovação costuma vir de dentro das empresas e universidades, e seria papel do governo abrir mais espaço para essas ideias. “Não significa liberar tudo”, adverte o especialista. “Há alguns limites, mas é preciso testar. Se não der certo, o governo e as empresas podem pensar juntos como melhorar.”

A implementação de tecnologias para a mobilidade foi um tema que permeou as discussões durante todo o evento. 

Questão social. “A gente tende a achar que a tecnologia vai resolver o problema, mas às vezes a gente pode também avançar num processo de perpetuar a desigualdade”, alertou Clarisse Linke, diretora executiva do escritório brasileiro do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP). 

Ela cita o debate que se acendeu recentemente sobre as condições de trabalho dos aplicativos que fazem entregas em bicicletas. Reportagens recentes mostraram que os entregadores, em sua maioria jovens moradores da periferia, chegam a fazer jornadas duplas para garantir salários que giram em torno de R$ 200 reais para 12 horas de serviço.

Outra questão levantada no debate foi a inclusão do comércio local e de trabalhadores informais, literalmente, no mapa. Ações para colocar pequenos comércios no Google Maps foram citadas como uma forma de estimular a inclusão digital e fomentar o comércio local. “Todo o crescimento da internet no Brasil nos últimos anos é pela incorporação de pessoas mais pobres”, observou João Paulo de Resende Cunha, gerente de pesquisas do Instituto Locomotiva.” É um ambiente cada vez mais popular, felizmente.”

Cidades inteligentes. Especialista em inovação urbana e participação das mulheres em projetos de tecnologia, a doutora em cidades inteligentes Stella Hiroki comparou as mudanças que vivemos no cenário da mobilidade por meio da tecnologia com o surgimento da luz elétrica no século XIX. “A luz elétrica possibilitou que as pessoas vivessem os locais urbanos à noite. A tecnologia hoje nos possibilita ter novas experiências e nos deslocarmos de formas diferentes no espaço urbano.”

Apesar de ocupar lugar central na discussão sobre smart cities, a tecnologia sozinha é ineficiente. Hiroki explicou a importância de entender que as pessoas estão presentes em todas as etapas do desenvolvimento das tecnologias, desde a elaboração até o consumo e por isso é preciso que exista uma atuação conjunta entre a parte humana e a tecnológica. 

“Entendemos que hoje as cidades inteligentes têm, além das plataformas tecnológicas, um movimento da população usando as tecnologias de forma crítica: pensando quais são os problemas sociais para trabalhar em conjunto com as plataformas de tecnologia. A tecnologia sozinha não irá transformar uma cidade em smart city.”

Dados. A tecnologia permite que se tenha um melhor entendimento e aproveitamento sobre os dados de mobilidade urbana que são coletados. Para Henry Liu, cientista-chefe de transporte inteligente da DiDi, a utilização de dados em tempo real vai além da resolução de problemas do trânsito. “Os dados que coletamos na DiDi e na 99 não são usados apenas para o controle do fluxo, mas também para calcular custos operacionais, entre outros.”

Para Regis Nieto, sócio e colíder de Indústria Automotiva & Mobilidade do Boston Consulting Group (BCG), os dados sobre mobilidade urbana são aliados importantes para um planejamento eficaz a longo prazo. “É importante usar os dados de hoje para simular e prever o que vai acontecer e se preparar para um futuro que não está tão longe”, disse ele. 

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